No rescaldo da Declaração de Independência, os EUA depararam-se com um dilema sobre o que fazer do país: Alexander Hamilton queria um governo federal forte. Thomas Jefferson temia que Washington se transformasse numa nova Londres: distante, centralista e autoritária. Hoje, enfrentamos um dilema semelhante na Europa.
Os federalistas imaginam uma Europa de pós-nações e sobretudo de pós-nacionalidades, com uma identidade única, diluindo nessa identidade europeia as diferenças entre povos. Deixamos de ser portugueses para sermos europeus. Já os nacionalistas apenas veem dentro da sua fronteira e desconfiam muito do pouco que conseguem enxergar fora. Somos só portugueses, jamais europeus. Nenhuma destas posições é feliz – podemos ser portugueses e europeus.
Ademais, o mundo mudou. A ordem liberal mundial – um mundo multilateralizado, com instituições internacionais e um projeto comum de prosperidade e paz – está seriamente ameaçado pelo regresso de uma visão assente em blocos político-militares em que reina o princípio do mais forte. E isto não é uma consequência da eleição de Trump – Trump é apenas um sintoma desta mudança, que perdurará para lá do seu mandato.
Nesta nova configuração mundial, a Europa surge claramente enfraquecida e secundarizada. As nações e impérios que outrora foram já não o são. A Itália do Império Romano, a França Napoleónica ou o Império Britânico eclipsaram-se. As nações europeias de hoje não têm a pujança económica, a influência política ou a destreza militar do passado.
A Europa de hoje fala a várias vozes, não raras vezes dissonantes, e nem sequer representam todos os europeus. Macron apenas representa os franceses e Merz os alemães. Já quem representa Ursula von der Leyen só Deus sabe, dado que não foi eleita por sufrágio direto e universal.
Perante isto, há quem sugira o fim da própria União Europeia. Esta solução, ou seja, um ramalhete de pequenos estados insignificantes num mundo polarizado e de grandes blocos pode servir muitos interesses – os da China, da Rússia ou até desta nova administração americana – não nos serve é a nós.
A multiplicidade de comunidades e nações que aparentemente fragiliza a Europa é também a sua grande força. Somos uma comunidade heterogénea de povos que partilham um chão comum e perfilham uma mesma vontade: a de um mundo mais próspero. O que nos falta é uma organização democraticamente legitimada que potencie os seus povos e nações, sempre em respeito pelas suas diferenças. Não é uma federação contra os estados, é uma federação para os estados. A Europa pode ser o maior espaço democrático do planeta, a potência tecnológica que alia liberdade e inovação, a força militar que defende os seus cidadãos sem depender de Washington. Os novos líderes do mundo livre.
Escrevo isto sem particular gosto. Isto é, nunca fui federalista, embora seja convictamente europeísta. Sempre vi na integração económica, mais do que na política, o caminho para uma Europa melhor. O problema é que o dilema que hoje se coloca já não é o do progresso, mas o da sobrevivência: ou a Europa se refunda, ou colapsa.
Paradoxalmente, os céticos do federalismo terão um papel essencial, tal como nos EUA. Pessoas como Jefferson foram fundamentais para que a federação americana assegurasse um equilíbrio de poderes que respeitasse o indivíduo e a autonomia dos estados, ao invés de um estado distante, centralista e potencialmente autoritário. Os fundadores, prudentemente, não se queriam libertar de uma coroa opressiva para correr o risco de lançar as sementes de uma república repressiva.
A federação americana foi erigida com base no lema E pluribus unum – todos os estados juntos contra ameaças externas (a coroa britânica), mas também internas (um governo federal despótico). ‘Ou juntos, ou irrelevantes’ é o lema que a Europa poderá adotar.