O mundo está em mudança acelerada. Vivemos tempos marcados por instabilidade geopolítica, pressões sobre os nossos modelos democráticos, desafios económicos e climáticos que nos têm ultrapassado a todos. No seu discurso sobre o Estado da União, Ursula von der Leyen não só reconheceu este novo tempo, como apontou o único caminho possível: uma Europa mais autónoma, mais coesa e mais ambiciosa. De entre as várias prioridades elencadas, destaco três:
O foco nas indústrias limpas, com a proposta de alocar 1,8 mil milhões de euros ao apoio ao desenvolvimento de tecnologias verdes. Ou a Europa lidera a transição ou esta será liderada por outros. O investimento industrial em tecnologias limpas não é uma espécie de ambientalismo ingénuo, tem sim a ver com soberania económica, inovação e criação de emprego.
Outra prioridade importante é o reconhecimento da habitação como central nos desafios europeus. A proposta de von der Leyen de criar uma estratégia europeia para habitação sustentável e acessível, com medidas concretas para estimular a construção e para regular os arrendamentos de curta duração vem responder ao drama social da exclusão social a que milhares de portugueses e milhares de europeus são sujeitos. Este é um tema que constava do Manifesto eleitoral da AD nas últimas eleições europeias. Por isso, é bom ver que passou a estar na agenda da Comissão Europeia.
Por fim, e talvez a mais crucial seja mesmo a redefinição do papel da Europa no mundo. As nossas relações com as superpotências mundiais têm sido complicadas: ora nos ignoram, ora nos enfrentam abertamente. Nesta nova realidade, garantir autonomia energética e tecnológica não tem a ver com escolhas ideológicas. É mesmo uma questão de sobrevivência. E, como disse von der Leyen, também de liderança.
Ainda assim, continuam a levantar-se várias vozes contra o projeto europeu. Deixem-me, por isso, fazer um exercício simples e mais centrado em Portugal. Sem a União Europeia, não haveria PRR, não haveria Portugal 2030. Não teríamos uma rede de fibra ótica com 93% de cobertura. Teríamos menos de metade das autoestradas, menos comboios, menos investimento em saúde, ciência, universidades, agricultura ou habitação. Desde 1986, em quase 40 anos, recebemos mais de 167 mil milhões de euros. Fomos beneficiários líquidos todos os anos. Só em 2024 foram 3,7 mil milhões de euros em fundos europeus.
Sem a Europa, os portos não teriam sido modernizados. O Metro de Lisboa e o Metro do Porto não teriam sido expandidos. A linha de alta velocidade Lisboa-Porto não sairia do papel.
Na agricultura, não teríamos 37 mil milhões de euros em apoios. A revolução na vitivinicultura talvez nunca tivesse acontecido. No ensino superior, não teríamos aumentado exponencialmente o número de diplomados. E o SNS, apesar dos muitos problemas que continuam por resolver, não teria começado a ser modernizado como foi.
É verdade que nem todos os fundos têm sido bem aplicados e que a convergência com a Europa continua aquém do desejável. Mas negar a importância do projeto europeu, bem como o seu impacto em Portugal é ignorar a realidade.
Quando se fala do Estado da União, é disto que estamos a falar. De estarmos dentro, com voz, com voto, com ambição; ou de estarmos fora, num bloco e num país com menos infraestruturas, menos oportunidades e menos futuro. Por isso, sim, precisamos de redefinir prioridades e precisamos de aprofundar o projeto europeu.
E que Portugal esteja sempre do lado de dentro.