Os trambolhos

Afinal, os trambolhos, que os portugueses bem conhecem há anos sem fim sempre andaram por aí e por aí vão continuar a andar

Já quase tudo foi dito sobre o trágico acidente com o Funicular da Glória. Já discutimos detalhadamente quem podem ser os responsáveis – há-os para os todos os gostos, embora ainda ninguém tenha assumido a mínima culpa; a engenharia/funcionamento do também chamado elevador; as homenagens feitas e as por fazer e a quem. Já discutimos missas e as presenças nas mesmas. Debatemos com fartura o que é da política e o que não é da dita e quem a faz usando a desgraça. 

Mas o mais importante do discutido foram as causas do acidente. Um relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários confirmou que «o cabo que unia as duas cabinas cedeu no seu ponto de fixação dentro do trambolho superior da cabina n.º 1».

Os portugueses ficaram pasmados. Afinal havia outro. Havia outro trambolho para lá do que eles bem conheciam. Foram a correr ao Google e descobriram no Dicionário Online Priberam da Língua Portuguesa que o dito era «uma peça metálica robusta de engate entre o cabo de um de um funicular e o veículo». Ficaram mais descansados quando, no mesmo dicionário, o trambolho era também apresentado em sentido figurado como «algo que não tem utilidade; aquilo que atrapalha e incomoda».

Afinal o seu trambolho de sempre também existia. E tiveram a certeza absoluta quando, nos dias seguintes à tragédia ele, o seu trambolho, se revelou de forma exuberante, exibindo todas as características destes seres sempre que uma desgraça lhes bate à porta.

Acima de tudo, o trambolho não assume responsabilidade e se, a muito custo, assume, daí não tira qualquer consequência. Afinal pode até ter sido um azar, uma coisa do destino ou a mão do diabo porque havia ele, que diz ter a certeza que fez sempre tudo bem, ir trambolhar para outro lado, comprometendo a seu futuro tão bem planeado.

Mais, a criatura chama sempre outras da sua espécie, mas com mais poder, para atrás deles se esconder. Também pede que ninguém use tragédias em seu proveito, mas, depois, é ele o primeiro a faze-lo de forma despudorada, assim como, da mesma forma, esquece tudo o que disse e pediu no passado aos seus adversários quando tem de salvar a sua pele.

Este ser não responde a perguntas e dá poucas explicações porque, não vá por azar dos Távoras, escorregar em alguma frase ou facto que o comprometam. Quando muito apertado para dar explicações, lá aceita ir a uma entrevista. Leva, porém, preparada uma estratégia de que não sai: vitimiza-se, coloca as unhas de fora e ataca os seus adversários com armas que acha que os vão esmagar, como, por exemplo, acusando-os de serem assassinos a soldo ‘que vêm por trás’ para o matar, ainda que em sentido figurado (espera-se).

O trambolho navega em todo o lado e, hoje, as redes sociais são preciosas para ele. Não só são úteis para vender o seu ‘peixe’, como lhe podem dar pistas para a sua defesa, mesmo que essas pistas venham de fontes anónima ou nada credíveis. E aqui vale quase tudo, até infamar, sem provas, alguém que já morreu e, como tal, não se pode defender. Se for desmentido de forma clara pouco lhe importa, pode sempre voltar mais uma vez atrás. Afinal alguém acaba sempre por acreditar no lixo.

Afinal, os trambolhos, que os portugueses bem conhecem há anos sem fim sempre andaram por aí e por aí vão continuar a andar. Algumas vezes as coisas correm-lhes mal, mas estes seres, especialmente os que vivem no habitat político, mesmo sendo obrigados a mudar de vida, nunca deixam de ser trambolhos. l

*…se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato! (do poema Portugal de Alexandre O’Neill)