O novo primeiro-ministro francês foi recebido esta semana com uma vaga de protestos e manifestações de contestação aos cortes orçamentais. Quase 300 pessoas foram detidas em várias cidades do país depois do movimento Vamos Bloquear Tudo ter prometido paralisar serviços e transportes. Os protestos coincidem com mais uma crise política em França, depois de cair o Governo de François Bayrou com o chumbo de uma moção de confiança, e da nomeação de Sébastien Lecornu como primeiro-ministro.
As reivindicações dos manifestantes vão desde a redução dos custos médicos para os trabalhadores a condições mais generosas de baixa por doença. O Vamos Bloquear Tudo – surgido no verão pouco organizado mas com um apoio significativo online – ganhou força devido à inflação, às medidas de austeridade e ao que os apoiantes apelidam de classe política disfuncional. Uma sondagem mostrou que 46% dos franceses apoiam o movimento.
A catadupa de acontecimentos teve início na dívida francesa, a terceira mais alta da União Europeia depois da grega e da italiana. Perante este cenário, o até segunda-feira primeiro-ministro apresentou um plano de austeridade acompanhado de uma moção de confiança na Assembleia Nacional (AN).
Pela primeira vez na história da Quinta República, um Governo caiu por chumbo de uma moção de confiança no Parlamento. Dos 589 deputados da AN estiveram presentes 573. Destes, 364 votaram contra, 194 a favor e 15 abstiveram-se. Bayrou, nomeado para o cargo há menos de um ano, após a destituição do ex-negociador do Brexit Michel Barnier, apresentou a votação como um teste de coragem política. «Quis esta reunião e alguns de vós — provavelmente os mais numerosos, os mais sensatos — pensaram que era irracional, demasiado arriscado», disse na abertura da votação. «Penso exatamente o contrário. O maior risco era não correr nenhum, deixar as coisas continuarem sem nada mudar», acrescentou Bayrou.
No centro estão as finanças públicas de França. No ano passado, o défice atingiu 5,8% do PIB, quase o dobro do limite da UE (3%). Já a dívida pública ascende a mais de 3,3 biliões de euros – quase 114% do PIB.
Bayrou argumentou que os cortes são inevitáveis, apresentando um plano para reduzir 44 mil milhões de euros em despesas até 2026, em parte eliminando dois feriados públicos. «O nosso prognóstico vital está em jogo. França não tem um orçamento equilibrado há 51 anos», alertou Bayrou, mas a Oposição criticou a austeridade. «Quero dizer-vos quão feliz estou por o Governo cair hoje. Para muitos cidadãos franceses, é um alívio», disse Manuel Bompard, do partido de extrema-esquerda França Insubmissa (FI), ecoando vozes de todo o espetro político.
Desde o início do segundo mandato do Presidente francês, em maio de 2022, sucederam-se na liderança do Executivo Elisabeth Borne (até janeiro de 2024), Gabriel Attal (até setembro de 2024), Michel Barnier (até dezembro de 2024) e François Bayrou. E, agora, Emmanuel Macron nomeou o ministro da Defesa, Sébastien Lecornu, como o próximo primeiro-ministro (PM), o que afasta a realização de novas eleições.
A Presidência informou terça-feira à noite que Macron «encarregou» Lecornu de «consultar as forças políticas representadas no parlamento para adotar um orçamento e desenvolver os acordos essenciais para as decisões nos próximos meses». O novo PM terá de escolher o seu gabinete nos próximos dias.
Depois do comunicado do Eliseu, somaram-se as reações dos partidos. «Só a saída de Macron pode pôr fim a esta triste comédia de desprezo pelo Parlamento, pelos eleitores e pela decência política», publicou o líder da FI, Jean-Luc Mélenchon.
«O Presidente está a disparar o último cartucho… entrincheirado com o seu pequeno grupo de leais», ironizou Marine Le Pen, copresidente do partido de extrema-direita Rassemblement National (RN), que tem apelado a Macron para que convoque novas eleições. Mas a dissolução do Parlamento poderia ter um resultado inconclusivo, pelo que Macron declinou a opção.
Lecornu, 39 anos, é o sétimo primeiro-ministro desde que Macron tomou posse, em 2017, o quinto desde o início do segundo mandato presidencial, em 2022, e o terceiro no espaço de um ano. Defensor da estabilidade, é conhecido por ser discreto, prudente, qualificado, mas também hábil nos bastidores políticos e sem ambição de se tornar Presidente. Foi ministro da Defesa nos últimos quatro Governos e antes ministro dos Negócios Estrangeiros (2020-2022), ministro das Autoridades Territoriais (2018-2020) e secretário de Estado para a Transição Ecológica e Solidária (2017-2018). Tinha-se juntado aos centristas em 2017, quando abandonou os republicanos do LR devido a um o caso de corrupção.
O novo primeiro-ministro, que antes de ter 30 anos já tinha sido presidente da Câmara de Vernon (cidade do norte com 25 mil habitantes), ascendeu a partir de então na hierarquia gaulesa. Como ministro da Defesa, conseguiu o apoio de Macron para a ambiciosa lei que concederá às Forças Armadas um aumento de 6% no orçamento de 2024 a 2030.
Filho único de uma mãe secretária num consultório médico e de um pai técnico numa fábrica aeronáutica e aeroespacial, Lecornu foi educado numa escola católica e esteve muito perto de se tornar monge na Abadia Beneditina de Saint Wandrille. «A certa altura da minha vida, ainda adolescente, durante um período de discernimento, um período muito íntimo, (…) pensei em tornar-me monge», disse, num dos raros excertos sobre a sua vida privada.
Influenciado por um avô, combatente da resistência aos nazis, Lecornu aderiu ao partido conservador UPM (antecessor do LR). Ao mesmo tempo, formou-se em Direito e tornou-se oficial da reserva operacional da Polícia Militar. A par da vida monástica, a vida militar foi das suas grandes paixões.
Nas primeiras palavras como líder do Executivo, durante a cerimónia de transferência de poder em Matignon (sede do Governo), Lecornu prometeu «mudanças profundas» e «não apenas superficiais» para tirar a França da crise política e social.
«Devemos conseguir pôr fim a esta dupla fratura: entre a situação política e a om o que os nossos concidadãos legitimamente esperam na sua vida quotidiana», afirmou, depois de elogiar a «extraordinária coragem» do seu antecessor.
Aos 39 anos, o novo primeiro-ministro, que fez parte de todas as equipas governamentais desde junho de 2017, prometeu «romper com o passado», ser «mais criativo» e «mais sério na forma de trabalhar com a oposição» e garantiu que «não há caminhos impossíveis».
Já Bayrou assegurou que pretende «ajudar o Governo» que será formado pelo novo primeiro-ministro, neste «momento tão difícil», «muito exigente e perigoso» para a França.