Confesso. Tinha um texto escrito sobre André Ventura e o facto de ele avançar para as Presidenciais. É uma decisão de risco, é certo, mas um bom golpe político. Quantas almas, no entanto, falaram e escreveram sobre Ventura nos últimos dias? Bem vistas as coisas, há um outro personagem que ocupou, entretanto, mais espaço mediático e que, valha a verdade, é mais interessante, mais diverso e, desculpem a franqueza, me é mais caro. Sim, essa figura é José Mourinho. Vale, aliás, a pena relevar o facto de, pela primeira vez em muito tempo, existir no espaço público alguém com maior capacidade de atração que Ventura.
Mourinho é um daqueles portugueses raros. Ele costumava contar que, de diferentes nacionalidades, credos, raças e religiões, havia uma legião mundial de mourinhistas, ou seja, um grupo de fiéis que o seguia independentemente do país ou clube onde estivesse. De certa forma eu, informalmente, faço parte desse grupo. De Londres a Madrid, de Wembley ao Friends Arena, de Estocolmo, estive em todas as suas grandes suas conquistas. Sei bem que os media portugueses fizeram inúmeras reportagens sobre a vida e o trabalho de José Mourinho, mas só quem testemunhou ao vivo o seu impacto entende verdadeiramente o que ele significa para o futebol e para Portugal. Mourinho não perdeu qualidades, não perdeu a aura (talvez esteja um pouco esbatida) e, mais importante, não perdeu a paixão. O que é extraordinário é o facto deste homem que ganhou tudo nas três ligas mais importantes do mundo não querer, nem ser capaz de viver, sem o futebol. Não lhe perguntei – e não sei se me responderia – se preferia entrar num clube médio da Premier League ou regressar a um gigante da Liga Portuguesa. Sei que queria voltar a treinar já, queria a ir para estágio, enfrentar os jornalistas, ‘jogar’ de três em três dias, nem que seja para se queixar do calendário. Do dele, o dos adversários é sempre melhor e agitar as águas faz parte da sua natureza.
A história de Mourinho não é apenas a história de um treinador vitorioso: ele foi o epicentro de um sismo que alterou todo o ecossistema do futebol europeu. Quando apareceu era figura improvável – um ex tradutor com um olhar científico sobre o jogo. Num percurso fulgurante mudou métodos e aliou um carisma quase teatral a uma implacável fome de vitória. Onde outros viam onze homens num campo, Mourinho via um tabuleiro de xadrez. Até as suas derrotas tinham uma narrativa: Mourinho sabia perder com o dramatismo de um herói trágico. Entre 2004 e 2015 foi o melhor. Na última década não foi, mas continuou a ganhar e nunca gerou indiferença. Uns quartos de século na ribalta, num meio tão competitivo e por vezes cruel, mostram bem o que vale,
O impacto de Mourinho não se mede apenas em troféus. Ele alterou toda a gramática do futebol moderno. Introduziu a ideia de que o treinador é também um performer que molda o imaginário coletivo. Elevou o controlo emocional e mediático a parte integrante da estratégia global e da tática para cada desafio. Criou equipas que venciam antes de entrar em campo desde logo pelo medo que provocavam nos opositores.
Hoje, mesmo quando os seus métodos parecem envelhecidos face às novas correntes de jogo a sua sombra, pesada, ainda paira. Muitos treinadores atuais são herdeiros, voluntários ou relutantes, da sua obsessão pelo detalhe, da sua leitura psicológica do grupo, da sua convicção de que o futebol é tanto mente quanto músculo. Mourinho ensinou-nos que o jogo não é só jogado: é construído, ensaiado e, sempre, encenado.
Talvez seja esse o seu legado mais perene: ter transformado o futebol num palco onde a glória não se conquista apenas com golos, mas também com palavras. Mourinho não é apenas um treinador de futebol – é um autor.
A ironia do regresso ao sítio onde tudo começou, a semelhança de alguns traços de 2025 com os que existiam na época, pode ser apenas uma coincidência. Mourinho está à prova. Ele gosta e Rui Costa, que afinal não se revelou um líder indeciso nem frágil, bem precisa. Mourinho é agora o escudo que protege
o Presidente-candidato.
Apertem os cintos.