Preciosa Liberdade

O desenvolvimento em ‘apartheid’  para que caminhamos é explosivo.

Nota prévia:  A partir do momento em que Gouveia e Melo recusou a aproximação do Chega, o avanço de Ventura para Belém era inevitável. Na verdade, nenhum político civil serviria, pois poderia ofuscar o ás de trunfo do Chega. Há riscos que André não corre. Desde logo com Passos Coelho, apesar de afinidades políticas. Repetir um Tânger seria humilhante. Ventura baralha as contas. Pode obrigar a desistências e ajustes no naipe de candidatos anunciados. Mas só se sairá bem se chegar à segunda volta, para, depois, nessa, obter mais de 40%. Menos seria poucochinho. Se não passar da primeira fica exposto a uma gozação tipo festa do hambúrguer. Ganhar Belém é praticamente impossível. Apesar de lhe ser inconveniente, entrar na corrida mostra coragem, ajuda às causas do Chega, mantém S. Bento como meta e não afeta as autárquicas.

1. «A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos que aos homens deram os céus (…)», escreveu Cervantes, em Dom Quixote. Nessa liberdade está inscrita a de pensar e proclamar sem limites aquilo que se pensa. Portugal é um dos países onde tal ainda é possível. Não temos uma democracia económica e social, mas temos a liberdade de dizer, de criticar, de protestar e de escrever. São bens preciosos que são questionados no espaço da Europa Ocidental (genericamente a inicial CEE, acrescida da Grã-Bretanha). Hoje, inverte-se o caminho de uma globalização democrática, julgada irreversível após a dissolução da URSS.  O advento de Trump prova que até uma democracia bicentenária, feita de poderes e contrapoderes, pode desfazer-se com apoio popular. Sem a resistência da comunicação social, os EUA de hoje já não seriam democracia. Com Trump e o wokismo voltam a ser inimigos e não adversários. A semente de fenómenos autoritários em países democráticos está em parte no excesso com que alguns impõem ideias de reparação. É absurdo julgar o passado à luz da nossa realidade, por mais violentas que as coisas tenham sido. A crueldade e a exploração são tão antigas como a humanidade. Aos abusos físicos de ontem sucedeu uma constante agressão a gerações ocidentais atuais, imposta por gente que vive no regaço do liberalismo e da democracia. Em contraponto, crescem os que exigem respeito pelo passado, pela tradição e pelo caminho democrático de expiação feito até hoje. Porventura exageram ao querer limitar também o direito de outros gritarem as suas ideias. Mas há um ponto assente: ninguém pode responsabilizar o Homem de hoje pelas culpas dos seus ancestrais. Enquanto não se perceber isso e não se abandonar a ideia da reparação histórica colonial, não haverá hipótese de criar, na Europa Ocidental, uma convivência aberta onde cada um seja livre de pensar e dizer, desde que respeite os valores democráticos e fundacionais dos países. Em Portugal, esse ponto de equilíbrio é precário. A tolerância está em regressão. As tensões multiplicam-se, a violência e a insegurança crescem. Os radicalismos aumentam. Somam-se clivagens sociais, políticas, ideológicas e religiosas. O desenvolvimento em ‘apartheid’ para que caminhamos é explosivo. Mesmo assim, ainda há margem para evitar o pior. É possível manter a nossa preciosa Liberdade e garantir a convivência, preservando valores ocidentais e rejeitando a importação de costumes desumanos.