Na Primeira Guerra Mundial, a maioria das vítimas eram militares. Na Segunda, os civis passaram a ser o alvo principal, vítimas de bombardeamentos indiscriminados e, sobretudo, do projeto genocida do regime nazi. Hoje, em Gaza, esse padrão repete-se – mas sem a máscara da negação.
O que Israel está a fazer na Faixa de Gaza não pode ser descrito apenas como uma guerra. A magnitude da destruição, a percentagem brutal de civis mortos, o ataque sistemático a hospitais, escolas, campos de refugiados e infraestruturas essenciais, ultrapassam qualquer lógica de confronto militar. A realidade é esta: Gaza está a ser desfeita como lugar habitável. E isso é genocídio.
A própria Convenção das Nações Unidas sobre Genocídio é clara: trata-se de atos intencionais com o objetivo de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. E o que vemos em Gaza cumpre todos os critérios – segundo investigações independentes solicitadas pelas Nações Unidas e vários relatórios de organizações de direitos humanos.
Mas Gaza é apenas o auge de uma política de décadas.
Há ocupação ilegal de territórios na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, documentada e condenada por sucessivas resoluções da ONU. Um sistema de apartheid legalizado, onde há dois regimes jurídicos para duas populações, no mesmo território, com base na sua etnia. Um bloqueio a Gaza que dura há mais de 15 anos, tornando 80% da população dependente de ajuda humanitária – mesmo antes dos ataques bárbaros perpetrados pelo Hamas a 7 de outubro.
Negar que existe um plano de extermínio deliberado é, neste momento, um ato de cumplicidade. Porque não há ‘danos colaterais’ quando se bombardeia um campo de refugiados três vezes em dois dias. Não há ‘autodefesa’ quando se recusa sistematicamente comida, água, combustível, abrigo e assistência médica a dois milhões de pessoas, metade das quais são crianças.
Não é exagero. Não é retórica. É genocídio. E perante isso, o silêncio é indecente.
Não basta pedir ‘paz’. É preciso justiça. E justiça exige ação concreta:
1. Um cessar-fogo imediato e permanente. Não há negociação possível enquanto bombas caem sobre civis;
2. O fim da distribuição de ajuda humanitária sob controlo militar de Israel, que transforma o acesso à sobrevivência em instrumento de guerra;
3. O embargo imediato à venda de armas e equipamentos militares a Israel e a suspensão dos acordos comerciais e de cooperação, nomeadamente o Acordo de Associação UE-Israel;
4. Sanções políticas, diplomáticas e económicas contra responsáveis israelitas por crimes internacionais – e cooperação plena com o Tribunal Penal Internacional, incluindo o cumprimento de mandados de detenção;
5. Um compromisso internacional com a reconstrução da Palestina, com mecanismos de reparação e de justiça para as vítimas.
Nada disto é novo. Há décadas que organizações alertam para o colapso iminente da dignidade humana nos territórios palestinianos. Hoje, esse colapso está a acontecer diante dos nossos olhos. A questão é: vamos continuar a olhar para o lado?
Eurodeputada e Vice-Presidente do Grupo S&D