O verbo no tempo da azia

Abusam da maledicência, do insulto, de uma linguagem de segregação e rutura, com um caldo verbal que dá acidez corrosiva às relações institucionais e pessoais. Confundem o legítimo confronto de ideias no espaço da cidadania e da liberdade de expressão com um ringue de luta livre.

Multiplicam-se na dependência das redes. Têm o ódio como instrumento, a mentira como base de trabalho, a manipulação como método, a precipitação como rotina. Desde que tenha impacto, pouco mais importa. Há que ter a vantagem saciando a tribo, de tal forma que nenhuma reação a supere.

É usá-lo – o cidadão –, triturando-o com a intolerância, violentando-o na sua natureza social. É mais fácil no púlpito das emoções, sem regras, com a condição do algoritmo e da bolha, débeis ferramentas para construir uma opinião esclarecida. O alvo é a geração desfocada pela miríade de estímulos mediáticos e tendencialmente mais individualista.

Abusam da maledicência, do insulto, de uma linguagem de segregação e rutura, com um caldo verbal que dá acidez corrosiva às relações institucionais e pessoais. Confundem o legítimo confronto de ideias no espaço da cidadania e da liberdade de expressão com um ringue de luta livre. Não hesitam em rotular, em reduzir tudo e todos a bons ou maus, em enaltecer um ‘eu’ messiânico que destila azia. Vulgarizam e normalizam o ‘ridículo’. É ‘estúpido?’. Quando o cidadão desperta, já foi mastigado no caos irracional, como hambúrguer em fast food.

A radicalização não um mal novo, mas medrou numa dinâmica comunicacional polarizada e armadilhada, que se alastra a atores políticos que julgaríamos no campo de uma decência democrática.

De pessoas e comunidades, não de opções políticas, dizem que é para ‘limpar’, ‘erradicar’ e o diabo a sete. Na retórica, desafiam a paciência com a palavra inadequada ou ofensiva, e depois desresponsabilizam-se de uma eventual consequência. Se não corre bem, rapidamente respondem com a vitimização.

Falam em liberdade e democracia esquecendo que a liberdade implica respeito – é corresponsável pela dignidade humana – e a democracia não se concretiza apenas na contagem de votos – é um processo de participação contínua.

Conhecendo as contingências do terreno e o timing da operação jornalística, a técnica encaixa na estratégia. Usam chavões de cera para consumo imediato, dão a entender que há soluções fáceis para problemas complexos, como se fossem a última gota do deserto.

Neste processo corrosivo, o jornalismo sofre uma mutação, e, apesar da resiliência, desgasta-se numa precipitação que o destrói por dentro, criando terreno fértil para ampliar fluxos agressivos e beligerantes, construindo espirais opinativas que banalizam o verbo ‘achar’ até à exaustão.

Precário, o exercício jornalístico, que enfrenta a incontornável tecnologia do imediato, é cúmplice com o ambiente incontrolável das redes, (sobre)vive numa deriva híper emotiva, na prevalência da velocidade, em direto, sacrificando a ponderação. Confundindo-se, dilui-se e arrisca-se a ser irrelevante, não resistirá à contaminação.

O jornalismo, como o conhecemos e para o qual fomos formados, não é uma montra superficial de incidências sem contexto e filtro. Deve ser eticamente exigente, reposicionar-se na proximidade dos públicos recuperando seriedade e hábitos de rigor, reclamando a moderação social e cultural que lhe compete, dando voz sem abdicar da mediação deontológica, contrariando o modus dominante da pressa e da sensação, ganhando tempo para o discernimento.