Da boa intenção à boa gestão: Doar como Investimento

Num país onde os serviços públicos não chegam a tudo, a filantropia inteligente não substitui o Estado, mas complementa-o onde a proximidade e a inovação social produzem mais valor por cada euro investido.

As organizações do terceiro sector, incluindo organizações não governamentais que se dedicam a cuidar e representar determinados grupos de pessoas cujas características fazem com que necessitem de apoio especial, debatem-se, de uma forma geral, com falta de recursos, e, por isso, competem entre si na busca de doadores. A situação é ainda mais difícil para aquelas que não têm protocolos de apoio com o Instituto da Segurança Social.

Estes doadores, na sua grande maioria empresas ou pessoas em nome individual, quando não têm uma relação direta com a causa que apoiam, têm dificuldade em avaliar o impacto efetivo que a sua doação teve no terreno. Na prática, os doadores procuram uma resposta simples para uma pergunta difícil: o que eu doei fez diferença?

Deparámo-nos com este desafio a propósito dos 15 anos da Associação que tenho o privilégio de dirigir. Queríamos apresentar números concretos do impacto do trabalho desenvolvido pelas equipas de profissionais e voluntários que se têm dedicado às pessoas com Dano Cerebral Adquirido (DCA) e procurávamos uma forma de conseguir mostrar como é que a solidariedade pode ser gerida com rigor.

Naturalmente, não conseguimos fazer a avaliação dos 15 anos da Associação, mas fomos à procura dos dados mais relevantes e conseguimos encontrar uma métrica para percebermos que entre 2020 e 2024, por cada euro investido conseguimos entregar quase quatro euros em valor social e económico. Isto é, conseguimos multiplicar por quatro o nosso orçamento de 1,36 milhões de euros e entregar benefícios às pessoas com DCA e suas famílias estimados em 4,65 milhões. Não se trata de marketing; é o que acontece quando os donativos financiam intervenções com metas claras, monitorização contínua e foco na autonomia das pessoas.

Apesar de só conseguirmos aplicar estas métricas aos anos mais recentes, esta iniciativa foi importante para percebermos que o histórico da Associação é consistente com os resultados da análise. De facto, desde 2010, apoiámos diretamente mais de mil pessoas com DCA, apoio esse estendido a mais de três mil familiares e cuidadores. Só nos últimos cinco anos, foram mais de 12 mil intervenções psicossociais e mais de 1.300 atividades terapêuticas. Conseguimos que dezasseis pessoas regressassem ao mercado de trabalho e, com elas, dezasseis cuidadores tiveram a oportunidade de retomar a sua vida socioprofissional. Só em 2024, acompanhámos cerca de 270 pessoas entre os 16 e os 75 anos, incluindo 95 novos casos, maioritariamente de pessoas em idade ativa, vítimas de traumatismos cranioencefálicos por acidentes rodoviários ou quedas. E, para tratar não apenas o dano físico mas também o abalo psicossocial no próprio e nas famílias, reforçou-se o apoio com mais de cem horas de terapia psicológica formal. Estes números contam uma história simples: quando o apoio é especializado e integrado, os resultados concretos aparecem.

O intuito de detalhar estes números tem o propósito de mostrar que medir bem é condição para investir melhor e que essa análise seja feita segundo uma metodologia prudente. No nosso caso, comparámos custos operacionais com uma estimativa do custo médio-hora a preços de mercado dos serviços efetivamente prestados aos beneficiários. Esta comparação tem limites, porque nem tudo o que fazemos “cabe em euros”. Por exemplo, a dignidade, o alívio do stress ou a coesão familiar. Mas a transparência dos pressupostos e a coerência das comparações permitem que doadores, parceiros e decisores públicos avaliem o retorno de forma informada. E é esse exercício de medição que separa a boa intenção da boa gestão.

E que lições conseguimos tirar deste exercício? Desde logo, ficarmos a saber que estamos a aplicar bem o dinheiro dos doadores, sabendo que cada doação é um investimento para a real melhoria na qualidade de vida. Assim, conseguirmos dizer-lhes que estão a financiar resultados: mais autonomia, redução de internamentos ou o regresso ao trabalho. Também o facto de conseguirmos mostrar que estamos a ter sucesso nas metodologias, ao darmos prioridade a abordagens integradas, porque o dano cerebral é simultaneamente físico, cognitivo e emocional.

Há, ainda, outras componentes de gestão que se tornam mais evidentes a partir de análises pragmáticas como aquela que fizemos. Por exemplo, a análise de custos estruturais e a possibilidade de darmos previsibilidade, através de compromissos plurianuais, para, entre outras coisas, retermos talento, escalar o que funciona, promover aprendizagem contínua e ajustar e melhorar ano após ano.

Num país onde os serviços públicos não chegam a tudo, a filantropia inteligente não substitui o Estado, mas complementa-o onde a proximidade e a inovação social produzem mais valor por cada euro investido. Quando se investe em intervenções que devolvem autonomia a pessoas em idade ativa, a sociedade inteira beneficia. O critério não deve ser “a causa que nos comove mais”, mas a capacidade de transformar donativos em resultados mensuráveis e vidas reconstruídas.

Aplicar bem o dinheiro dos doadores é unir rigor e empatia. Rigor, para medir o que realmente muda a vida das pessoas e o saldo das contas públicas. Empatia, para financiar o que nem sempre é fotogénico, o chamado trabalho de “formiguinha”.

Cabe a quem doa, indivíduos, empresas ou instituições, premiar quem prova, corrige e melhora. É assim que a solidariedade deixa de ser apenas vontade e passa a ser transformação.

Nota: Os dados e exemplos citados baseiam-se em informação disponibilizada pela Associação que dirijo, a qual se dedicada ao apoio na área do Dano Cerebral Adquirido, e baseia-se numa metodologia de estimativa de impacto ancorada em custos médios de mercado.

Vera Bonvalot
Diretora Executiva da Associação Novamente