O centro das atenções

Ventura não inventou o mal-estar social. Soube dar-lhe voz. O seu impacto resulta das falhas do sistema, incapaz de responder às angústias e expectativas de uma parte significativa da sociedade.

A forma como André Ventura ascendeu ao topo da nossa vida coletiva pode parecer que vem nos livros de história, mas, é ainda assim, um fenómeno extraordinário. Com certeza que Ventura foi elevado pelo ar dos tempos e pelo discurso tantas vezes demagógico. No entanto, a centralidade e a energia da sua ação condicionam todos os outros. Há um líder político que, muitas vezes acima do Governo, define o debate, impõe a agenda e obriga os partidos tradicionais a posicionarem-se. O seu protagonismo revela tanto sobre a sua estratégia pessoal como sobre as fragilidades da democracia, como a conhecíamos em Portugal. Em poucos anos, Ventura passou de comentador televisivo a líder de um partido que, sendo a terceira força nacional, se posiciona como uma séria alternativa de poder mesmo sem um programa estruturado para áreas tão críticas como a saúde, a educação ou a economia.

Durante décadas, PS e PSD dominaram a cena política, com CDS e PCP como forças secundárias. Ventura rompeu com essa lógica, transformando o Chega na válvula de escape de frustrações acumuladas: corrupção, desigualdades, insegurança e um distanciamento crescente entre cidadãos e políticos. A sua força está no discurso simples e contundente, que transforma problemas complexos em slogans e ideias mobilizadoras – travão a fundo à imigração, tolerância zero para a criminalidade, cortes nas mordomias da classe política. É um estilo direto e emocional. Hoje, o tempo todo, todos comentam Ventura e, lamento muito, não adianta colocar essa responsabilidade nos media, em geral, e ‘nas televisões’, em particular. Sei bem que não seremos inocentes, mas sei ainda melhor que a sua força vai muito além dos media tradicionais e, quem não entendeu essa realidade, não percebe os dias em que vivemos. 

Os políticos da estirpe de André Ventura – não necessariamente da sua geração – vivem do confronto e sabem que a indignação é um forte combustível político. Quanto mais contestação provoca, mais notoriedade conquista. Essa lógica circular, o choque que gera indignação e a indignação que gera atenção, tem sustentado o crescimento eleitoral do Partido.

O peso parlamentar consolidou esta ascensão. O Chega deixou de ser marginal e conquistou uma posição estratégica perante o PSD. Aceitar ou recusar alianças com Ventura passou a ser uma escolha fundamental para a direita portuguesa. Em qualquer cenário de governação minoritária, o seu nome surge inevitavelmente como condição ou obstáculo.

A ascensão em Portugal não é, de facto, um caso isolado. Faz parte de uma vaga europeia que tem levado a direita populista radical a posições de relevo em França, Itália, ou na Alemanha. Ao inscrever-se nessa linha política, revigorada com a segunda vida de Trump, reforça a legitimidade da sua presença no debate nacional, adaptando o discurso à realidade portuguesa.

Sejamos claros. Ventura não inventou o mal-estar social. Soube dar-lhe voz. O seu impacto resulta das falhas do sistema, incapaz de responder às angústias e expectativas de uma parte significativa da sociedade. Eis, portanto, a questão central: André Ventura é apenas uma etapa de protesto, um episódio transitório, ou será uma figura estrutural, destinada a fazer parte da governação do país nos próximos anos?

A resposta está, não apenas na sua força, mas na capacidade de reinvenção dos partidos tradicionais. Os sinais não são bons.