A Polícia de Segurança Pública (PSP) enfrenta uma crise silenciosa, mas profunda: um divórcio crescente com as novas gerações, que se reflete numa quebra de 70% de candidatos em 13 anos, um fenómeno que, é verdade, tem ocorrido noutros países ocidentais, que se debatem profusamente à procura de medidas geradoras de atratividade. Mas nem todos estão a passar por este problema, basta olharmos aqui para a vizinha Espanha que ainda há uns dias anunciava quase 30 mil candidatos para 3000 vagas. Aqui, em sentido gritantemente inverso, temos concursos (o último) com menos de 3000 candidatos para 800 vagas. Não nos admiremos, pois, que tenhamos conseguido preencher apenas 630.
Esta não é apenas uma crise de recrutamento, é uma crise de coesão que ameaça o futuro da nossa segurança interna tendo em conta o papel vital que a PSP ocupa na nossa arquitetura de segurança. Como podemos reverter esta tendência? A resposta, entre outras medidas essenciais, como a valorização remuneratória, bastas vezes evocada, pode estar num modelo de sucesso comprovado: o Dia da Defesa Nacional (DDN).
Desde 2004, o DDN tem sido um pilar na aproximação entre os jovens e as Forças Armadas, desmistificando a vida militar e fomentando o respeito pela instituição. A sua eficácia é inquestionável, com 68% dos jovens a concordar com a sua obrigatoriedade e muitos a considerarem a carreira militar após a experiência. Porque não replicar este sucesso para a segurança interna, ainda para mais quando se trata de um tema que todos os dias nos invade as casas, pela infeliz realidade noticiada, dia após dia, de casos e mais casos criminosos, quer pelo recorte cinematográfico que tem um apetite voraz pela produção massiva de filmes e séries policiais que a generalidade das pessoas segue e consome diariamente.
Propomos, por isso, a criação de um Dia da Segurança Interna, um dia de comparência obrigatória para os cidadãos de 18 anos. O objetivo não é o recrutamento imediato, mas sim o investimento a longo prazo na literacia cívica. Queremos que os jovens compreendam a importância que a segurança ocupa num Estado de Direito como guardiã da liberdade, qual o(s) papel(éis) da sua polícia e quais os seus direitos e deveres. Queremos que vejam o polícia para além da farda, que conheçam as suas imensas missões, da investigação criminal à segurança aeroportuária, do controlo de fronteiras às operações especiais, das missões internacionais à resposta a incidentes críticos. Mas queremos, sobretudo, que dialoguem abertamente com os profissionais já que são esses a mais valia de uma instituição deste cariz.
Os efeitos esperados são transformadores. Ao criar um ponto de contacto universal e positivo, quebramos barreiras de desconfiança e preconceito. Despertamos vocações adormecidas que hoje se perdem por desconhecimento, e garantimos que os futuros candidatos à PSP o fazem de forma mais consciente e informada, eliminando dogmas, abrindo novos caminhos. Mais do que uma solução para a crise de efetivos, o Dia da Segurança Interna é um investimento na relação entre a polícia (humana) que queremos e os cidadãos que (ela) protege e que no fundo é a essência de toda a sua existência.
É um pacto de futuro pela segurança de todos. A tutela política não pode continuar a ignorar esta oportunidade estratégica.