O que cabe na mochila de uma criança?

Não é só sobre o peso dos livros e cadernos que algumas crianças carregam aos ombros que vale a pena refletir

Agora que, com o início das aulas, voltamos a ver os mais pequenos a caminho da escola com enormes mochilas penduradas às costas, vale a pena refletir sobre o peso que carregam.

Não só o peso dos livros e cadernos que algumas crianças carregam aos ombros, sem que essa carga possa ser deixada para trás.

Mas também outros pesos – menos visíveis – que as crianças colocam, ou que lhes colocamos, às costas com a melhor das intenções, para que não lhes falte nada. Sem nos apercebermos de que há gestos que representam uma carga acrescida.

Por exemplo, o peso de, após sete ou oito horas na escola, em vez do ansiado tempo para brincar e descansar, serem obrigadas a sentar-se novamente, para fazer os TPC.

O peso das expectativas, dos receios, dos fantasmas e das fragilidades dos pais. Das suas ambições, sonhos e projeções. Da necessidade de terem tudo sob controlo – desde os trabalhos e tarefas da escola, aos amigos, colegas e professores. Da preocupação constante de que se portem bem, de que sejam felizes, de que sejam excelentes alunos e atletas e não deem problemas. Ou seja, o peso de tudo aquilo que consideram ser o melhor para eles, que é muito.

E também o peso dos currículos demasiado extensos, da carga horária excessiva e das metas rígidas, que valorizam mais as notas do que o bem-estar, a vontade e a curiosidade de aprender, a criatividade, o espaço para a dúvida e o erro construtivo.

O peso do medo de errar, quando só é permitida uma resposta certa, quando se estuda mais para o teste do que para aprender.

O peso do reforço das línguas, das explicações e do apoio ao estudo, que se prolongam pela tarde fora, quando o que aprendem na escola não é suficiente.

O peso de ter pouco tempo para brincar e das brincadeiras programadas. Da ideia de que brincar sem objetivos significa tempo desperdiçado. De que até para brincar deve haver regras e objetivos, para que a brincadeira seja produtiva.

Das preocupações que se carregam dentro da mochila e que nem sempre se podem contar. Porque, por vezes, não há alguém disponível para ouvir. Ou porque parecem demasiado pesadas ou assustadoras para serem partilhadas. E, com elas, o fardo dos medos, dos receios, das incertezas, das vergonhas, da solidão.

O peso dos trolleys que ao final da semana se arrastam da casa da mãe para a casa do pai, por vezes com uma carga difícil e excessiva.

Nem sempre se permite que as crianças vivam com a leveza típica da sua idade, essencial para que cresçam de forma mais livre e saudável.

E se à saída da escola, em vez de ajudarmos os mais pequenos a carregarem as suas pesadas mochilas ou de lhes reforçarmos as costuras, lhes permitirmos que usem mochilas mais pequenas, mais leves e adequadas à sua idade? Mochilas com um peso que possam transportar facilmente sozinhos?

Se os ajudarmos a deixar de lado o que é desnecessário, e a escolherem aquilo que é realmente importante: o gosto de aprender, de explorar, de descobrir, de fazer amigos, de ajudar os outros, de brincar livremente. A coragem de errar, de pisar o risco. A alegria de crescer sem receio. A confiança de que são aceites como são e não pelo que se espera deles.