O povinho e os comentadores

Será que não alcança que chamar fascistas ou radicais de extrema-direita a quem deles discorda é como um banho lustral de onde emergem purificados das suas torpezas do dia-a-dia?

Um dos maiores problemas de Portugal é o povinho.
Dispondo agora de comentadores em todos os canais de televisão para o educar, o que faz o povinho? Ignora-os. Em vez de sair à rua apoiando causas progressistas, o povinho vai para a praia, para o futebol e para os centros comerciais. Pior ainda, em vez de votar em partidos que querem salvar o mundo, vota no Chega.

O povinho nem sequer percebe que ser progressista é terapêutico. Se olhasse com atenção para aqueles vultos da televisão que não perdem uma oportunidade de sinalizar virtudes e superioridade moral, perceberia que aquilo lhes faz bem. É certo que por vezes se enervam, mas, no final da parlenga, vejam só o seu ar de satisfação – é como se tivessem acabado de fazer um clister.

Será que o povinho não percebe que mesmo a mais insignificante criatura, o mais banal ser humano, se convence de que é importante quando sobe ao púlpito televisivo e faz um sermão progressista? Será que não alcança que chamar fascistas ou radicais de extrema-direita a quem deles discorda é como um banho lustral de onde emergem purificados das suas torpezas do dia-a-dia?

Abandonam a família? Traem colegas e amigos? Humilham quem não se pode defender? Dão o seu golpe? O que fazer quando a consciência os acusa? Reconhecer os erros e pedir desculpa? Ora essa! É muito mais fácil denunciar o «genocídio» em Gaza. Ou denunciar a xenofobia. Ou condenar o racismo. Ou malhar no Ventura. Ou qualquer alusão ao clima. Tanto faz. A panaceia de autoindulgência para nos fazer sentir melhor depois de termos chafurdado na lama é muito vasta. É o substituto da confissão católica onde o tipo que roubou os irmãos e abusou das filhas sai de lá perdoado, de consciência tranquila. A diferença é que em vez de nos confessarmos, doutrinamos; em vez de pedir perdão, acusamos. Mas a sensação de sermos melhores pessoas, os eleitos, é a mesma. É por isso que a seita não para de aumentar.

Sim, a Terra onde se salvam os oprimidos é plana.

Seja como for, perante tamanhas lições de mindfulness progressista, o povinho não reage. O povinho é mais bolos, futebol e praia.

Por isso, ante tanta ingratidão, não admira que os comentadores o detestem, lhes tenham nojo e horror. E a bolha fecha-se ainda mais para evitar conspurcação. Fora da bolha, no torvelinho urbano ou na solidão rural, o povinho prefere trabalhar e preocupar-se com assuntos ridículos como pagar as contas e garantir o futuro dos filhos.

Escritor