Há razões objectivas para tal, desde logo a quebra do saldo demográfico verificada nos últimos anos, em particular no intervalo -18 anos em relação ao ano corrente. Só recentemente, e por via da imigração, o número de nascimentos tem aumentado, pelo que é preciso aguardar pela maioridade destes potenciais candidatos ao ensino universitário. Também a crise da habitação, em particular nos grandes centros urbanos, torna muito mais difícil aos “migrantes” internos economicamente desfavorecidos habitarem perto das cidades universitárias.
Demografia e custo da habitação são certamente causas objectivas da quebra de entradas no ensino superior. Não obstante, permito-me acrescentar uma outra hipótese. Há actualmente um menor apetite pelo ensino superior, por uma perda de fé nos efeitos da alavancagem económica desta formação. A erosão da classe média, em particular, pela quebra da remuneração e de estatuto da função pública e, em geral, pela perda de poder de compra dos salários médios, que cada vez se aproximam mais do salário mínimo (que, felizmente, tem crescido significativamente) tornou menos valiosa a formação superior, em particular nas áreas menos especializadas e com menos procura (e logo com pior remuneração).
A par destes constrangimentos ofereço uma outra hipótese. Não é só o valor económico de certos “estudos” que caiu. O valor ético e social do estudo está a cair a pique em muitas áreas.
A resposta à pergunta “porque estudas?” teve sempre vários elementos: curiosidade (inata na espécie); preguiça bondosa (o estudo permite descobrir formas mais eficazes de trabalhar e logo de poupar tempo, energia e dinheiro); ambição (o estudo permitia aceder a conhecimento titulado melhor remunerado pelo mercado); prazer (o conhecimento dá segurança e gratifica); pressão social e familiar (o ensino é obrigatório até ao início da vida adulta e a socialização depende em grande medida da escolarização institucionalizada).
A curiosidade da espécie mantém-se mas, nas gerações que frequentam a escola, deixou de ser satisfeita pela obra impressa e pela televisão, orientou-se para os ecrãs dos telemóveis alimentados pelas redes sociais. A preguiça procurou, como sempre, recompensas imediatas e obteve gratificações instantâneas. O ensino livresco quase desapareceu. O “estudo”, a fazer pelo próprio, foi substituído pelo plágio informatizado, ridiculamente auto-denominado como “inteligência artificial”.
Quebrado o elevador social, desvalorizado o estudo, não há muito que torne convidativo o ensino não obrigatório, ou seja, o ensino superior. Sobram os cursos em que o mercado melhor remunera as formações indispensáveis ao funcionamento da sociedade, com destaque para a medicina e as tecnologias de saúde. E nestes casos a liberdade de circulação de trabalhadores faz com que os estudantes emigrem para outros Estados assim que obtêm um título académico reconhecido internacionalmente.
O desafio não é novo. Já em 1746 Luís António Verney, deu à estampa, prudentemente sob pseudónimo de Padre Barbadinho, “O Verdadeiro método de estudar: para ser útil à República, e à Igreja: proporcionado ao estilo, e necessidade de Portugal”. Nele deixou clara a lição: “Falar a alguns deles no estudo é falar-lhes da morte. Provém isto, primeiramente, da feia carranca com que pintam os estudos: mandando-lhes estudar uma quantidade de coisas sem saberem que serventia têm; e dando-lhe muita pancada, se as não repetem bem.” (Valensa [Nápoles], tomo II, carta XVI, pp. 264). Verney escreveu, por sorte sua, antes do advento do Ministério da Educação.