Faz quase 20 anos que conheci, enquanto visitava um amigo que fazia Erasmus algures no norte de Itália, uma egípcia com quem tive várias conversas de que nunca me esquecerei. Era muçulmana, tinha uma versão pequena do Corão na carteira, mas era emancipada: fazia o seu mestrado sozinha em Itália, tinha bem presente o seu futuro e sabia o que queria.
Uma dessas conversas foi a propósito do papel das mulheres enquanto líderes e gestoras. A Lamis defendia que as mulheres não estavam aptas para gerir instituições, sobretudo devido a alguma instabilidade emocional durante a menstruação. Tentei explicar-lhe – sem sucesso, confesso – que eu também ficava irascível quando o meu clube de futebol perdia. Ou seja, essa instabilidade emocional não era uma condição exclusiva das mulheres, pelo que não seria certamente isso a impedi-las de gerir fosse o que fosse.
Perdi esse debate, no sentido em que não consegui demovê-la da sua posição, mas com esta experiência vivida, como lhe chamaria Simone de Beauvoir, aprendi uma grande lição: estas posições de subalternização podem mesmo ser conscientes e voluntárias. Isto é, estava perante uma pessoa de classe alta, instruída, inteligente, que estava num país livre, sem tutelas ou alguém que a julgasse, que voluntariamente aceitava para si um papel subsidiário. Podemos argumentar que isto é a consequência de uma profunda doutrinação que resulta de uma influência cultural e religiosa que menoriza o papel das mulheres, mas essa prerrogativa aplica-se a todos, pois todos nós somos também o produto das nossas circunstâncias. No final do dia, a Lamis tinha agência – e em Itália tinha liberdade também – para recusar tudo isso, assim o quisesse.
Esta vivência foi-me útil na reflexão que tive de fazer a propósito do debate da proibição do uso de burqa no Parlamento. Numa discussão que é complexa, temos de pesar os argumentos a favor e contra. No caso, este seria um argumento contra a proibição: a anuência voluntária de indivíduos a determinados preceitos. Em sentido lato, uma questão de liberdade individual. Cada um veste-se como bem entender e o assunto está arrumado.
Mas o debate não se esgota aqui. Há uma tensão entre a liberdade individual (a agência de cada um usar o que bem entender) e a defesa de valores liberais universais, como são a igualdade e a dignidade humana. Aliás, é bom recordar que o liberalismo não é nem pode ser neutral perante símbolos de opressão, pois nasce precisamente da recusa da opressão, mesmo quando é aceite voluntariamente (ou seja, não é liberal a escravidão voluntária).
É aqui que a questão se torna mais complexa. A burqa não é apenas um adereço de moda, desprovida de simbolismo político, cultural e social. Não por acaso, a burqa e o niqab estão proibidos em vários países muçulmanos, e é generalizado e obrigatório em países como o Afeganistão talibã. Estamos a falar do país onde as meninas estão proibidas de frequentar o ensino secundário e superior, existe segregação por género, as mulheres não podem viajar mais de 70 km sem o seu guardião e o adultério pode ter como pena o apedrejamento até à morte.
Não deixa por isso de ser algo paradoxal que partidos de esquerda, sempre lestos a falarem de valores humanos e de igualdade entre homens e mulheres, abdiquem desses princípios para justificar o uso de um símbolo opressivo, que não tem cabimento numa sociedade aberta e livre. Mais paradoxal ainda, o candidato presidencial do PCP, partido que defende tudo na esfera do Estado, alegar que se trata de uma questão de liberdade individual – liberdade a ser oprimido? Mas sobre esta incoerência falarei em mais detalhe na segunda parte desta crónica.