O valor de um gesto

O mundo mudou. Quando ia com os meus avós a um restaurante, o empregado de mesa sabia o nosso nome e olhava-nos nos olhos. A gorjeta vinha junto com o sorriso. Hoje, clicamos em terminais…  Mas o valor do gesto não devia mudar, não achas?

Querida avó,

Não sou de solicitar o serviço de entregas em casa. Recentemente estava à janela, observando o movimento do bairro, e vejo que o entregador de pizzas tinha acabado de fazer uma entrega no prédio em frente.

Quem recebeu a encomenda ainda estava com o telemóvel na mão.

Percebi que a aplicação perguntava se a pessoa queria dar gorjeta. E ouvi: «já paguei a taxa de entrega… será que precisa mesmo de gorjeta?» – perguntou o rapaz, franzindo o sobrolho.

Antigamente a gorjeta era quase um ritual. Dávamos não só pois, na realidade, as pessoas precisavam como para mostrar gratidão pelo serviço.

Será que hoje é muito diferente?

Agora quase tudo é digital. Ninguém nem vê o dinheiro. Ou pagamos pelas aplicações ou por multibanco… 

O mundo mudou. Quando ia com os meus avós a um restaurante, o empregado de mesa sabia o nosso nome e olhava-nos nos olhos. A gorjeta vinha junto com o sorriso. Hoje, clicamos em terminais…  Mas o valor do gesto não devia mudar, não achas? Até porque, na minha opinião, todos os que fazem entregas são explorados até à exaustão. Quem ganha verdadeiramente são os unicórnios que criam as aplicações.

Embora, em algumas situações, parece que as pessoas só fazem as coisas esperando ganhar algo em troca.

Talvez seja por isso que o mundo precise mais de pequenos gestos sem interesse. Uma gorjeta, um elogio, uma gentileza… São como sementes, nem sempre vemos crescer, mas fazem diferença. Uma lição que passa de geração em geração.

Recordo-me de numa entrevista o Goucha falar da mãe, que foi manicura. Segundo disse, as gorjetas dadas pelas clientes foram essenciais para a mãe pagar os estudos dos filhos.

Dar um pouquinho não é muito, mas é alguma coisa. No final do dia, irá certamente fazer a diferença na vida de quem recebe gorjetas.

O valor não está no quanto se dá, mas em lembrar que sempre podemos dar algo e ajudar o próximo.

Bjs

Querido neto,

Como sabes, não passo sem dar gratificações. Seja na restauração, numa ida ao cabeleireiro, sempre que alguém me leva uma encomenda a casa… ou no final de uma viagem de táxi.

Em diversos serviços, há atitudes de quem as presta que não se podem expressar em valor monetário, mas merecem gratificação e reconhecimento. Por isso, damos gorjeta.

O registo da primeira utilização deste termo data de 1509, na Alemanha. Na Europa, quando se contratava um artesão, dava-se lhe uns trocos para beber algo.

 Gorjeta deriva de “gorja”, que significa garganta, e quer dizer “gargantinha”. Ou seja, em diferentes línguas, a gorjeta simbolizam uma atenção, em dinheiro, dos clientes para com as pessoas que os atendem que visa pagar-lhes uma bebida “para molhar a garganta”. A tradição deste sistema de recompensa existe em todo o mundo, porém, encarada, de maneira distinta nos vários países. Por exemplo, em Portugal é de bom-tom deixar gorjeta, sobretudo na restauração, ao passo que na China não integra a prática corrente. Em algumas regiões desta nação, receber gorjeta é mesmo um crime previsto por lei, imagina. Nos Estados Unidos e no Brasil, a cortesia da gorjeta aparece como quase obrigatória, até porque parte do rendimento dos trabalhadores depende dela. No Japão, pelo contrário, dar gorjeta traduz um ato insultuoso, pois é interpretado como pôr-se numa posição social superior.  O modo de dar gorjeta também varia bastante, ela pode ser livre ou estipulada por tabela, sobre a forma de uma percentagem, estar incluída no preço ou num arredondamento de contas ou consistir num troco que se recusa.

Num restaurante, sempre que pago o serviço por multibanco, deixo a gorjeta em dinheiro. Caso contrário vai tudo para o dono da casa e quem nos serviu não vê um tostão.

Bjs