No seu mais recente número, a Valeurs Actuelles dedicou um dossier à polémica questão da transição de género, dando conta de vários casos de arrependidos que a denunciam. Estamos perante um regresso ao real?
Os testemunhos dos jovens que aqui tiveram coragem de quebrar o tabu e quiseram «destransicionar» são de arrepiar e anunciam um fenómeno que se vai multiplicar. A revista francesafala mesmo numa «bomba-relógio médica, psicológica, social e filosófica que começou a explodir sem fazer muito barulho do outro lado do Atlântico».
O mais revoltante é ver como a lição da primeira transição de género foi ignorada e não impediu a proliferação deste delírio de consequências devastadoras. Recordemos esse caso trágico.
Em 1965, um casal canadiano teve dois rapazes gémeos, Brian e David Reimer, que cedo tiveram problemas urinários. Brian ultrapassou-os sem recurso a cirurgia, mas David foi sujeito a uma circuncisão que correu mal e ficou sem pénis. Os pais, naturalmente preocupados com o filho, consultaram o psicólogo John Money, um neozelandês que desenvolvia os seus estudos em sexologia nos Estados Unidos da América e que era um defensor da teoria do género, segundo a qual o sexo é uma mera construção social, independente dos condicionalismos biológicos.
Money aconselhou os pais a que fosse feita uma cirurgia de redesignação sexual a David e para o criarem como uma menina. Aos 22 meses o menino foi sujeito a uma operação de remoção dos testículos e a um tratamento hormonal. A partir daí, os pais mudaram-lhe o nome para Brenda, começando a educar a criança como se de uma filha se tratasse. Durante a infância a situação aparentava ser normal e Money viu nesta experiência a prova de que a sua teoria estava certa. Aliás, porque tinha todos os elementos necessários, já que para além de um sujeito «redesignado» tinha um irmão de outro sexo, com quem partilhava os genes, podendo assim observar a evolução de diferentes comportamentos. Era tudo o que precisava para o sucesso da sua investigação. Os irmãos foram acompanhados durante cerca de dez anos e Money foi sempre relatando o evoluir da situação como um êxito, mas o que se passou foi tudo menos natural.
David, aliás Brenda, apesar de tudo a que era sujeito, começou a sentir-se como um rapaz. Pior, ambos os irmãos queixavam-se de que as consultas com John Money eram traumáticas e de que ele os forçava a encenações sexuais, algo que o psicólogo negou. Quando Money insistiu na realização da operação de construção vaginal que estava prevista, os pais tinham já dúvidas suficientes sobre o que estava em curso e decidiram parar a experiência.
David voltou a ser o rapaz que sempre fora, necessitando para tal de novos tratamentos. Revoltado com o que lhe tinha acontecido, denunciou a experiência publicamente para evitar que outras pessoas passassem pelo mesmo sofrimento. Mas era tarde demais, porque o exemplo do «sucesso» de Money havia inspirado vários «redesignamentos» em diversos países. Os dois irmãos teriam um fim trágico. Brian tornou-se esquizofrénico e acabou por suicidar-se. David, que chegou a casar, acabou também por suicidar-se depois de uma vida marcada pelas depressões, pelo álcool e pelas dívidas.
O caso foi obviamente bastante polémico e muito noticiado na imprensa e na televisão. Perante esta experiência aberrante e aterradora, de consequências devastadoras, seria de esperar que John Money e as suas teorias fossem esquecidas, ou melhor, recordadas como um exemplo do que não se deve fazer. Mas, pelo contrário, Money, que morreu em 2006, continuou a ser considerado por muitos como um «especialista» e as suas obras a serem citadas como trabalhos de referência. Para cúmulo, existe, desde 2002, um programa de atribuição de bolsas de investigação em sexologia do Instituto Kinsey para o Sexo, Género e Reprodução, nos Estados Unidos da América, com o nome John Money!
Agora, considerando o aumento do número de casos de pessoas que voltaram atrás após terem feito uma transição de género, tudo indica que estamos perante uma tomada de consciência deste fenómeno que, segundo a Valeurs Actuelles, «se assemelha cada vez mais a um escândalo médico e ético».
A conclusão desta experiência aberrante recorda um adágio bem conhecido em França, adaptado de uma máxima latina de Horácio e retirado da comédia Le Glorieux, escrita em 1732 por Philippe Néricault Destouches: Chassez le naturel, il revient au galop.