Há muito que o agenciamento de atletas deixou de ser um exclusivo dos homens. A competência profissional das mulheres vê-se também na gestão de carreiras. Os desafios colocados pelos aspetos desportivos, comerciais e de personalidade são permanentes, o que exige uma liderança forte e capacidade para os solucionar – é isso que diferencia os agentes e as agências.
Cristina Moreno é formada em Relações Públicas e Publicidade, tem 25 anos de experiência em comunicação e é, atualmente, CEO da Shire Sports, empresa que tem por missão ajudar os atletas a atingir a máxima performance desportiva. Numa entrevista à Versa conta como se gere a carreira (e um pouco a vida) de um atleta e fala da singularidade de ser mulher num setor historicamente dominado por homens.
O desporto sempre esteve presente na sua vida, não como atleta, mas sim através de laços afetivos. «O Eusébio era meu padrinho e fui casada com o futebolista António Pacheco, que faleceu o ano passado», recorda.
Foi em 2022 que surgiu o convite para integrar a Shire Sports. «Foi um desafio fora da minha zona de conforto, mas tendo em conta a minha experiência profissional decidi aceitar. Em termos de comunicação, vejo o desporto de uma forma mais ampla e sei como deve ser encarado enquanto produto e a importância dos atletas, que têm muito potencial, muito público à volta e que podem ser bons influenciadores», explica.
A Shire Sports é um projeto moderno, que presta serviços abrangentes na área do desenvolvimento de jovens atletas de futebol feminino, futsal, andebol e, futuramente, de hóquei em patins, com quem já tem algumas parcerias. Não é uma típica agência focada apenas na transação de jogadores, a sua visão é «ajudar os atletas e o desporto a crescer». «Inicialmente não houve uma visão financeira», salienta a CEO da empresa. «Ninguém sobrevive sem dinheiro para desenvolver o negócio, mas o nosso objetivo é mais profundo e trabalhamos em outras áreas para que a carreira dos nossos atletas evolua», acrescenta.
Cristina Moreno sublinhou as diferenças para uma empresa tradicional de agenciamento de jogadores, em que «o foco é o contrato, ou seja, a transferência de um atleta». «Não há a preocupação em saber se encontra dificuldades que podem condicionar o seu rendimento desportivo. A Shire Sports dá a mão aos atletas em início de carreira, quando ainda não são conhecidos, que revelem potencial e coloca à sua disposição todos os meios para melhorar a sua performance desportiva. Queremos que a sua envolvência seja tranquila e focada no rendimento», afirma.
Considera também que a comunidade empresarial devia acreditar e apoiar mais os jovens. «Só se interessam por eles quando, verdadeiramente, já não precisam. As marcas e empresas não olham para os atletas como um canal de projeção porque as avaliações são feitas com base em números. Alguns podem não ter muitos seguidores no Instagram, mas têm uma vasta comunidade que os segue e os copia, e são um exemplo de resiliência», sublinha.
Mundo diferente
A Shire Sports está muito focada no futebol feminino, onde conta com a agente FIFA Daniela Lopes. «É aí que temos maior notoriedade, o que tem a ver com o crescimento desta modalidade», diz.
A empresa conquistou uma influência considerável na Arábia Saudita, sendo responsável pela transferência de Andreia Faria (do Benfica para o Al Nassr – foi a primeira jogadora que saiu de Portugal para a Arábia). «É um mercado difícil, que tem crescido imenso. Foi feito um grande investimento e há muitas pessoas a ver os jogos», refere. Mas há também barreiras pelo facto de ser mulher. «É uma cultura diferente e com algumas regras. As jogadoras devem ter as pernas tapadas, não podem ter tatuagens e a parte afetiva tem limitações em público, os relacionamentos homossexuais não podem ser tão naturais como em Portugal. Mesmo assim, jogar futebol é um momento de liberdade para as mulheres sauditas», frisa.
Apesar de haver disparidade em relação ao futebol masculino, «as condições financeiras são bastante boas». «Atualmente, ganham ao nível dos melhores clubes europeus e têm excelentes condições, o que lhes dá alguma tranquilidade e compensa o facto de estarem num país com uma cultura diferente», assegura.
As mentalidades têm evoluído e Cristina Moreno nunca sentiu discriminação por ser mulher num meio maioritariamente masculino. «O agenciamento é um mundo cão, mas nunca senti isso, talvez pela forma como me posiciono», observa. «Nós, mulheres, temos um sexto sentido e conseguimos avaliar as coisas de outra forma, é isso que nos diferencia dos homens», aprofunda. «O sexto sentido traz uma avaliação silenciosa, que nos permite perceber onde estamos. Há muitas raposas neste meio e saber avaliar o outro é muito importante», admite ainda.
A forma como a Shire Sports trabalha e o reconhecimento dos atletas deixa Cristina Moreno confiante para o futuro. «Continuamos a trabalhar para sermos os melhores em diferentes modalidades e com parcerias em todo o mundo. Para nós, a partilha e cooperação está acima da competição», remata.