Relação de parentesco

Bem podem as autoridades argumentar que a criminalidade diminuiu. O que conta, porém, é a percepção que fica. A sensação de intranquilidade é difícil de se desvanecer, numa altura em que os crimes de sangue merecem cada vez mais destaque nos jornais, ainda por cima quando se avolumam as notícias relativas à presença, em Portugal,…

Impressiona-me a sucessão de actos criminosos que vêm ocorrendo em Portugal. Somos bombardeados, diariamente, com notícias sobre casos de corrupção e aproveitamento indevido de recursos públicos, bem como sobre crimes da mais variada natureza, inclusive, os que envolvem violência e mesmo morte.

A vida empurrou-me para oportunidades de trabalho e valorização no estrangeiro, sobretudo, no Brasil, país onde as belezas naturais e o clima não escondem a insegurança que perturba o quotidiano das populações. Praticamente todos os dias, em São Paulo ou no Rio de Janeiro, recebia alertas de quem convivia comigo, recomendando cautelas na rua, no trânsito e até em centros comerciais. Aconselhavam-me a andar sem relógio, com pouco dinheiro, sem nada de valor à vista e, de preferência, em carro blindado, nas deslocações.

Habituei-me, como os locais, a encarar o dia a dia com um mínimo de cautelas. No entanto, por duas vezes, à mínima distracção ou descuido, lá se foram os telemóveis nas mãos de ladrões montados em motas e experientes na técnica do esticão. É em momentos como esses que reforçamos o valor do ambiente de segurança que sempre constituiu um dos principais atributos de Portugal.

Não deixa, pois, de ser preocupante o conjunto de informações dando conta de crimes cometidos, nos últimos tempos, em diversos pontos do País.

Chamou-me a atenção, em especial, pelo inusitado, o assalto de que foi alvo o condutor de um carro de alta gama, quando se preparava para estacionar. Ficou sem o relógio de luxo e o ladrão pôs-se em fuga. Tudo à luz do dia e numa rua conhecida da capital.

Bem podem as autoridades argumentar que a criminalidade diminuiu. O que conta, porém, é a percepção que fica. A sensação de intranquilidade é difícil de se desvanecer, numa altura em que os crimes de sangue merecem cada vez mais destaque nos jornais, ainda por cima quando se avolumam as notícias relativas à presença, em Portugal, de muitos membros do PCC, o Primeiro Comando da Capital, que, como se sabe, é um dos mais poderosos gangues do Brasil.

Vivemos, de facto, tempos estranhos em que tudo serve de alimento aos extremismos. As questões da criminalidade e da segurança são centrais, no que concerne ao funcionamento mais ou menos normal de uma sociedade. Basta olhar para o que a propaganda mais radical procura fazer com a demonização de comunidades imigrantes que buscaram o nosso País para trabalhar e viver para se perceber a importância vital de um combate eficaz ao crime e à violência. Atrevo-me a dizer que, junto com a Saúde, a preocupação com a segurança assume lugar cimeiro, no cabaz das inquietações dos portugueses.

Somos um país pobre, acerca do qual, ao longo dos anos, se tem romantizado a realidade, em sectores críticos. Há quem venha alimentando a ilusão de que estamos em condições de competir, de igual para igual, com países muito mais poderosos e industrializados do que o nosso. Claro que as mensagens de esperança são positivas e encorajadoras, mas não disfarçam a verdade. Em Portugal, há dois milhões de pessoas no limiar da pobreza, segundo estatísticas recentes. É muita gente. Demasiada gente. Um só cidadão já é demais.

A criminalidade sempre existiu e não se pára com palavras como o vento também não se deixa travar com a mão. A pobreza e o crime têm relação de parentesco. Se não são irmãos, são pelo menos primos. Combater a carência de recursos e apetrechar as pessoas para uma vida digna constituem objectivos de uma sociedade mais solidária e mais apta a retirar vitalidade a actividades criminosas.

Como se tem visto, pela rapidez com que vários casos foram resolvidos, as nossas polícias desenvolvem trabalho ágil e competente. Quanto mais recursos tiverem certamente melhor trabalho conseguirão fazer. A aposta em meios humanos e ferramentas de investigação e combate naturalmente é um processo que exige atenção da parte de quem manda.

Mas o investimento no desenvolvimento do País, em termos gerais, esse sim é crucial para uma sociedade mais justa e mais equitativa, culturalmente menos receptiva a acções criminosas.

Gostaria que, nos debates que envolvem os candidatos à Presidência da República, se ouvisse falar mais de crescimento sustentável e menos de questões securitárias, quase sempre embrulhadas em gritaria e discursos demagógicos. É na capacidade de o País sair da cepa torta, atraindo investimento e dando-lhe garantias de estabilidade e confiança, que reside a solução para a maior parte dos problemas com que se vê confrontado.

Produtividade é sinónimo de geração de riqueza, a que se associa criação de emprego,  de que resulta maior receita fiscal e, pelo menos em teoria, maior justiça distributiva e, consequentemente, maior disponibilidade financeira para se acudir a quem precisa.

O facto de sermos um país pobre não nos deve condenar ao conformismo imobilista e aos xailes negros da tristeza. Sem falsos moralistas nem patriotismos estéreis, se queremos combater o crime, para além da atenção devida às forças policiais e aos seus meios de intervenção, invistamos, sobretudo, no cidadão e nas suas condições de vida. Não estou a recuar a Rousseau. Apenas a recusar-me a acreditar que não somos capazes de fazer mais uns pelos outros.