Sempre soube que queria seguir representação e, aos 12 anos, já participava nos teatros da escola. A sua carreira começou cedo, mas até há pouco tempo era visto como a carinha bonita de Hollywood. Foi com ‘Frankenstein’ que isso mudou. O artista australiano foi escolhido por Guillermo del Toro para dar vida à criatura criada por Mary Shelley, em 1818, e sente que isso o marcou para sempre

A busca por um propósito, os papéis que desempenhamos, os monstros que habitam dentro de nós, a importância que temos para os outros. Não escolhemos estar aqui… E agora? O que é que realmente nos define? Estas questões estão no cerne do romance Frankenstein, de Mary Shelley, de 1818, e ressoa na mais recente obra do realizador mexicano Guillermo del Toro. 

Desde 2008 que o vencedor de três Óscares e amante de «criaturas fantásticas» – recorde-se que foi ele quem esteve por trás de filmes como O Labirinto do Fauno (2006) e A Forma da Água (2017) –, falava sobre a sua vontade de contar esta história. Mas fê-lo no tempo certo porque, para si, esta aborda de alguma forma a «paternidade». «Estou feliz por estar mais velho – e mais cansado – para contar esta história, porque a criança que viu ‘Frankenstein’ aos sete anos e leu o romance de Mary Shelley aos 11 ainda está dentro de mim… Mas agora sinto-me como Johnny Cash quando cantou ‘Hurt’ – e não se pode cantar essa música se a pessoa que canta não sentiu dor, o passar do tempo e o peso das coisas perdidas», referiu numa sala cheia em Lyon, na 17.ª edição do Festival de Cinema Lumière. 

A longa-metragem estreou na Netflix no dia 7 de novembro e não foi preciso muito para se tornar um dos filmes mais vistos da plataforma de streaming. O filme que recebeu uma ovação de pé de 13 minutos após a sua estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza tem sido bastante elogiado pela sua estética meticulosa, mas sobretudo pela escolha do ator principal, Jacob Elordi, cuja transformação se tornou um verdadeiro feito cinematográfico.

O lugar certo 

O ator australiano, conhecido pelos papéis que desempenhou em Euphoria e Saltburn, passou por um processo de maquilhagem que levava entre 10 e 11 horas por dia, revelou Guillermo del Toro numa entrevista à Netflix. A plataforma disponibilizou um vídeo nas suas redes sociais onde o público pode acompanhar o processo. O corpo do ator foi coberto por 42 peças protéticas, 14 delas apenas para a cabeça e o pescoço. No vídeo de 29 segundos, o ator aparece com os músculos do rosto quase completamente imóveis enquanto lhe aplicam uma máscara. De acordo com a plataforma, pelo menos quatro pessoas dos departamentos de maquilhagem, figurinos e cabelo esculpiram a máscara para dar vida ao «monstro». 

Assim que a maquilhagem era finalizada, começava o trabalho no corpo: era necessário deixá-lo da mesma cor pálida e com cicatrizes para dar a impressão de ter sido criado em partes. A plataforma revela ainda que o processo diário de transformação começava depois da meia-noite para que o ator estivesse pronto ao amanhecer.

E Jacob Elordi não podia estar mais feliz pelo resultado final do projeto. Numa entrevista ao Hollywood Reporter o artista partilhou aquilo que sentiu em Veneza. «Eu estava lá com a minha irmã, a minha mãe e o meu pai.  Durante aquela ovação, vi-os atrás de mim, vi o meu agente, que conheço há 10 anos, olhei à volta e percebi que estava exatamente onde quis estar a vida toda. Todos os dias desde que fiz este filme (…) tenho sentido uma grande calma, a certeza de que estou no lugar certo, que devo estar aqui. E isso tem sido um sentimento realmente profundo e um grande conforto numa indústria onde geralmente te sentes bastante deslocado», admitiu

Um talento nato 

Mas afinal quem é este jovem de 28 anos e como chegou aqui? Elordi nasceu em Brisbane, Queensland, Austrália, no dia 26 de junho de 1997 e desde pequeno mostrou interesse pela representação. Era «dramático» e exigia a atenção de todos aqueles que estavam perto de si, disse numa entrevista à W Magazine. «A minha mãe tem vídeos meus de cabeleira ruiva aos caracóis, batom vermelho nos lábios e com a carteira da minha irmã ao ombro. Não me lembro de não gostar ou sequer de resistir», revelou. 

Aos 12 anos já fazia musicais atuando em peças como Charlie e a Fábrica de Chocolate e Seussical. Começou depois as aulas de teatro e, aos 15, percebeu que já não havia volta a dar. O seu caminho seria por aí, apesar de também ter uma grande paixão pelo desporto. Jacob fez futebol americano tendo sido considerado o melhor jogador da escola durante dois anos consecutivos. Segundo o ator, precisava de desafiar os «valentões» da escola para conseguir seguir o seu sonho. «Desde o momento em que fiz a primeira peça, comecei a ser chamado de gay», contou numa conversa com a GQ, em 2022. Felizmente, sempre se sentiu confiante para lidar com isso. «Eu tinha muita confiança em mim. Sabia que podia fazer as duas coisas: era muito bom no desporto e acho que era muito bom no teatro. Sentia que estava acima disso (…) Nunca me preocupei que os meus colegas pensassem que eu era menos homem por isso (fazer teatro)», explicou. 

Um dos seus primeiros papéis foi interpretar o Rei das Fadas, no espetáculo Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare. E Elordi estava entusiasmado com a oportunidade de criar um Oberon que «transgredisse as convenções de género». «Comecei a identificar-me com esse tipo de personagem. Comecei a identificar-me com a feminilidade, a gesticular bastante», contou, acrescentando que, ao mesmo tempo, começou a entender o poder de subverter expectativas. «Eu nunca consegui entender como é que alguém pode rotular assim alguma coisa. Como é que alguém pode rotular o desporto como masculino? Como é que a tua sexualidade influencia a tua habilidade como atleta ou como artista?», refletiu. A sua maior insegurança estava relacionada com a sua altura – o artista mede 1,97 –, pois recebia críticas que sugeriam que ser muito alto o impediria de atuar profissionalmente. Chegou mesmo a mentir em castings. 

O ator adiantou ainda que não é licenciado e nem sequer terminou o ensino secundário. Talvez seja por isso que leva o seu trabalho tão a sério. «Para mim, representar é respirar (…) Tudo o que sei é dos livros que li e das peças que vi», disse à mesma publicação. 

Seguiram-se algumas curtas-metragens australianas e uma participação como figurante no filme Piratas das Caraíbas: A Vingança de Salazar (2017). Apesar do seu primeiro papel mais relevante ter sido em Swinging Safari, foi o papel de Noah Flynn em The Kissing Booth, da Netflix (2018) que o colocou nas bocas do mundo. 

De acordo com a GQ, esse filme foi gravado na África do Sul e, depois do fim das filmagens em 2017, Elordi pegou nas suas malas e mudou-se para Los Angeles. Os primeiros tempos não foram fáceis, já que teve de ficar no sofá de um amigo. Aliás, às vezes, estacionava o seu Mitsubishi 2004 na Mulholland Drive e dormia lá. «Não estava a conseguir trabalhos (…) Acho que tinha uns 400 ou 800 dólares na minha conta bancária, e ‘Euphoria’ foi meu último ‘teste’ antes de voltar para casa durante uns tempos para juntar dinheiro e recuperar», detalhou. 

Felizmente, a sua vida estava prestes a mudar. Jacob conseguiu o papel na série e, desde então, tem sido sempre a subir. Se antes era aceite sobretudo para o papel de «menino bonito dos liceus», agora parece estar na mira dos realizadores para papel principal, rompendo com esse «padrão».