O encanto das luzes de Natal que brilham e cintilam no escuro, causando uma espécie de encantamento, remete-nos muitas vezes para os Natais da infância. É essa nostalgia, dos Natais que foram e, sobretudo, do que fomos com eles, que torna esta época tão significativa.
Tal como acontece com os presentes, no Natal o que nos encanta é o sonho, a fantasia, a expectativa e o desejo, mais do que o objeto físico que esmorece mal o papel rasgado jaz amarrotado pelo chão. Como se o desejo fosse quase sempre maior do que a sua realização, e o objeto raramente conseguisse preencher as medidas do que foi fantasiado, que pode não ter limite.
O Natal é uma época emocionalmente complexa e intensa, que reúne em si o passado, o presente e, ainda, o futuro. O embrulho por abrir.
Do passado vem a idealização da infância, como um local que às vezes imaginamos quase perfeito onde moram os abraços, os embalos e os afetos daqueles que mais amamos. Os cheiros, as músicas, os sabores e os rituais que despertam as memórias mais queridas. Aquela infância perdida e idealizada. E, com ela, os lutos, não apenas de quem já não está – da mesa que vai deixando lugares vazios, das recordações queridas e saudosas – mas também os lutos que vamos fazendo de nós próprios. Não só saudades das pessoas que perdemos, mas do que fomos com elas, e das versões perdidas de nós que o tempo levou.
Esta época vai-se transformando, ano após ano, à medida que mudamos, que os filhos nascem, que crescem, que perdemos pessoas que nos eram muito queridas, que somos cada vez menos e, ao mesmo tempo, cada vez mais. Vai-se modificando, apesar dos rituais que insistimos em manter, como um fio que nos liga ao passado e às memórias queridas, como um conforto de quem tenta manter um pé do outro lado – quando as luzes eram mais coloridas e tinham ainda mais brilho, quando tudo encantava, quando não dormíamos a pensar no que aí vinha, quando ainda acreditávamos no Pai natal e desconhecíamos tanto da vida.
Este é o presente que, com dois braços esticados, agarra com um o que ficou e, com o outro, o lugar onde estamos, que se quer o mais feliz possível. O tempo em que desejamos concretizar aquilo que idealizámos na infância e sonhámos para hoje. O tempo que temos em mãos, que podemos moldar, transformar, melhorar e viver como um Natal sempre mais construído, ainda que diferente.
No cerne das luzes que brilham, habita também o futuro que se avizinha: o desejo do que será no próximo ano, acompanhado pelo receio do que mais virá a mudar.
Por isso, apesar de o Natal aparentemente ter tudo para ser uma época feliz, nem sempre é a época mais fácil ou vivida com a alegria que a sociedade espera. Porque não é apenas uma época festiva, é um espaço simbólico onde, ano após ano, nos situamos, nos organizamos e tentamos dar sentido ao que fomos, ao que somos e ao que ainda desejamos vir a ser.