Há pessoas e acontecimentos que mudam o rumo da História — mais do que isso, fazem História. Um deles foi Júlio César, ao decidir atravessar o rio Rubicão com a sua legião e desafiar Roma. Um acto ilegal, imprudente, destemido e decisivo que pôs termo à República Romana. Iniciou um legado que haveria de influenciar a história até aos dias de hoje. Não por acaso, o termo Kaiser, Czar, Tsar, entre tantas outras variações de César, passa a ser o arquétipo linguístico do poder soberano.
O 18 de Brumário, que catapulta Napoleão de general secundário para imperador de França, não é menos impactante. Até Karl Marx escreve um livro sobre esta revolução (tentando explicar, como contraponto, porque é que as revoluções de 1848 falharam). Ainda hoje vivemos, para o bem e para o mal, com as fronteiras europeias redefinidas pelas invasões napoleónicas e com forte influência do código napoleónico na nossa lei civil (incluindo a igualdade perante a lei).
Mas para lá destes grandes personagens, existem outros igualmente impactantes que acabaram por nunca ter tanta visibilidade. Não porque não tenham mudado o rumo da história, porque mudaram; talvez porque em vez de um legado de guerras e mortes, deixaram um legado de prosperidade do qual ainda hoje beneficiamos.
Uma dessas figuras foi Ludwig Erhard. Um discreto economista, académico, que entrou muito tarde na política. Torna-se figura pública aos 50 anos, defendendo ideias à data consideradas radicais, impopulares, erradas, que iam contra o consenso do pós-guerra.
Ou seja, Erhard reunia as condições para ser um fracasso político. Um pária ideológico, que não tinha lugar num país acinzentado por consensos paralisantes (Hegel continua a ter razão, a história e o progresso faz-se da dialética entre ideias, não de consensos) e, sobretudo, no recobro do pós-guerra que havia dizimado a Alemanha.
Ideias que a maioria defendia, mas Ludwig Erhard desafiava, como o controlo de preços, o planeamento económico ou uma forte intervenção do Estado. Os miserabilistas, a par com os socialistas, previram a desgraça. Anunciaram o caos. Profetizaram a desordem.
Em 1948, contra todos e sobretudo contra o consenso paralisante, incluindo das potências aliadas ocupantes, Erhard aboliu unilateralmente o controlo de preços na Alemanha Ocidental (a Alemanha Oriental, por seu turno, não haveria de ter a mesma sorte, motivo pelo qual ainda recebe, aos dias de hoje, transferências federais da Alemanha Ocidental para compensar o gap económico — o património de uma família da Alemanha do Leste é cerca de 50% do património de uma família da Alemanha Ocidental).
Estavam lançadas as sementes do Wirtschaftswunder. Em português: o milagre económico alemão. Transformou a Alemanha nazi derrotada e destruída numa das maiores potências económicas do mundo, mostrando que não há destino que não possa ser alterado. O radical, irrealista e até perigoso Erhard torna-se, em 1963, chanceler. Chanceler, não kaiser — o homem da regra, da forma e do processo, não do poder concentrado em si mesmo.
Serve isto para mostrar à saciedade que não existem fados irreversíveis nem destinos lineares. O presente e o futuro fazemo-lo todos nós. No dia 18 de Janeiro (mês de Nivoso, no calendário revolucionário) teremos oportunidade de alterar o caminho que Portugal tem trilhado — um caminho de estagnação, de sofreguidão. Não o alteramos porque o voto presidencial tenha esse poder, mas pelas ondas de choque que uma mudança poderá causar.
Também nós temos a chance de ter o nosso Erhard. Também não é um político de profissão, também entrou para a política tarde, também é economista, também tem ideias irreventes e até fala alemão. Mais importante, partilha desta visão ousada de que o seu país pode ser muito mais do que aquilo que é. Quem sabe o dia 18 não será um daqueles acontecimentos que marcam e definem um país. Neste caso o nosso.