Fragmentos de fim de ano

As comissões que são cobradas pelos bancos tornaram-se a sua nova fonte de rendimento. Para quê emprestar dinheiro, se há uma receita garantida e sem risco?

Para este último artigo do ano, resolvi alinhavar meia dúzia de assuntos. Precisamente aqueles que, nesta altura, mais me atraíram a atenção. Não é um balanço, já que detesto essa ideia que está imbuída de passado e devemos sempre olhar em frente,. Trata-se apenas de registar alguns factos que impactam na vida de todos ou, pelo menos, da maioria.

1. A Banca portuguesa é a mais rentável da Europa. Num país com tantos problemas e assimetrias como o nosso, não deixa de ser espantoso que os bancos portugueses acumulem resultados de fazer inveja aos congéneres europeus. Os proveitos das nossas instituições bancárias compensam custos como nenhum outro país da Zona Euro. 

Em Portugal, acha-se tudo normal. As comissões que são cobradas pelos bancos tornaram-se a sua nova fonte de rendimento. Para quê emprestar dinheiro, se há uma receita garantida e sem risco?

2. Fixei a notícia da Banca, a par de outra, que traduz, indiscutivelmente, uma originalidade nacional: embora o Tribunal Constitucional só tenha reconhecido 11 das 14 candidaturas às eleições presidências, os nomes dos três candidatos eliminados vão figurar nos boletins de voto! Como é possível?! Alguém deve estar a gozar com os portugueses. Só pode.

Os candidatos de facto, os que apresentaram todas as assinaturas exigidas, bem como a documentação prevista, estão a insurgir-se e com razão. Como se compreende que se elaborem boletins de voto, sem estarem certificadas as candidaturas, por quem de direito? Não colhe o argumento de que a necessidade de os enviar para o estrangeiro implica celeridade. É tudo feito às três pancadas, característica, infelizmente, muito portuguesa. 

3. Uma vergonha o que se tem passado no aeroporto de Lisboa! Milhares de pessoas chegam a esperar seis horas no controlo de passaportes. Não é próprio de um país moderno deixar passageiros de voos extracomunitários amontoarem-se, durante horas, a aguardar pelo carimbo de entrada. Se não se consegue resolver o problema, então, o Governo toma uma medida drástica: suspende o sistema europeu de controlo de fronteiras, por três meses! A sacrossanta segurança, em nome da qual tanto exagero tem sido cometido, acaba atirada para o lixo. Um flop total! 

4. A situação de se vive em urgências hospitalares é de bradar aos céus. O caso do hospital Amadora-Sintra assume-se como o mais flagrante. Horas e horas a aguardar pelo atendimento por um médico é angustiante. Uma prova de resistência para quem precisa e para os profissionais do sector. Não admira que a população que consegue arranjar meios para ter seguro de saúde recorra, cada vez mais, aos privados. 

5. Sintomático quanto à importância que os hospitais privados gradualmente têm vindo a assumir na confiança dos consumidores é, por exemplo, o caso da ginecologia e obstetrícia ( mais sete urgências da especialidade encerradas, neste período de fim de ano ). O número crescente de partos que realizam, por comparação com os serviços públicos, fala por si. A realidade encarrega-se, na prática, de ir substituindo o Serviço Nacional de Saúde por um Sistema Nacional de Saúde.

6. Nunca deixo de me surpreender com o à vontade com que os clubes de futebol, sempre que têm oportunidade, gastam milhões na compra de jogadores. No Verão ou em Janeiro, é um ver se te avias, ao sabor de treinadores e presidentes. Benfica, Sporting e Porto estão, novamente, ao ataque. Os encarnados preparam-se para voltar a assumir o primeiro lugar… em contratações, já que estão praticamente goradas as expectativas de conquistar o campeonato. Mourinho deseja e Rui Costa faz-lhe a vontade. Mesmo que isso signifique reconhecer o falhanço de contratações anteriores. Não será tempo de introduzir ‘alguma’ racionalidade (nem me atrevo a falar de ‘muita’) num sector que vive de aparências e em fuga permanente para a frente? É que tal trabalhar num projecto, em que se acredite, em vez de estar a refazer projectos ao sabor dos treinadores? l

Feliz 2026!