Uma grande maioria das pessoas acredita que quem tem uma atitude mais positiva tem menor probabilidade de ter cancro e tem melhor prognóstico se tiver cancro. À data que escrevo este texto não há evidência científica a suportar nenhuma destas afirmações. Apesar disso, é das ideias mais comuns acerca do cancro e há muitos que ganham a vida a transmiti-lo a pessoas que estão doentes e aos seus familiares. É neste contexto que aparece a imagem de um processo de cancro como uma luta, transformando as pessoas que estão doentes em “guerreiras”. Como se o desfecho dependesse apenas da sua positividade, força e determinação.
Vamos começar pelo óbvio: Quem consegue manter uma atitude positiva, vive melhor a doença. Na verdade vive melhor qualquer adversidade, seja uma fase de tratamento e recuperação, seja adaptar-se melhor à perda progressiva de capacidades e até à ameaça da morte e aproximação do morrer. Ou seja, perante ameaças, incertezas e limitações há pessoas que vão conseguindo continuar a sentir prazer e bem-estar, conseguem focar-se sobretudo naquilo que lhes faz bem e as faz sentir bem e conseguem ir percebendo o que controlam e sobre o qual podem agir, e o que está fora do seu controlo e por isso só podem tolerar. Mas esta é a maneira como a Psicologia apresenta a realidade, com nuances e diferentes dimensões. Para o movimento do pensamento positivo só há uma regra: se eu pensar com intenção, vai acontecer! A isto chama-se “pensamento mágico”, que é típico das crianças e contraria o mais elementar bom senso. Mas há ainda outro problema: Parte do princípio de que para se ficar mais positivo basta querer, por isso é que os doentes com cancro ouvem de tanta gente a toda a hora (inclusive às vezes de médicos): «Agora tem de estar positivo!». Ou pior ainda: «Tem de ser mais positiva para poder melhorar!». O termo “ditadura do pensamento positivo” não aparece porque há um grupo de pessoas negativas e desmancha prazeres que não gosta de ver os outros felizes. Mas sim para mostrar que dizer a alguém para ser mais positivo se não quer que a vida lhe corra mal, além de muito cruel está cientificamente errado. Porque se a pessoa já tem uma atitude positiva, não tem qualquer efeito, se não tem, estou a deixá-la mais sozinha no seu sofrimento. E pior ainda, alimenta uma culpa que muitas pessoas sentem por não conseguirem ser mais positivas e por essa razão serem responsáveis pela sua doença ou por não estarem a melhorar. Aguentar a incerteza e a ausência de controlo são das coisas mais difíceis da vida. E custa muito ver as pessoas de quem gostamos a passar por situações graves acerca das quais não sabemos o desfecho. Era muito bom que fosse mais fácil, mas não é.
Manuel Sobrinho Simões disse, há umas semanas, numa entrevista ao Jornal de Notícias, que a frase “eu venci o cancro” é indecente. Pois é.