“Calcem as galochas, vamos atravessar a lama”, escreveu Lídia Jorge no Dia de Portugal. Assim foi 2025: começou com uma manifestação, não nos encostem à parede, acabou com uma greve geral “inexpressiva”, o país de costas voltadas ao novo pacote laboral do Governo.
Não foi fácil caminhar na lama do esplendor de Portugal: o The Economist diz que somos a economia do ano, Manuel João Vieira promete vinho canalizado, ganhámos a Liga das Nações, demos 9-1 à Arménia, mas Portugal está com problemas de identidade e saúde, há bebés que nascem nas auto-estradas, o Bloco de Esquerda despede grávidas, a ministra ataca os horários de amamentação, isto está mau até para os bebés reborn nascerem, entretanto um dermatologista aproveita a brecha do SNS para fazer uma fortuna à conta de cirurgias ao sábado.
Fecham os serviços de obstetrícia, fecham os acessos públicos às praias da Comporta, irá fechar a Ginjinha Sem Rival, só não cancelam os fogos de artifício durante os incêndios de Verão. O país vive uma crise de habitação sem precedentes, 64 barracas são demolidas no concelho de Loures por ordem de Ricardo Leão, e até André Ventura só consegue viver numa casa com uns míseros 30 metros quadrados. Isto só está bom para a Nicole Kidman, que comprou casa na Comporta, para a Infanta Sofia, que vem viver para Benfica, e para o Astérix na Lusitânia.
Em trânsito estiveram: Katy Perry que foi ao “espaço”, a flotilha que viajou até Gaza, Mourinho que regressou a Portugal, CR7 que jantou com Trump na Casa Branca, os imigrantes marroquinos que deram à costa do Algarve, Carlos Moedas que afirmou que o metrobus é um “metro com rodas”, e Marcelo que foi convidado a ir ao Burgerfest, o tal “festival de hambúrgueres”…
Toda a gente quis: o chocolate do Dubai, os kits de sobrevivência, os genes de Sydney Sweeney e/ou Pedro Pascal. Virais? A gripe A, o julgamento dos Anjos, a série Adolescence, o disco da Rosalía, o escândalo P. Diddy, ou a lista de Epstein. Trump promete invadir o Canadá, o México, o Panamá, a Gronelândia e a Comporta, e impõe tarifas a pinguins, mas acaba o ano a tentar invadir a Venezuela, talvez para garantir o Nobel da Paz que entretanto perdeu.
Portugal sobrevive a um apagão, duas eleições, três campanhas eleitorais, e quase cinquenta entrevistas exclusivas a André Ventura nas nossas televisões. Entretanto, em Albufeira, já não se pode andar de biquini, o Governo proíbe a burca em espaços públicos, e a disciplina de cidadania só sem qualquer conteúdo maroto: “o país precisa de três Salazares”, exclama Ventura. Raquel Varela e Dina Aguiar são descontinuadas pela RTP, a Websummit queixa-se de que já não consegue estacionar os seus aviões em Lisboa, e Portugal reconhece o Estado da Palestina, mas não o estado a que chegou a Eurovisão. Deslocado, dos Napa, parece fazer mais sentido cada dia que passa.
Morre o Papa Francisco. Morre Pinto da Costa, o Papa do FC Porto. Morre Balsemão, o Papa da SIC. Marcelo descobre que tem uma hérnia encarcerada, Jair Bolsonaro descobre que será encarcerado durante 27 anos. Nuno Markl, Joaquim Monchique, Maria João Pires sofrem AVCs. Clara Pinto Correia é encontrada morta no Outono, depois de ter sofrido um AVC no Verão. André Ventura tem dois espasmos esofágicos depois de comer chouriças no Algarve, os Anjos parece que sofrem de acne.
Apagão em Portugal, tremor de terra em Lisboa, tragédia no Elevador da Glória, assalto do ano no Louvre, mas não devemos esquecer os 220 capões furtados em Freamunde, as malas roubadas pelo deputado do Chega, Miguel Arruda, e a tonelada de santolas que estava na posse de Fábio Coentrão. A “internacionalização” da marca Portugal atinge o seu apogeu quando um português é autor de um tiroteio em massa nos EUA e mata à queima-roupa um antigo colega, o físico Nuno Loureiro.
Morrem Diogo Jota, Nuno Portas, Teresa Caeiro, Celeste Caeiro, Constança Cunha e Sá, Maria Teresa Horta, Eduardo Gageiro, Eduardo Serra, Miguel Macedo, Luís Jardim, João Cravinho, José António Saraiva, Olga Cardoso, Nuno Guerreiro, Almeno Gonçalves, Glória de Matos. Os partidos Ergue-te e Aliança são extintos, Mariana Mortágua sai do Parlamento, Bloco de Esquerda, Iniciativa Liberal e PS mudam de lideranças, Juntos Pelo Povo elege o primeiro deputado, André Ventura concorre a três eleições, só faltou mesmo a do Benfica. O governo aproveita a morte do Papa para cancelar o 25 de Abril, que entretanto foi celebrado num evento familiar do 1º de Maio, onde Montenegro cantou Sonhos de Menino com Tony Carreira. Não admira que haja cada vez mais gente a votar no extremo-centro, como insinua Manuel João Vieira.
O discurso de ódio continua de rédea solta, “no meu entender, pode”, assegura Aguiar-Branco, desde que não se chame “fanfarrão” ao líder do Chega, claro. Dentro e fora do Parlamento os sinais estão à vista, um dia é o deputado Filipe Melo que manda piropos à Isabel Moreira, outro dia são os neonazis que agridem o sheik David Munir e violentam artistas da Barraca que recitavam Camões no Dia de Portugal. A ameaça neonazi sofre um apagão no relatório de segurança interna, vulgo NAZI, perdão, RASI, mas a Justiça é lesta a cobrar Mariana Mortágua pela viagem de regresso de Gaza, ou a obrigar um activista climático a pagar 1600 euros por ter sujado de spinumviva, perdão, de tinta verde o fato de Montenegro.
Morrem Val Kilmer, Robert Redford, Jane Goodall, David Lynch, Terence Stamp, Gene Hackman, Marianne Faithfull, Rob Reiner, Vargas Llosa, José Mujica, Sebastião Salgado, Brian Wilson, Ozzy Osbourne, Giorgio Armani, Claudia Cardinale, Tom Stoppard, Frank Gehry, Diane Keaton, Martin Parr. Casais do ano? Liam Neeson e Pamela Anderson, Catarina Furtado e Carlão, Elon Musk e Trump, e aquele casal atrevido apanhado pela kisscam dos Coldplay.
Heróis nacionais? Os atletas Isaac Nader e Pedro Pichardo, campeões do mundo em Tóquio, o Sporting bicampeão nacional em futebol, a selecção de futebol sub17 que ganhou o Europeu e o Mundial no mesmo ano, os jornalistas da Visão que continuaram a trabalhar sem receber salários, a senhora que recusou abraçar Marcelo na Feira do Livro, o restaurante indostânico de Oliveira do Hospital que ofereceu refeições aos bombeiros durante o período de incêndios, e os bombeiros da Moita (e todos os bombeiros em geral, excepto o da Madeira, que agrediu a mulher) que deram à luz uma nova geração de bebés dentro das suas ambulâncias nas estradas nacionais.
“Mãe, não nos trataram bem. Sem água nem comida há 48 horas. Mas está tudo bem e ainda não fui parar à solitária” (Mariana Mortágua).
Portugal sofre, mas Portugal ainda existe, ainda estamos aqui.