Desporto

Manuel Barbosa: O empresário que não vergava

Saddam Hussein teimava em não pagar. A selecção de futebol do Iraque havia concluído o estágio em Cascais, o autocarro aguardava à porta do hotel para transportar a comitiva ao aeroporto e continuava por liquidar a última tranche do acordo estabelecido com Manuel Barbosa.

Manuel Barbosa: O empresário que não vergava

Alertado para aquela forma de actuar, em que a última parcela nunca era saldada, o organizador da visita dos iraquianos a Portugal tomou uma posição de força: reteve as bagagens, confiscou os passaportes e chamou a Polícia. “Se vocês não pagam, também não saem”, avisou-os.

Os árabes não esperaram pelas autoridades. Subiram ao autocarro e refugiaram-se na embaixada, em Lisboa, enquanto aguardavam luz verde de Saddam para acertarem contas com Manuel Barbosa.

Eram os anos 80 e o todo-poderoso presidente iraquiano manteve-se irredutível, num braço-de-ferro à distância. O empresário português não vacilou. A verba em falta não só estava destinada a cobrir a última fatia das despesas como seria indispensável para o negócio dar lucro.

Já a noite caíra quando ligaram da embaixada: tinham o dinheiro, mas não pagariam com cheque nem por transferência bancária. “Estivemos duas horas a contar notas de cinco dólares, que eles reuniram entre toda a comitiva”, recorda ao SOL Jorge Gama, o então braço-direito de Manuel Barbosa na organização de estágios desportivos.

Descrito por este amigo de 40 anos como um “ditador de ideias”, alguém que “ouvia os outros mas não descansava enquanto não seguisse para a frente com a ideia dele”, Manuel Barbosa teve vida farta antes e depois de se tornar o primeiro grande empresário de jogadores de futebol em Portugal, no final da década de 80.

Ao intermediar as transferências dos brasileiros Mozer, Ricardo Gomes, Valdo e Aldair para o Benfica, ganhou a projecção que lhe permitiu entrar no mercado francês e mais tarde levar Rui Costa para a Fiorentina ou Secretário para o Real Madrid. Mas o olho para o negócio já se evidenciara muito antes, quando aos 18 anos, em meados da década de 60, emigrou para França com a ideia de ser pedreiro e pouco depois já geria uma agência de viagens. Até organizar o primeiro Benfica-Sporting da história em solo estrangeiro foi um pulo.

Por cada vez que ficou de bolsos vazios antes de enriquecer no futebol – e foram várias –, Manuel Barbosa ergueu-se do nada. “Vês, Rui, com mil escudos faço uma revolução” – costumava dizer ao filho.

Ao contrário da autoconfiança, o dinheiro nunca foi um bem precioso que guardasse debaixo do colchão. Tinha prazer em gastá-lo. Nas suas camisas “sui generis”, como lhes chamava, nas gravatas berrantes que se tornaram uma imagem de marca, nos charutos cubanos, no cabeleireiro – que chegava a frequentar duas vezes por dia. Se o esbanjava nas mil e uma fontes de auto-estima, com os amigos e conhecidos mostrava-se um mãos largas: oferecia, gratificava e dificilmente recusava ajudar.

Numa longínqua entrevista ao Record partilhou o seu lema: “Quero viver feliz com pouco e não infeliz com muito”. Assim morreu há três semanas, “feliz com pouco”, o primeiro homem em Portugal a fazer fortuna como representante de futebolistas.

Fintar o Maio de 68 e o PREC

Nascido em 1945 em Aveleda, uma pequena terra colada a Braga, Manuel Barbosa ruma a França mal dobra a maioridade. Ao fim de um ano na construção civil, começa a trabalhar numa agência de viagens para um espanhol que viria a convidar para padrinho do seu filho. A sua dinâmica é apreciada ao ponto de ficar responsável por um dos balcões que o catalão tem espalhados por Paris.

Em paralelo com as viagens, o negócio prospera quando decide tratar da burocracia dos emigrantes: passaportes, vistos e restante documentação. “Ia à embaixada e aos consulados em Paris angariar clientes”, conta o filho, Rui Barbosa. As filas crescem, o lucro também. Nos anos 60 entram em terras gaulesas quase um milhão de portugueses.

Defensor dos valores do trabalho e da família, o minhoto identifica-se com o Presidente francês Charles de Gaulle pelos mesmos motivos que o aproximam de Salazar em Portugal. Sempre foi um homem de direita e já na altura o assumia. Por ironia, são os protestos do Maio de 1968, conotados com os ideais de Esquerda, que hão-de proporcionar-lhe o fôlego financeiro para se tornar patrão de si próprio.

Com os estudantes e quase dois terços da classe trabalhadora em protesto contra o regime de De Gaulle, uma greve geral paralisa o país. Os aeroportos e os caminhos-de-ferro encerram, as viagens ficam comprometidas. É então que Manuel Barbosa desenrasca uma frota automóvel para as deslocações dos portugueses, ideia que se revela um êxito e lhe permite comprar a agência de viagens, entretanto posta à venda. Passa a chamar-se Mercury, com ‘y’, em alusão ao deus Mercúrio, associado na mitologia grega ao comércio e ao lucro.

Tem três balcões em Paris e, a partir de 1971, haveria de abrir outros 17 em Portugal, com o apoio do fundador do banco BIP e mais tarde presidente do Benfica, Jorge de Brito, um amigo para a vida. Mas antes do regresso a Portugal ainda há tempo para o pontapé de saída no futebol em Paris.

Um cachet de mil contos para cada equipa leva Benfica e Sporting à capital francesa em Abril desse ano de 1971. De um lado, Eusébio, Simões, Torres, Humberto, Nené e Artur Jorge. Do outro, Damas, Hilário, José Carlos, Peres e Lourenço.

A organização, a cargo da Mercury, leva mais de 40 mil pessoas ao Estádio de Colombes para assistirem ao primeiro dérbi de Lisboa realizado fora de Portugal, que os ‘leões’ vencem por 3-1. Os emigrantes também têm direito a folclore antes do apito inicial.

Manuel Barbosa anuncia uma receita de 3.260 contos, 400 contos abaixo dos custos da organização. “Mas não estou pesaroso nem arrependido porque fiz um bom lançamento publicitário, cumpri todas as minhas obrigações e o espectáculo decorreu excelentemente”, comenta ao jornal A Bola, com o pensamento positivo que nunca o abandonará.

O L’Équipe e a France Football dedicam páginas ao jogo e no ano seguinte estarão entre os patrocinadores do Benfica-Bayern Munique, também organizado por Manuel Barbosa em Paris. Um género de iniciativa que passa a explorar.

É hora de voltar a Portugal. Já com os dois filhos nascidos em França, Manuel Barbosa fixa-se com a família em Cascais. A Mercury expande-se por todo o país: Lisboa, Braga, Montalegre, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Ourém… Para desenvolver o negócio, conta com o suporte do BIP, o banco fundado por Jorge de Brito em 1972 e que, no 25 de Abril de 1974, detém boa parte do capital da agência.

Tudo se complica quando o banqueiro é detido poucos meses após a Revolução dos Cravos, acusado de transferir dinheiro para o estrangeiro sem autorização do Banco de Portugal. No auge do PREC (Processo Revolucionário em Curso), o Estado passa a tomar conta do BIP e, por arrasto, Manuel Barbosa é afastado da administração da Mercury.

Tenta o regresso a Paris, mas seis meses depois muda-se de armas e bagagens para o Brasil. “Instala-se no Copacabana Palace e começa aí a grande aventura da sua vida”, relata Jorge Gama, contratado em 1974 para a Mercury e convidado a embarcar no novo desafio.

Sem dinheiro no banco e com liquidez apenas para a despesa corrente, Manuel Barbosa usa a estada num dos hotéis mais luxuosos do Rio de Janeiro “e o seu discurso optimista” para comprar “uma das maiores agências de viagens” do Brasil. O empresário convence o Banco Itaú a investir o dinheiro em troca da hipoteca da empresa. Gama lembra-se de chorarem nesse dia. “O Manel fazia omeletes sem ovos, era um visionário”.

Com “um império de balcões pelo país”, o próximo passo é contactar a Confederação Brasileira de Futebol. Proposta: organizarem todas as viagens das selecções canarinhas. Contrato assinado, inicia-se a ligação ao futebol do outro lado do Atlântico.

A agência não tem o sucesso esperado, ainda assim. Jorge Gama explica que por essa altura “o Brasil instituiu uma lei que obriga as pessoas a depositarem mil dólares numa conta do Governo para poderem obter passaportes”, o que desencoraja as viagens para o estrangeiro. O objectivo é reter o dinheiro no país.

A medida intensifica em Manuel Barbosa o desejo de deixar a vida de emigrante e voltar para Portugal. Tinham passado três anos desde o 25 de Abril, o PREC havia ficado para trás e parecem reunidas as condições para regressar ao controlo da Mercury. Não demora até se tornar a agência oficial do Benfica, estatuto que haveria de preservar ao longo de 17 anos.

O filão árabe

No início da década de 80, surge uma nova oportunidade de negócio. Desde os tempos de Paris que Manuel Barbosa se dava com o correspondente de A Bola na cidade-luz, Bruno Santos. O jornalista seguia todos os anos a Volta a França em bicicleta, e a Mercury chegou a patrocinar Joaquim Agostinho nas suas proezas pelas estradas dos Alpes e Pirenéus. Bruno Santos era, por sua vez, amigo de João Havelange, o brasileiro que presidiu à FIFA de 1974 a 1998. E conhecia muito bem o treinador Carlos Alberto Parreira, desde 1978 à frente da selecção do Kuwait.

Ciente desta teia de ligações, Barbosa pede ao amigo que lhe apresente Parreira e propõe ao técnico brasileiro um estágio em Portugal como forma de preparar o Mundial de 1982, em Espanha. Dito e feito. Em simultâneo, oferece o estágio final para o mesmo Campeonato do Mundo à selecção do Brasil, em troca de ser reconhecido como agente de viagens oficial do escrete canarinho. Zico, Sócrates, Falcão e companhia no Guincho era a publicidade que faltava para o impulso inicial.

Nos anos seguintes, vêm os Emirados Árabes Unidos, o Qatar, o Iraque, a Arábia Saudita, o Bahrain, a Jordânia, o Médio Oriente em peso. “O mercado árabe deu ao Manel uma capacidade financeira muito importante”, sublinha Jorge Gama, o principal interlocutor nestas negociações.

Manuel Barbosa dominava o francês, mas não sabia falar inglês. Um dia decidem gravar um vídeo a publicitar Portugal e os estágios desportivos, para distribuir naquela região do globo. O empresário minhoto aparece a falar uma espécie de inglês, com recurso a um truque: socorrendo-se de uma folha de papel, verbaliza um texto que soa à língua de Shakespeare quando lido à letra em português. “O Manel era daquelas pessoas que nunca dizia não posso, não quero, não consigo”.

Na hora de regatear cifrões com os árabes, assume as rédeas e dispensa as cábulas. Em tom de brincadeira, Gama chamava-lhe prostituta. “One thousand, ten thousand, one million”. Só sabia os números. O filho guarda boas recordações do “inglês macarrónico” do pai: “How much, friend?”. Resultava, garante. “Tanto que às vezes eles diziam: ‘No Gama, I want to talk with mister Barbosa’”.

Durante os estágios, estão horas à conversa com príncipes e xeques do Médio Oriente e fumam Shisha, um cachimbo de água muito popular entre os árabes que roda entre os presentes. O actual dono do Manchester City, o xeque Mansour bin Zayed Al Nahyan, é um desses convivas. Passa um mês em Portugal à frente da delegação dos Emirados Árabes Unidos.

Outro é Fahed Al-Sabah, irmão do Emir do Kuwait, com quem estabelecem fortes laços. À saída de Lisboa, num gesto de amizade, os 60 homens da comitiva despedem-se de Manuel Barbosa e Jorge Gama com beijos na cara. Os contactos com Al-Sabah abrem a porta à transferência de Quinito para o Yarmuk, em 1985, na primeira incursão de um treinador português por clubes do Médio Oriente.

Na memória perdura ainda uma viagem relâmpago a Paris para selarem um estágio com um príncipe da Arábia Saudita, logo nos primeiros tempos. Com a “conta a zeros”, pedem dinheiro emprestado a amigos para comprarem os bilhetes de avião e alugam quarto no “hotel dos milionários”, o George V. A mesma estratégia do Copacabana Palace redunda, nas palavras de Gama, “num dos maiores negócios que o Manel fez nos estágios”.

Também lhe evidencia o lado de bom samaritano. À época, está preso na Arábia Saudita um funcionário de uma empresa de construção do Norte e Barbosa negoceia a autorização para o visitar na cadeia de Damman. “Ainda não tinha recebido ninguém e o Manel foi lá de propósito para poder transmitir à família como é que ele estava. Há muitas vezes uma ideia errada do Manel, mas ele fazia estas coisas sem esperar nada em troca”.

Ascensão e queda do primeiro agente FIFA do mundo

Fernando Chalana é o primeiro grande talento que representa. A experiência não corre bem. Encontra na mulher do jogador, Anabela, uma resistência que dá faísca e a ligação é interrompida.

Será um telefonema para Gaspar Ramos a acender o rastilho para explodir na nova actividade. O Benfica anda em digressão pelos Estados Unidos, em 1987, quando Manuel Barbosa digita o número do então homem forte do futebol encarnado. “Você já perdeu o Júlio César, mas eu tenho uma alternativa, se quiser” – diz para Gaspar Ramos, que encaixa a informação com “estranheza”.

Há muito que o clube da Luz tinha acordado a contratação do brasileiro com os franceses do Brest e só faltava finalizar o contrato com o jogador. Barbosa não se acanha e avança com o nome que tem na manga: Carlos Mozer.

Era um sonho antigo de Gaspar Ramos, o defesa central do Flamengo que conhecia desde os 18 anos. Tinha agora 27, chegara à selecção e parecia-lhe um alvo impossível. “Mas, em função dos problemas financeiros do Flamengo, dizia-me o Manuel Barbosa que podia acontecer”, recorda o antigo dirigente das ‘águias’, que logo se entusiasmou com a ideia. “Prefiro o Mozer ao Júlio César, veja lá quanto é que pode custar e depois diga-nos”.

Numa questão de dias, o negócio concretiza-se. E Manuel Barbosa, que já representa jogadores como Carlos Manuel ou Diamantino, passa a ter as portas abertas em território ‘encarnado’.

A Mozer nunca chega a vangloriar-se de ter sido ele a sugerir o seu nome ao Benfica. O brasileiro, que dois anos mais tarde segue para o Marselha com um contrato milionário, só agora ficou a conhecer a verdadeira história do seu salto para a Europa.

“Não sabia disso. Ele deu um novo rumo à minha carreira. Entrei no Flamengo com 15 anos e nunca pensei em sair, mas fui muito feliz com a minha vinda para cá. Correu super bem a minha passagem pelo Benfica”, enfatiza o ex-jogador, hoje radicado em Portugal.

Ao apresentar-lhe a proposta, o empresário minhoto fala de “Eusébio e Alves”, garante que o “ambiente de clube de massas seria semelhante” e convence-o a deixar o país de origem. Com a sua intermediação, no mesmo ano entra na Luz o médio Elzo e depois um trio de pesos pesados: Ricardo Gomes, Valdo e Aldair.

“Conhecia muito bem o mercado brasileiro e, portanto, era o homem ideal para negociar. Tinha a liberdade para apresentar sugestões, mas só mediou a contratação de jogadores escolhidos pelo Benfica e fê-lo sempre muito bem, com vantagens para o clube”, atesta Gaspar Ramos.

A única vez em que chocam de frente é na saída de Ricardo Gomes para o Paris Saint-Germain. Manuel Barbosa acena com a proposta e ouve que Eriksson pretende manter o brasileiro e juntar-lhe outro central do mesmo calibre para atacar a Taça dos Campeões Europeus. O dirigente do Benfica pede-lhe para não informar o jogador, mas uns dias depois Ricardo bate à porta. Quer ir embora. Diz ter uma oferta “20 vezes superior” ao u salário que recebe na Luz. E remata: “Impedirem-me de ir é como negarem-me a sorte grande”.

Gaspar Ramos fica convencido de que é Manuel Barbosa quem avisa o brasileiro, mas o empresário nunca o assume. Paula Barbosa, a filha, tem uma certeza: “Nunca na vida ia enganar o Ricardo, era um filho dele”.

A ânsia de se tornar um segundo pai dos jogadores chega a ser levada ao extremo. “Às vezes era um ditador, impunha a sua vontade como fazia comigo e com o meu irmão. Era pai, era chato, era ele”. Paula não esconde que apreciava a liberdade que ganhava quando Manuel Barbosa focava a atenção nos jogadores – “se a família deles estava bem, se estavam a mandar dinheiro para casa, se planeavam ter filhos, comprar casa e casar…” –, mas admite ter sentido ciúmes uma ou outra vez. Certo dia seguia ao volante, com jogadores no carro. Terá pisado demais o acelerador e a voz do pai fez-se ouvir: “Paula, mais devagar, vão aqui os meus filhos”. Acabava por achar piada.

Habitou-se a ter a casa cheia de ‘irmãos’ do Brasil. E quando não eram os jogadores eram os amigos. “O frigorífico estava sempre cheio e quem aparecesse ficava para almoçar. O meu pai adorava ver as pessoas que o rodeavam felizes”, conta, orgulhosa do “monstro social” que “viveu sempre a mil à hora”.

É a toda a velocidade que se impõe como empresário. Em 1991, não leva apenas Ricardo Gomes para o PSG. Valdo também vai. Não faz mais do que cumprir a estratégia delineada em conjunto com o então prefeito de Paris e futuro Presidente da República, Jacques Chirac, e o director do Canal Plus, Michel Denisot, que por essa altura assume a liderança do clube: construir uma grande equipa na capital francesa, sob a batuta de Artur Jorge.

Rui Barbosa revela que Bernard Tapie, de quem o pai era próximo desde a transferência de Mozer para o Marselha, “oferece um milhão de dólares” para desviar Ricardo Gomes do PSG e leva uma nega. “Nem pensar, já dei a minha palavra”, responde-lhe Barbosa. “O meu pai tinha uma máxima que era assim: ‘Se eu falhar uma vez, nunca mais faço negócio com esses, e assim continuo a fazer com todos e não falho com ninguém’”.

Entra nos anos dourados. Até 1996, coloca Ricardo Rocha, Zeferino, Tinaia, Agostinho e Secretário no Real Madrid, Rui Costa na Fiorentina, Raí no PSG, Paulo Bento no Oviedo, Toni e Jesualdo no comando técnico do Bordéus e Carlos Alberto Parreira, amigo de longa data, no Valência e depois no Fenerbahçe. Da equipa brasileira campeã mundial em 1994, além do seleccionador, representa Márcio Santos, Aldair, Ricardo Rocha, Mazinho, Branco e Zinho. Vive o auge: a carteira de clientes atinge os 140 jogadores.

O culto da imagem leva-o todos os dias ao cabeleireiro Brasília, no Marquês de Pombal. Um hábito que vem desde os anos 80. Manuel Barbosa gosta do serviço completo, com tudo a que tem direito: lavar a cabeça, pentear, arranjar as mãos, engraxar os sapatos.

Ninguém estranha o uso de laca no cabelo e verniz nas unhas. “Naquela época, quase todos os homens usavam”, explicam no espaço comercial ali instalado há mais de 50 anos.

“Nada forreta”, a cada passagem gratifica todos os empregados que cuidam da sua aparência, a manicure, o engraxador, a ajudante e o barbeiro. Uma vez, num dia de muito trabalho, a ajudante esqueceu-se de lhe lavar os óculos e ficou sem os mil escudos que costumava receber. No dia seguinte, desculpou-se e Manuel Barbosa deixou a gratificação a dobrar. “Só não deu no dia anterior para mostrar que estava atento”, explica um dos barbeiros.

Ali, todos o recordam com saudade: “Era puro, amigo do amigo e simpático”. Esteve lá com Mozer, Valdo e Raí e, sempre que fazia um grande negócio, era certo que a generosidade inflacionava.

Se ao Benfica cobra 5% de comissão apenas quando o clube vende um jogador que representa, no estrangeiro passa a exigir 15% assim que uma aquisição é consumada pelo seu punho. O Marselha de Bernard Tapie chega a adiantar-lhe 700 mil francos a fundo perdido para procurar reforços. E, como prémio pela transferência de Mozer, tem direito a um BMW 850 que há-de conservar simbolicamente para o resto da vida.

Mas são os 2,5 milhões de francos recebidos para abdicar de um direito de preferência sobre o brasileiro Bebeto que levantam mais suspeitas em França e o levam ao banco dos réus, em 1997. Num julgamento histórico que tem em Tapie o rosto principal entre 20 arguidos, dos quais 11 são empresários de jogadores, Manuel Barbosa é condenado em primeira instância a um ano de prisão com pena suspensa – mas depois ganha o recurso e acaba ilibado.

Um dos 11 nomes inscritos na primeira lista de agentes credenciados pela FIFA, em 1993, a par do eterno companheiro de luta Jorge Gama, Manuel Barbosa “criou uma profissão”, no entender de Jorge Manuel Mendes. “Foi o meu ídolo”, assume o ex-empresário de Mantorras e Simão Sabrosa. “É como os portugueses que desbravaram o mar: no início ninguém sabia o que havia do outro lado. E ele abriu portas para tantos que hoje existem cinco ou seis mil agentes no mundo inteiro”.

Indirectamente, Jorge Manuel Mendes é um elemento chave na transição da era Manuel Barbosa para a era José Veiga, no que toca à posição dominante no competitivo meio dos empresários de futebol. Quando Veiga desvia Simão de Mendes e o leva para o Barcelona, em 1999, o que origina a revolta de toda a classe, Manuel Barbosa já não tem o fulgor de anos anteriores e o rival aproveita para subir ao poleiro.

O envolvimento do bracarense no caso Tapie tinha-o beliscado e a ligação a algumas transferências falhadas, como as de Marcelo e Paredão para o Benfica, também fazem mossa no seu estatuto.

Garantem os mais próximos, porém, que a razão principal para a perda da hegemonia foi uma alteração de prioridades. Em vez da representação de jogadores, a sua mente concentrou-se num projecto imobiliário que idealizara nos anos em que organizava estágios. Nele hipotecou muito dinheiro e com o tempo foi perdendo capacidade financeira.

O cansaço de anos sem férias a tratar dos assuntos dos jogadores também terá pesado. Uma das últimas batalhas que o desgostou foi o processo de difamação movido e ganho por Vale e Azevedo, cuja sentença, em 2001, o condenou a pagar uma indemnização de cinco mil euros ao ex-presidente do Benfica.

Cinco anos antes, quando o então candidato à liderança das ‘águias’ acena com o regresso de Rui Costa à Luz e está ainda num crescendo de popularidade, Manuel Barbosa chama-lhe “vigarista” e “trapaceiro eleitoral”. Conta o filho que, ao analisar o contrato, o empresário exclamou: “Isto é uma armadilha”.

Durante o julgamento, já com Vale e Azevedo presente no tribunal acompanhado por guardas prisionais na condição de detido, Barbosa abdica do advogado. Alega que, perante as circunstâncias, não precisa de qualquer outro argumento de defesa. “Este senhor está a ser preso e eu é que estou a ser julgado?”.

É por esta altura que redirecciona toda a sua vida para Braga. Com recurso a um empréstimo bancário, compra a Quinta de Jós, junto ao rio Cávado, no intuito de transformar o espaço num empreendimento turístico e desportivo capaz de receber estágios de equipas de futebol. Como nos velhos tempos.

Desde os anos 80 que alimentava a ideia e, arrumada a carreira de empresário de jogadores, aposta todas as fichas num projecto que contempla um campo de golfe, três de futebol, 63 moradias e dois hotéis. “O erro do meu pai foi ter abandonado o futebol para se dedicar em exclusivo à quinta”, sustenta Rui Barbosa, para quem a perda de visibilidade contribui para o banco fechar a torneira do financiamento.

Quem lida de perto com Manuel Barbosa aponta-lhe um defeito acima de todos: a incapacidade para delegar tarefas. Era assim na Mercury, no futebol e também no seu novo desafio, como exemplifica o filho. “Ele já queria ser arquitecto e tudo. Dizia como devia ficar o empreendimento e os arquitectos só tinham de fazer o desenho. Pensava que podia ser especialista em tudo”.

O que pode soar a crítica não é mais do que a constatação de um facto. E acima de tudo um lamento de quem acredita u que, mais do que hipotecar a estabilidade financeira, o pai começou a perder a vida ali. “Se tivermos dívidas, não conseguimos dormir. Se alguém diz que avança com o dinheiro e depois não o faz, uma pessoa fica ansiosa, não come. E foram anos disto”.

A Mercury também se ressente do divórcio com o futebol. Manuel Barbosa costumava injectar dinheiro das transferências ou dos estágios sempre que havia necessidades de tesouraria e essa via de escape esgotara-se. Há muito que o problema do défice estava identificado, mas o empresário manteve-se sempre fiel ao princípio de pagar aos funcionários acima dos valores tabelados. Teve de fechar portas.

Em 2007, abre-se a possibilidade do regresso ao futebol. Afogado em dívidas, o líder do Atlético de Valdevez desafia Manuel Barbosa a gerir a equipa.

“O meu pai tinha esta coisa fantástica. Estava lá na Quinta de Jós sem conseguir andar com o projecto para a frente, às vezes nem tinha dinheiro para comer – não digo no sentido literal mas no sentido de não ter para dar –, mas se lhe aparecia alguém em dificuldades era logo: ‘Eu resolvo’”.

Ainda esteve duas épocas no clube dos escalões secundários, até se resignar. Também se viu obrigado a desfazer-se da menina dos seus olhos, a Quinta de Jós, mas o último golpe, o pior de todos, seria o cancro no estômago.

Como sempre, recusa entregar-se. Mal se recompõe das sessões de quimioterapia, pede ao filho para o levar a Santa Apolónia e segue de comboio para ver os amigos em Braga. Perante o incentivo dos netos, esforça-se por se alimentar. E várias vezes fala em recuperar a Quinta de Jós, quando o filho reforça a prioridade de superar a doença. “Não, Rui, calma, calma”.

Nunca desistir – é o legado que deixa à família este homem que gostava de falar “sem rodriguinhos” e de usar gravatas das mais variadas cores, num estilo inconfundível que incomodou a filha até ao dia em que o pai lhe disse: “Criei este personagem, deixa-me vivê-lo”.

rui.antunes@sol.pt

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