Opiniao

O freelancer (parte II)

Continuando... Se o freelancer tem dificuldades em comprometer-se? Tem. 

O freelancer (parte II)

Só se é freelancer porque se está ainda a tentar fazer alguma coisa que não se fez, o que faz com que a assunção de um compromisso laboral seja encarada como um entrave à realização pessoal. Mas... quem é que andou por aí a vender essa banha da cobra que é a realização pessoal? Não estará sobreavaliado esse mito?! Sistematizando aquelas que podem ser consideradas as mitologias do nosso tempo, a realização pessoal, a magreza e a igualdade são as novas impossibilidades, e os freelancers, as top models e as minorias são as suas sumidades. 

Voltando à vaca fria... E se a oportunidade nunca chegar a acontecer? O que é do freelancer?
A teoria mune o trabalhador independente, que é assim que deve chamar-se, da ideia de autonomia relativamente ao seu posicionamento no mercado. É aquilo a que popularmente se chama psicologia inversa, neste caso aplicada ao campo laboral. 

Mas nem tudo na vida do trabalhador independente são desvantagens. E é por isso que há relatos de trabalhadores independentes de sucesso noutros países, que são cidades na verdade, género Nova Iorque ou Londres ou Paris ou Berlim. 

Já alguém pensou que talvez Portugal não seja o país indicado para se ser trabalhador independente, para se gerir uma carteira de clientes sozinho e sem regras base? Se o ‘coitadinhismo’ português é um conceito que se aplica a sangue frio a tanta coisa, porque é que não há-de aplicar-se a este universo do mercado livre? Talvez a mania que o português tem de se vitimizar e de nunca estar satisfeito, feliz, contente ou bem-disposto seja a chave do insucesso das profissões liberais neste rectângulo desertificado ao fundo da Europa.

O fado maior que o Homem, a mão pesada e sapuda do destino que já está traçado, a inevitabilidade do fatalismo... Todas estas coisas parecem ser os degraus de sentido único para um cadafalso inevitável, os passos na estrada da decepção e da dúvida, do terror e da pena. A incapacidade de se criarem condições para a felicidade, quando alargada à prática da vida quotidiana, parece uma receita do chef Silva (que saem sempre bem!) para um desastre puro, simples e muito fácil de confeccionar. Num país onde até no futebol se treina a dor, não há volta a dar. A felicidade não está a prazo, a felicidade passou do prazo por alturas do esgotamento do ouro do Brasil. 

Antes de mais, para se ser independente, seja no que for, é preciso ter-se estômago para se poder aguentar o dia do caviar entre os tantos dias a pão e água. E também é preciso ser-se muito criativo, para se inventarem coisas para fazer sem orçamento algum nos vinte dias do mês em que não se trabalha para ganhar dinheiro. Porque para um trabalhador independente, o trabalho tem a mesma cadência da menstruação.

O sucesso da independência é uma questão de educação: se quando queremos sair de casa dos pais e ser ‘independentes’ a coisa às vezes corre mal; o mesmo se aplica à lógica laboral: a coisa às vezes corre mal. Nem sempre é fácil oscilar entre a glória e a miséria, é verdade. Mas é preciso encarar tudo isto como um processo ficcional de oferta e procura de sorrisos ocos e da teoria dos três ‘bês’ – bom, bonito e barato. Aplicada a tudo, esta é a chave do sucesso. Só que em Portugal somos muito sérios e muito honrados e muito nobres e essas características não são, de todo, as melhores para o sucesso de um trabalhador independente na selva que é o mercado. 

Reconhecer a incapacidade da independência também é um sinal de grandeza (psicologia inversa), faz de conta.
No Dinheiro Vivo há um artigo assinado por Susana Silva, onde se fala das características do empregado ideal que qualquer empresa contrataria numa fracção de segundos. Esse empregado sabe fazer de tudo e será mais valorizado e tido em conta se fizer o pino enquanto toca flauta com uma espada enfiada garganta abaixo, porque entre tantas outras características também é faquir. 

Depois de ler esse artigo perguntei-me várias coisas, uma delas é se as entidades empregadoras que afirmam estas coisas à boca cheia estão à procura de alguém para o lugar de abridor/a de e-mails, porque tanto quanto sei, em 98% das empresas para as quais se enviam CV por mail, nunca se obtém uma resposta. 

joanabarrios.com 

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