Sociedade

35 anos da morte de Ferreira Torres

O empresário Joaquim Ferreira Torres, que foi assassinado a tiro, faz hoje 35 anos, é tal como o homicídio do Padre Max, um dos crimes sem castigo que se seguiram aos conturbados anos do “Verão Quente” de 1975.

O lugar de Barro Branco, em Paredes, onde foi assassinado Joaquim Ferreira Torres
Joaquim Ferreira Torres dirigia-se para a sua fábrica, a “Silma”, em Famalicão
A Igreja das Antas, no Porto, cuja missa fúnebre foi presidida pelo Cónego Melo

Ao longo dos anos, o Ministério Público nunca elaborou uma única acusação, apesar de já em cima da prescrição do crime, em 1994, ter realizado algumas diligências de última hora, interrogando suspeitos e testemunhas, alguns referenciados ainda pelas mortes de Camarate, em 4 de Dezembro de 1980, em que faleceram o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro e o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, entre outras vítimas.

O empresário foi assassinado numa emboscada tipicamente paramilitar, com vários tiros na cabeça, na manhã de 21 de Agosto de 1979, no lugar do Barro Branco, em Paredes, a seguir à sua absolvição no caso da chamada “Rede Bombista”, a organização conotada com a extrema-direita, à qual era atribuída autoria de atentados com motivação política, alguns de consequências mortais.

Ao saber que o julgamento seria repetido, o empresário nortenho fez saber publicamente que “abriria o livro”, denunciando assim aqueles que ao mais alto nível apoiariam a organização terrorista acusada de atacar sedes dos partidos políticos de esquerda e ainda personalidades conotadas com o Partido Comunista Português.

O industrial, natural de Amarante, era apontado como um dos financiadores do MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal) e do ELP (Exército de Libertação de Portugal), mas tais suspeitas não se confirmaram no único julgamento, que teve lugar no Tribunal de Cascais.

Joaquim Ferreira Torres, presidente da Câmara Municipal de Murça, no distrito de Vila Real, desde a fase da “Primavera Marcelista”, foi o último autarca a abandonar o cargo a seguir ao 25 de Abril de 1974, devido ao apoio que continuava a desfrutar em grande parte do povo transmontano.

“Traído” pelo 25 de Novembro de 1975

Joaquim Ferreira Torres considerava-se “traído” pelo golpe do 25 de Novembro de 1975 que acabou com os extremismos direita-esquerda do “Verão Quente” desse mesmo ano, porque ao contrário do que alguns lhe haviam prometido, foi concedida independência a Angola e o Partido Comunista Português (PCP) afinal não fora ilegalizado. Nos meses de brasa de Julho e de Agosto de 1975, aquele empresário nortenho era um financiador do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), liderado por António de Spínola e tendo como responsável operacional o comandante Alpoim Calvão. Ainda era associado à “Rede Bombista”, acusada de ter colocado bombas em instalações dos partidos políticos de esquerda, em especial o PCP, na Região Norte, além de atentados à bomba que até causaram vítimas mortais, como aconteceu com a morte da esposa de um activista de esquerda ocorrida na freguesia de São Martinho do Campo, em Santo Tirso.

Tendo fugido para Espanha, Joaquim Ferreira Torres fora julgado à revelia e absolvido em 6 de Julho de 1978. Por isso mesmo, o industrial mostrava-se indignado com a iminência da repetição do julgamento, no ano seguinte, já em 1979, em que seria morto.

Joaquim Ferreira Torres terá garantido a várias pessoas, poucos dias antes de ter sido assassinado numa emboscada do tipo militar, no lugar do Barro Branco, em Paredes, que iria “abrir o livro” e revelar todos os nomes e as cumplicidades de políticos não só na “Rede Bombista”, como na organização de que seria dos principais financiadores, o Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP). O princípio do fim teria sido esse, embora as teses de crime político se confundissem com as de negócios de diamantes. Mas nem uma nem a outra hipótese tiveram qualquer comprovação judicial.

Caso Padre Max

No caso do Padre Max, assassinado à bomba em Cumieira, Santa Marta de Penaguião, a 2 de Abril de 1976, data da promulgação da Constituição da República Portuguesa, teve lugar um julgamento, em Vila Real, mas todos os arguidos seriam absolvidos. O cónego Eduardo de Melo Peixoto, entretanto falecido, chegaria a ser referenciado várias vezes, mas nunca foi pronunciado para julgamento, desde logo por falta de indícios suficientes.