LifeStyle

Porto sentido

Foi-se o Verão e chegou o Outono. Mas só no calendário. Na verdade, pouco mudou nas ruas. O calor mantém-se. As folhas ainda se pavoneiam nos ramos das árvores. Continuam espevitadas até se tornarem bailarinas dos ventos da estação. As aulas começaram entretanto e os putos da Ribeira do Porto já não estão aos pinotes nas águas do rio, como é habitual nos dias mais quentes.

Caminho do outro lado do Douro, em Gaia, ao longo das margens do rio. Estou ao pé de esqueletos de rabelos em construção. Os carpinteiros empoleiram-se sobre os madeiros de pinho que de tronco passaram a barco. É uma arte que está à vista de todos. Passo depois por um maralhal de esplanadas e turistas que procuram os mesmos minutos de contemplação que eu. Por aqui podemos tomar um cálice de vinho e comer algo, com o Porto a servir de cenário.

O vinho do Porto, um dos néctares mais apreciados em todo o mundo, sai das vinhas que enquadram as margens do Alto Douro, por ali acima. Embalados pela corrente, os barcos rabelos carregaram durante séculos o precioso vinho, desde a zona de produção até ao entreposto exportador, no Porto e Gaia. Para baixo demoravam três dias. Para subir o rio, levavam no mínimo uma semana. Se para baixo todos os santos ajudam, o regresso contra a corrente do Douro nem sempre se revelava uva doce. Quando a corrente era mais forte que a vontade dos homens, as juntas de bois puxavam com cordas. Chegou a haver cerca de 2.500 rabelos nos séculos XVIII e XIX. Depois o número começou a cair e em meados dos anos 60 do século passado já estavam a desaparecer. O comboio e os camiões tornaram-se os meios de transporte principais. Actualmente, os rabelos servem apenas para nos recordar um tempo que já não existe. Ainda há 24 a navegar com fins turísticos.

Não fico aqui muito tempo. Atravesso a ponte Luís I a pé. Ela é como um cordão umbilical que une as cidades que são como irmãs.

Quando avisto o Porto à distância e nas alturas, tenho uma sensação de domínio. Mas não passa de ilusão: esta cidade é invicta. Vou por este granito fora com a sombra dos prédios a cair sobre mim. O carácter da cidade deve ser sentido dentro dela e o meu lugar é nas suas entranhas, onde me torno mais pequeno e percebo assim a escala correcta.

Sinto-me como uma águia que procura alimento para a suas crias. Devia ter escolhido outro animal. O clube de futebol principal da cidade, o Futebol Clube do Porto, tem como símbolo o dragão. É sob o signo do dragão que chego à Casa Ferreira. Situada perto da Praça da República, serve almoços e jantares que nos tiram a barriga de misérias. Doses bem confeccionadas e servidas com calor. Mas não tão quentes como o Bafo do Dragão, uma aguardente que se apura numa garrafa que tem um lagarto no interior. É única. Só se bebe aqui na rua do Almada. Pego no pequeno copo a transbordar deste bafo e meto-o pela goela abaixo. Por momentos, penso que até o esmalte dos dentes vai à vida. Tudo acontece em rápidos segundos, até que o ardor passe a amor. Trata-se de uma aguardente espirituosa, indicada para gente de barba rija. Não quer dizer que as mulheres não a possam beber, mas têm de gostar de bebidas com bafo forte como este.

Agradam-me as peças de arte que a qualquer momento podem surgir nas ruas do Porto. Foram muitos os artistas que aqui nasceram e desenvolveram a sua obra. Antes da minha vinda estive a rever o documentário O Pintor e a Cidade de Manoel de Oliveira, inspirado nas aguarelas de António Cruz. Uma notável viagem no tempo que nos permite ver uma cidade diferente da actual, mas cuja essência se mantém.

O turismo cultural no Porto é notável. Por causa de arquitectos como Siza Vieira e Souto Mouta, são muitos os que vêm para cá estudar. Outros querem sentir o ambiente da cidade que inspirou estes artistas. Não que tropecemos a qualquer momento em obras deles, mas por ser provável cruzarmo-nos com pormenores deliciosos de outras artes. Por exemplo, o painel de azulejos de Júlio Resende na cafetaria Sical ou as telas de grande formato de Graça Morais no café e restaurante Guarany.

É daqui que arranco para Leça da Palmeira. Quero encerrar o dia em grande. Sigo na minha Macal à beira do Douro, até perder a vista no oceano. Vou em terceira, lentamente, a apreciar a Foz. Ainda estou no Porto, mas numa zona apalaçada com areia para os veraneantes se banharem. Pretendo rever a Casa de Chá da Boa Nova (1958-63) da autoria de Siza Vieira. Esteve ao abandono e agora foi recuperada. É um restaurante dotado de uma cozinha moderna que nos propõe pratos inovadores e ousados, com a assinatura do chefe Rui Paula. Espero que receba a tão desejada estrela Michelin.

Um dos livros que trago na mochila é História de La Vida del Buscón, do grande escritor espanhol Francisco de Quevedo. Esta novela picaresca publicada pela primeira vez em 1626 conta que Don Pablos, o Buscón (ou Buscão), espalhava migalhas no peito, para depois as sacudir enquanto caminhava pelas ruas. Todos julgavam por isso que tinha uma vida farta. Mal sabiam que se afadigava a apanhar as ditas migalhas do chão, para se fazer passar por abastado.

Imagino que se ele alguma vez tivesse conhecido este restaurante faria algo parecido. Face ao preço das iguarias, talvez usufruísse apenas da belíssima paisagem que se tem nesta casa encaixada entre as rochas.

Para já, não consigo entrar. São quatro da tarde e as portas estão encerradas neste período de intervalo entre os almoços e os jantares.

Fico-me pelo pôr-do-sol que repousa sobre o mar e deparo-me com um poema de António Nobre gravado nas rochas: “Na praia lá da Boa Nova, um dia/ Edifiquei (foi esse o grande mal) / Alto Castelo, o que é a fantasia, / Todo de lápis-lazzuli e coral!” (Só, 1887).

Finalmente, as portas do restaurante abriram. Chegou a hora de jantar. No interior, as paredes de madeira transmitem uma sensação de conforto. Sento-me numa cadeira revestida a cabedal e repouso as pontas dos dedos sobre a toalha imaculada. Estou pronto para viajar. Desta vez a partir dos prazeres de boca e do coração. Mas estar aqui é mais do que ter uma experiência gastronómica: é desfrutar de um momento que se estende para lá destes janelões. Vou levá-lo comigo até ao próximo destino. Lá estarei para vos contar tudo.