Vida

Um pouco mais de azul

O título é roubado de um verso de Mário de Sá-Carneiro, que dá nome à tradução portuguesa de uma obra do astrofísico canadiano Hubert Reeves. Nele, Reeves conta a História do Universo, condensando-a numas centenas de páginas. Para os investigadores da Universidade de Aveiro (UA) Sérgio Pereira, Rosário Correia e Teresa Monteiro, o caminho era outro em direcção ao azul - não se pretendia algo tão ambicioso como explicar a origem do cosmos, mas, simplesmente, como se chegava a este espectro de cor para conseguirmos obter a luz branca e criar novos sistemas de iluminação.

Dizer 'simplesmente' neste ponto peca por defeito. Não era assim tão simples, e a prova é que a Academia Sueca de Ciências resolveu este ano dar o Nobel da Física a três investigadores japoneses que partilham a área de investigação do trio aveirense: Isamu Akasaki, Hiroshi Amano, e Shuji Nakamura. Mais do que uma partilha, estabeleceu-se entre os portugueses e dois dos nipónicos uma colaboração, especialmente no capítulo da caracterização óptica e estrutural de semicondutores para o desenvolvimento do LED azul, essencial para esta tecnologia recente. A 'aliança' luso-japonesa traduziu-se na autoria de um artigo científico e de um capítulo do livro em conjunto com Akasaki e Amano, além de uma citação por parte dos três laureados noutro artigo conjunto, publicado na revista Nature Materials. 

Na verdade, a demanda era a mesma em qualquer dos casos: chegar ao LED azul, uma espécie de Graal que se procurava desde os anos 60. Porquê? Porque, embora tendo já a tecnologia necessária para se chegar ao vermelho e ao verde, sem o azul não se chega ao branco, o espectro 'amigo' da visão humana. 

Só a partir daí se poderia começar a comercializar as tais 'lâmpadas poupadinhas' que hoje se vulgarizaram. “A questão da importância do LED azul relaciona-se com o facto de ser a cor primária do sistema RGB (da língua Inglesa: Red-Green-Blue) que faltava”, explica Sérgio Pereira, do Departamento de Física (DF) e investigador do CICECO (Centro de Investigação em Materiais Cerâmicos e Compósitos), da UA, num conjunto de respostas repartidas pelos três investigadores, e enviadas por email. “A mistura das três cores primárias de emissão permite ao olho humano percepcionar todas as cores, nomeadamente o branco. Tal como acontece num monitor ou televisão onde apenas temos pixéis com estas três cores primárias de emissão. Ou seja, o azul era o 'ingrediente' que faltava”. 

A partir daí, os dados estavam lançados. O LED 'bate aos pontos' as lâmpadas de incandescência tradicionais, logo a partir do processo de obtenção da luz visível, pois essa emissão, neste caso, “faz-se por aquecimento de um filamento metálico. Por este processo é necessário converter uma enorme quantidade de energia eléctrica em radiação electromagnética, e desta apenas cerca de 10 % corresponde a radiação na região espectral do visível, sendo a maior parcela de emissão no infravermelho a qual se transfere para o meio como calor”, esclarece Rosário Correia, também do DF da UA, e investigadora do pólo de Aveiro do i3N (Instituto de Nanoestruturas, Nanomodelação e Nanofabricação). Explicando de uma forma muito resumida, num LED, o fenómeno em causa é a conversão de energia eléctrica directamente em luz através da emissão de fotões num material semicondutor. 
Mas as potencialidades tecnológicas não se esgotam no LED azul. Passou a ser possível, por exemplo, “produzir LED com emissão ultravioleta (muito relevantes para a purificação de água) ou díodos laser no azul, que estão na base da tecnologia Blue-Ray”, só para dar alguns exemplos, diz Teresa Monteiro, do DF da UA e do i3N. 

O futuro já se escreve em tons de azul, no presente, e há, com esta nova tecnologia, um 'cheirinho' a Nobel para os lados de Aveiro. Aliás, os investigadores portugueses sabiam quem eram os galardoados ainda antes de saber os nomes, logo que se ouviu, num anúncio prévio, que o Nobel ia para o LED azul… 

ricardo.nabais@sol.pt