Vida

O Calígula das medalhas

A notícia já é conhecida. Mas, para quem não leu, viu ou ouviu, as crónicas rezaram assim: desgostoso da sua situação de desempregado à beira dos 80 anos, James Watson, um dos premiados com o Nobel da Medicina de 1962, decidiu vender a medalha correspondente ao prémio. O objecto foi vendido acima dos três milhões de dólares (cerca de 2,5 milhões de euros) e a identidade do comprador foi revelada. Tratava-se de Alisher Usmanov, o homem mais rico da Rússia, conhecido, entre outros negócios mais ou menos claros, por ser accionista do Arsenal FC, um dos colossos do futebol britânico.

O sumo da história, porém, viria logo a seguir. Usmanov devolveu a medalha a Watson, num gesto de raro altruísmo de um milionário deste calibre. “É inaceitável que um cientista extraordinário tenha de vender uma medalha em reconhecimento das suas descobertas”, disse ao Guardian. O gesto beneficente ficaria completo com uma condição - Watson devia usar o dinheiro em prol de todas as instituições por onde passou, entre Cambridge, Chicago e a Universidade de Indiana.

O russo comoveu-se com a história de Watson, cuja descrição, em conjunto com o britânico Francis Crick, pioneira nos anos 50, da estrutura do ADN abriu novas portas à biologia e escancarou outras à medicina. Se hoje temos a sequenciação do genoma, por exemplo, devemo-la àquela descoberta, considerada por muitos como um marco equivalente ao da teoria da evolução de Darwin.

Watson, porém, tem muitos contras no seu trajecto. Afinal, na mesma entrevista, que concedeu ao Financial Times em Novembro, a queixar-se de que iria vender a medalha por se ter tornado uma “não pessoa” e ser desconsiderado por todos, devia-se a um estado de pobreza que o limitava na intenção de… comprar um quadro de Hockney.

Mas por que estava assim um dos pais da dupla hélice do ADN? É simples. O caso remonta a 2007, quando o insigne cientista disse ao britânico Sunday Times que lamentava o fado de África. “As políticas sociais dirigidas a África baseiam-se no pressuposto de que a inteligência deles é igual à nossa, mas as provas dizem o contrário”. Podia ser uma mera tirada racista, mas a comunidade científica sofreu um choque superlativo, justamente pela frase ter vindo de um cientista.

Imagem da dupla hélice

Veredicto: James Watson foi director do laboratório de Cold Spring Harbor, em Long Island (EUA) durante quatro décadas, transformou a instituição que estava à beira da falência num centro de investigação de referência mundial, e foi dispensado por estas declarações. Não é que esta faceta do cientista, que há muito observava diferenças entre etnias e entre homens e mulheres e as afirmasse nos seus livros e em declarações públicas, fosse uma novidade. Mas o carácter definitivo com que as pronunciou nos media gerou um brado ensurdecedor para a direcção do laboratório.

O caso não era para menos: como é que o cientista que ajudou, com a teoria da dupla hélice do ADN e dos avanços correspondentes a esta descoberta, a desfazer cientificamente os discursos que sustentavam o racismo, poderia proferir frases como estas? E que 'provas' tinha consultado que as sustentassem? O geneticista britânico Adam Rutherford, que durante anos foi editor da revista Nature, compara Watson a Francis Galton (1822-1911), britânico a quem se atribui as bases teóricas para a fundação da genética humana. Galton usou esse saber, diz Rutherford, para demonstrar a supremacia britânica sobre os outros povos, em particular os do seu império. “A ironia maior”, escreve Rutherford, “é que a genética - o campo que ele fundou e que Watson transformou - é precisamente a disciplina que demonstrou que a ideia de raça como conceito científico não tem fundamento”.

Pouco tempo depois do incidente, Watson admitiria, na imprensa norte-americana, que estava errado. Pediu desculpas e assumiu que “não há base científica para tal convicção”.

Outros, porém, recordam que o cientista já tinha coleccionado polémicas nos livros. Alguns notam que nem Crick escapou à dimensão do seu ego. Houve sempre alguma rivalidade com o seu parceiro de Nobel e de investigação, vários anos mais velho do que ele - o britânico morreu em 2004 - e que o trataria como um “irmão mais novo”.

Nesse livro, The Double Helix ('a dupla hélice'), em que descreve como alcançou o seu feito científico 'nobelizável', diminui o papel de antecessores como a britânica Rosalind Franklin e a sua técnica de raios x, fundamentais para que ele e Crick fossem os primeiros a chegar à descoberta. “Ele trata-a por 'Rosy' (uma alcunha que ela não usava), critica a sua maneira de vestir e a maquilhagem e caracteriza-a incorrectamente como uma assistente de um outro cientista”, nota Laura Helmuth, editora de ciência da revista Slate. Franklin acabou por ter uma morte precoce, o que a retirou da lista dos candidatos a Nobel quando chegou a altura da dupla hélice.

As mulheres, em geral, eram um alvo. Watson não lhes reconhecia capacidades intelectuais semelhantes aos congéneres masculinos, e terá presenteado algumas alunas com clichés surpreendentes para um cientista, nas suas aulas. Numa delas, terá dito que a exposição ao sol aumenta a libido, razão pela qual as alunas teriam gosto particular por 'amantes latinos'.

Enquanto professor em Harvard, continua Helmuth, Watson era “insultuoso e arrogante, mesmo para a escala de um professor de Harvard”. Um dos colegas na prestigiada instituição norte-americana, E. O. Wilson cunhou-lhe o cognome de “o Calígula da biologia” devido ao desprezo que votava a todos os colegas de área que não se dedicassem à biologia molecular.

Mas este Calígula foi um imperador, de facto. O êxito académico continuou muito para além do Nobel e houve quem se surpreendesse com outra aptidão, além do amor pelo laboratório. Watson seria um perito na angariação de fundos para a investigação no instituto que presidiu de 1968 a 2003. Em Cold Spring Harbor, contudo, ele continua a ser professor emérito, apesar de destituído do lugar de director.

Em 1990 deu início ao projecto do genoma humano, o tal que, em 2003, chegaria à conclusão histórica. Ele próprio dispôs-se a que lhe sequenciassem o genoma em 2007, tendo sido um dos primeiros a fazê-lo individualmente (o genoma humano sequenciado em 2003 juntava elementos de vários candidatos e não de um só indivíduo). A opção, dizia, foi tomada em prol da ciência, ignorando os perigos que a revelação de dados genéticos lhe poderia trazer (como saber-se da predisposição dele para algumas doenças, por exemplo).

Watson gosta de se ver sempre na linha da frente, e isso às vezes tem custos ou 'danos colaterais' perante os outros. “Se eu tivesse sido totalmente agradável, de acordo com os padrões dos outros, não me parece que tivesse sido tão bom” para a ciência, escreveu.

ricardo.nabais@sol.pt