Vida

Vamos aquecer o asfalto

Conduzir na neve ou no gelo pode ser tão pitoresco quanto perigoso. Para evitar despistes, gastos avultados e agressão ao ambiente, três alunos da Escola Profissional de Rio Maior desenvolveram um método de ‘aquecer a estrada’ a que chamaram, a preceito, Hot Road. O protótipo é promissor para outros mercados.

A ideia é libertarmo-nos de correntes, no sentido literal. O projecto é um grito do Ipiranga para condutores sujeitos àquelas estradas que sazonalmente ganham um poético branco imaculado, e um imenso perigo de despiste na mesma proporção da poesia da paisagem. Conduzir na neve, para quem sabe, exige cuidados redobrados e umas correntes nos pneus, para evitar o deslize natural. E ainda alguns pesados limpa-neves, que arrastam este produto de Invernos mais rigorosos para as bermas, libertando o caminho para os veículos.

Os problemas são muitos, a começar pela imprevisibilidade do tempo e da intensidade dos nevões. Por isso, a ideia de Ana Raquel Sénica, Rafaela Silva e Hugo Luís, mais um grupo de alunos da Escola Profissional de Rio Maior – que consegue ser ‘cliente habitual’ de feiras de ciência nacionais e internacionais –, pode ser tão simples quanto eficaz. E se, em vez de usarmos correntes, que constrangem a condução, e limpa-neves, aquecêssemos o asfalto à medida da passagem dos automóveis? O processo, que designaram Hot Road (‘estrada quente’) aproveita uma técnica já conhecida há alguns anos, a geotermia – que consiste, explicando de uma maneira muito simples, em obter energia a partir do calor proveniente do interior da Terra, normalmente através de furos – e adapta-a a um conjunto de sensores que determinam a temperatura do local onde se está a passar.

No fundo, explica Rafaela Silva, «recorremos à geotermia para fazer o alcatrão aquecer», e o protagonista da tecnologia é o tal sensor que se referiu atrás. «Quando a temperatura chega aos 5ºC, o sensor acciona o circuito» e começa o aquecimento. Além disso, um outro grupo de sensores acciona um sistema de luzes quando há pouca visibilidade.

O projecto já foi alvo de distinções nacionais, nomeadamente pela Fundação da Juventude, através do concurso Jovens Cientistas, onde arrecadou o prémio especial Energia, no valor de 1.000 euros. Também foi apoiado pela Fundação Ilídio Pinho, com 500€euros para desenvolvimento.

O sistema foi concebido tendo em conta a amizade ao ambiente, garantem os seus criadores. «É auto-sustentável e não tem impacto ecológico», sentencia Rafaela. E pode ser estendido a outras áreas, sempre com a geotermia como ‘motor’ principal. A iluminação pública chegou a ser ponderada pelo grupo de professores que coordenou este – e outros, já aqui retratados – projecto da escola. Os testes do Hot Road fizeram-se num percurso nacional, entre a Covilhã e Tomar, mas o sistema é ainda um protótipo em desenvolvimento. «Este projecto começou há dois anos», explica a professora Anabela Figueiredo. «Vamos sempre evoluindo, ainda não sabemos quanto custa, porque isso implica o estudo da área onde o vamos aplicar».

Quanto a mercados, o assunto acaba por ser óbvio. Portugal tem nevões no interior, mas os clientes potenciais poderão situar-se no Norte e no Leste da Europa.

ricardo.nabais@sol.pt