Opiniao

Os próximos cinco anos

2015

Chegámos à altura do ano em que é preciso prever o que aí vem. Antes de prever de novo os cinco anos que nos esperam, permitam-me que me vanglorie por ter acertado em cheio na previsão de que a troika sairia de Portugal na data prevista, sem haver necessidade de programa cautelar ou segundo resgate. Aprendam, comentadores! Mas vamos então dar início aos trabalhos. O ano começa com um incidente peculiar na Madeira. Numa tempestade breve, um raio atingiu a estátua de Cristiano Ronaldo, partindo-a em pedaços. Os autóctones falam de uma visão no céu. Um dedo anafado a apontar para o local e uma voz possante irromperam das nuvens: “As homenagens são feitas depois da morte para ninguém ser um ídolo em vida. Se falam mal de ti em vida e bem de ti na morte, isso não é hipocrisia: é natural e bem-vindo; é sinal de que és humano”. Apesar desta lição, consta que a zona dos genitais permaneceu intacta, dando força à interpretação de que o divino é justo.

2016

Nas legislativas do ano passado, o PS ganhou mas não obteve a maioria. A falta de consenso entre os partidos, a falta de vontade política para estabelecer compromissos, apesar dos apelos do ainda Presidente Cavaco Silva, obriga a nova ronda de eleições. O país está numa festa constante, com campanhas para legislativas que coincidem com as presidenciais. A grande surpresa está na desistência à última hora de Marcelo Rebelo de Sousa, que troca Belém pelo comentário diário em horário nobre na TVI, alegando que tem mais influência desta maneira. O ano assiste com choque e espanto e alguma compaixão a uma candidatura presidencial de Marinho Pinto, que sofreu uma pesada derrota nas legislativas de 2015. Ninguém sabia a que partido pertencia e os seus eleitores acabaram a votar no Livre. Nas eleições presidenciais, António Guterres e o candidato da direita ainda não confirmado foram à segunda volta e ficaram empatados. Está tudo em aberto para 2017.

2017

O Papa Francisco continua a surpreender o mundo cristão e não crente. O Papa faz uma homilia em que acusa as companhias telefónicas italianas de agirem contra o consumidor por causa de uma conta de telefone com mais de seis dígitos recebida no Vaticano. O rabino argentino, Abraham Skorka, amigo de longa data do Papa, enviou uma mensagem de apoio em que dizia: “Eu bem te disse que era melhor usar o Skype!”. O Dalai Lama, aproveitando a onda de protesto, reclamou por escrito contra os abusos cometidos pelas companhias aéreas, alegando que não tem idade para viajar em low cost. Stephen Hawking, além de reafirmar que Deus não existe, disse que não percebia qual era o problema e aproveitou mais uma vez para elogiar o desempenho do actor Eddie Redmayne no filme A Teoria de Tudo, pelo qual aliás, recordemos, arrecadou o Óscar em 2015, sob os protestos de actores como Daniel Day Lewis que afirmou que foi “muito mais difícil dar vida ao pé esquerdo”.

2018

Malala Yousafzai está rendida aos tablets desde que vive na Califórnia. A sua passagem pela universidade de Stanford está a ser brilhante e a Nobel da Paz foi convidada a dar uma cadeira que se intitula Malala. O partido UKIP obteve a maioria na Câmara dos Comuns e a primeira proposta de lei apresentada penaliza os cidadãos que falarem inglês com sotaque. A única excepção feita é para galeses e escoceses, sob a condição de falarem assim só dentro de casa e com os familiares próximos. Marine Le Pen condena a posição que considera demasiado liberal. Lá por os japoneses falarem bem francês isso não significa que deixem de ser japoneses. A Alemanha não comenta. Os preços disparam nas escolas de línguas em Inglaterra. Espanhóis e italianos estão em pânico. Portugueses e russos dizem que não é nada com eles. Entretanto, na Rússia, Vladimir Putin declara em triunfo que após anos de combate pode afirmar que não há um único homossexual no Bolshoi.

2019

Em Portugal, os partidos continuam sem se entender. “É normal nos regimes democráticos discordar”, afirmam com unanimidade surpreendente os representantes dos diversos partidos políticos com assento na Assembleia da República. Há um boom literário no país. Sócrates escreve uma autobiografia intitulada Perseguido pela passado. Ricardo Salgado também escreve uma autobiografia intitulada A sério que eu não sabia de nada. Estão em primeiro nos tops de vendas. José Maria Ricciardi publicou o primeiro volume de 1.200 páginas da sua autobiografia sobre a época feliz da sua infância até aos 12 anos, quando brincava com os primos e era só rir, ao estilo de Karl Ove Knausgård. Há expectativas quanto ao segundo volume que ocupará o excitante período dos 12 aos 18. Por fim encontraram petróleo no Alentejo, mas “com o preço do barril a 10 dólares sai mais barato importar. Ah, se tivesse sido há 30 anos...”, afirma José Gomes Ferreira, ministro da Energia.