Opiniao

Ninguém sai daqui

Depois dos dois ataques em Copenhaga, Benjamin Netanyahu apelou aos judeus europeus para voltarem para Israel. Já em Paris tinha feito o mesmo convite, embora com mais solenidade. Acredito que haverá famílias judias na Europa que estão com medo. Não é para menos: estão nos primeiros lugares da lista de alvos dos terroristas. Mas com eles estamos todos. Ninguém no seu perfeito juízo pode achar que está a salvo. 

Porém, só entendo o apelo de Netanyahu como uma afirmação maternal, qualquer coisa do estilo, 'sabes que podes sempre voltar para casa', apesar de os filhos terem as suas vidas. Chama-se aliyah à imigração dos judeus da diáspora para Israel. É frequente e por vezes acontece em massa, como no século passado quando o Estado de Israel se formou logo após a guerra. Mas quem tem razão é o grão-rabino de Copenhaga: “Os ataques não nos surpreendem e aqueles que se decidiram pela aliyah já o fizeram há muito tempo”. Daqui ninguém se mexe.

Modelo real

Depois do frenesi com a operação plástica de Uma Thurman, que afinal era só uma questão de maquilhagem, a internet passou a falar com fervor sobre uma fotografia da ex-modelo Cindy Crawford, divulgada com intenções suspeitas e sem conhecimento da própria. A imagem mostra Crawford, de 47 anos, com a pele da barriga e das pernas demasiado envelhecida para a idade. Parece que estamos perante um Photoshop ao contrário. A reacção da maioria das pessoas foi, no entanto, positiva, como se fosse uma boa notícia que uma das mulheres mais marcantes da moda na década de 90 tivesse um aspecto de septuagenária. Para a vizinha, Crawford afinal é 'real', até um bocadinho parecida com ela, imagine-se o disparate. Não gosto dos elogios a uma fotografia que não a beneficia e que parece colocá-la no mesmo plano dos restantes mortais. Como se alguma vez quiséssemos ver a vizinha numa revista de moda. Lamento dizer, mas a ditadura da realidade é insuportável.

Se conduzir

Vale a pena ver no Huffington Post uma entrevista feita por um canal de televisão a um historiador da Arábia Saudita, Saleh al-Saadoon. O homem explica por que razão as mulheres não devem conduzir. Começa por dizer que os países em que podem conduzir não estão preocupados com a segurança das mulheres. Explica que, numa viagem, o carro pode avariar e a mulher ficar sozinha à mercê dos violadores. Durante a entrevista, uma jornalista não dissimula o espanto perante estas afirmações disparatadas e outras, como as mulheres na Arábia Saudita serem tratadas como rainhas. Têm sempre à disposição um irmão, um filho, um qualquer parente do sexo masculino para as transportar onde quiserem. O momento alto aconteceu quando o historiador decidiu resolver outro problema. E se os violadores fossem os parentes das mulheres que conduziam? A solução seria contratar mulheres estrangeiras para servirem de condutoras às sauditas. Parece que o clero não aceitou.

Deixai em paz

Por falar em operações plásticas, li um artigo sincero no The Daily Beast que pode não agradar aos que ficam aflitos sempre que aparece alguém com mudanças estéticas. Grace Gold exorta os que são demasiado atentos aos outros a não falarem tanto de operações plásticas. A razão é simples e de fácil compreensão: lá por não esticarmos o pescoço nem eliminarmos a gordura a mais na barriga, isso não significa que os outros não o queiram fazer. Cada um sabe de si. Depois de atacar os que andam a reparar muito no próximo, Grace Gold pede que se evite falar sobre operações plásticas sempre que aparece alguém operado à nossa frente. Sugiro que o gelo seja quebrado pela pessoa que fez a cirurgia: 'Lembras-te do meu pescoço de peru? Pois já não existe'. Ou então: 'Sabes que toda a minha vida saí ao pai, mas agora isso acabou!'. Se está a pensar fazer tratamentos estéticos, há um site chamado realself.com que pode ajudar a perceber qual é a melhor opção para si.

Narrativa traumática

Um grupo de linguistas americanos estudou a linguagem usada por clientes de restaurantes, em cerca de 900 mil críticas online de quase 6.500 restaurantes em várias cidades dos Estados Unidos, e descobriu coisas surpreendentes. Concluiu, por exemplo, que as palavras usadas numa má crítica (uma estrela) a um restaurante de preço médio se assemelham às empregues na descrição de um trauma. A vítima é o cliente que busca consolo na comunidade online. A história é contada no passado, com o uso insistente dos pronomes pessoal 'nós' e possessivo 'nosso'. Adjectivos como 'horrível', 'terrível', 'nojento' e 'grosseiro' são usados repetidamente. Os mesmo hábitos de descrição de experiências traumáticas foram analisados em sobreviventes do atentado de 11/9. Apesar de a qualidade da comida ser importante, é sobretudo o mau serviço que leva os clientes a escrever más críticas online. Ser maltratado quando se esperava poder jantar em paz é uma catástrofe.