Cultura

A mulher de ferro que trabalha o gesso

Pelo chão vêem-se espalhadas várias molduras em gesso. Em breve vão embarcar para um castelo em França. A encomenda - 18 peças no total - está a ser preparada desde 2013 e a autora pede-nos que tenhamos cuidado ao caminhar: «O gesso é frágil», avisa. Dedicou vários meses a este trabalho e não quer comprometê-lo na recta final.
 

Estamos no ateliê de Iva Viana, na freguesia da Meadela (Viana do Castelo).  Todo o processo está a cargo da artista: desde a escultura à produção do molde em silicone, terminando na execução da peça. Iva está no extremo oposto da matéria que trabalha: é uma mulher forte numa área que, por tradição, sempre foi de homens. Para aguentar a dureza física da tarefa não perde os seus treinos diários de remo. «Há duas coisas que me vejo a fazer aos 90 anos: trabalhar o gesso e remar. Não entendo isto como uma profissão, mas como um estilo de vida».

Licenciada em escultura pela Faculdade de Belas-Artes do Porto, o seu contacto com o gesso surgiu em 2007, um ano depois de acabar o curso, através de uma proposta de trabalho de uma empresa de gessos decorativos. «Estava sedenta por começar a trabalhar. Não sabia nada de nada. Atirei-me de cabeça. O máximo que podia acontecer era correr mal», confessa. «Na altura perguntaram-me quanto tempo demoraria a fazer um capitel coríntio. Eu tinha tão pouco conhecimento da matéria que respondi que o faria em três dias. Demorei cinco meses», recorda.

A sua passagem pela empresa permitiu-lhe despertar para a matéria e crescer tecnicamente no trabalho em gesso, aliando o saber-fazer aos conhecimentos adquiridos no Ensino Superior. Em 2013 despediu-se e lançou-se a solo. A selecção para o projecto 'POPs - Projectos Originais Portugueses', da Fundação de Serralves, fê-la perceber que se calhar havia ali mesmo qualquer coisa. «No início o meu trabalho estava muito fechado, tinha vergonha, mas quando alguém de fora o valida, ganha-se confiança».

Iva assume-se como uma continuadora da tradição vianense dos estuques e não se inibe de visitar ateliês de estucadores locais e pedir-lhes ajuda. Em troca, convida-os a conhecer o seu espaço. «No início não foi fácil, por ser rapariga e jovem. Mas depois de mostrar o meu trabalho tudo mudou. Um dos momentos mais bonitos vividos até agora, foi quando trouxe um desses estucadores [o senhor Guedes] ao meu ateliê. Foi emocionante ver a sua reacção». 

Com provas dadas, Iva Viana tenta resgatar uma arte que hoje é trabalhada por poucos. E tornou-se a fiel depositária de peças e moldes de pessoas que nem sequer conhece. «Vivi no Porto numa casa com tecto todo estucado. Entretanto o tecto veio abaixo e não há nenhum registo. Custa-me. Um dos trabalhos do meu ateliê é despertar também essa consciência para o património», conta à Tabu.

Além de França, a Austrália e o Brasil são os próximos destinos das suas peças. «Alguns contactos chegam pelo Facebook. Sem dúvida, trabalho mais para o estrangeiro». Os motivos parecem-lhe óbvios: «Procuram-me pela qualidade e porque os preços em Portugal são mais competitivos».

Mas o próximo desafio de Iva Viana aproxima-se mais da realização de um sonho. Vai trabalhar como assistente do artista inglês Geoffrey Preston, uma sumidade do trabalho em gesso. «Era algo que me parecia impossível, porque só acontece nos filmes, mas aconteceu». O contacto resultou da sua persistência e determinação: «Soube que ele tinha uma exposição em Inglaterra e que estaria na inauguração, comprei o bilhete de avião e fui. A assistente pôs-me em contacto com ele. E o mais curioso é que ele já tinha visto o meu trabalho do Four Seasons e até se tinha perguntado quem seria o autor».

Além de aceitar encomendas online, as suas peças estão em lojas por todo o país: Lisboa (Pura Cal), Viana do Castelo (Objectos Misturados), Porto (CRU e Loja de Serralves) e Guimarães (Centro de Artes e Ofícios Casa da Senhora Aninhas). Custam entre 20 e  600 euros. «Estou a negociar outros espaços, mas só até onde eu conseguir produzir sozinha. A ideia não é produzir em série», esclarece.

De seis em seis semanas abre o seu o ateliê ao público, no âmbito do projecto Inauguro, um percurso que inclui vários espaços da cidade de portas abertas com uma exposição. Uma oportunidade para conhecer esta mulher de ferro dedicada ao gesso.