Economia

Corrida aos comboios nos Estados Unidos

Não se trata de TGV ou outro tipo de comboios de passageiros, mas sim de carga pura e dura, em vagões compridos a serpentear pelos Estados Unidos. Segundo a Bloomberg, a procura é tanta que as empresas e os comboios não têm carruagens ou locomotivas para fazer face aos pedidos de transporte, situação que o Inverno ainda veio agravar. Warren Buffet, que tem uma das maiores empresas do sector, prepara-se para comprar 1.900 carruagens de carga.

No centro de todo este boom ferroviário está um sector em particular: os automóveis. A compra de carros disparou nos Estados Unidos no ano passado, com o crescimento económico e a descida dos preços de combustíveis a fazerem optar por mais carrinhas pick-up e SUV – 7,2 milhões ao longo de todo o ano, um crescimento de 11%. Este tipo de veículos, pelas suas grandes dimensões, são muitas vezes transportados por comboio.

Com a indústria automóvel americana a todo o gás, três marcas – Ford, Toyota e Honda – têm sido particularmente afectadas pela falta de comboios de carga, levando a ocuparem espaços inusitados para guardar carros antes de serem enviados. A Ford aproveitou uma pista de testes em Dearborn, no Michigan, para guardar pick-up F-150 prontas a vender. A Toyota, que evita gerar stock a mais nas suas fábricas, foi forçada a encher os parques de estacionamento, alugar outras instalações e agora já está a pavimentar para parque terrenos vazios em torno das unidades do Indiana e do Kentucky. Já a Honda, além de aumentar o estacionamento, subiu em 15% o uso de camiões para o transporte.

Segundo a empresa de transportes de mercadorias TTX, citada pela Bloomberg, a todo o momento há habitualmente cerca de 70 mil carros prontos a entrar nos comboios nos Estados Unidos. Nos últimos meses esse número subiu para 250 mil. O Inverno rigoroso que ainda se faz sentir no país também ajuda a explicar este fenómeno, que afectou outras cargas como petróleo, carvão ou cereais. Com a neve e o gelo a cobrir boa parte dos Estados Unidos, os comboios têm de seguir mais devagar, e com menos carga.

Buffet investe em carruagens

O multimilionário Warren Buffet é dono de uma das maiores empresas de transporte ferroviário, a BNSF, e prepara-se para investir este ano seis mil milhões de dólares em cerca de 1.900 carruagens de carga. Isso é o dobro do que a empresa habitualmente investe e 50% acima de qualquer uma das empresas concorrentes.

Os resultados da BNSF, com os atrasos devido ao mau tempo ou falta de material circulante, afectaram as contas do grupo Berkshire Hathaway no ano passado, mas o investimento a ser feito vai capitalizar-se nos próximos anos. É que a procura por automóveis deverá continuar, em linha com o aumento de produção dos mesmos nos Estados Unidos – há várias construtoras a investir em novas fábricas ou interessadas nisso.

As companhias ligadas aos caminhos de ferro vão introduzir 1.070 carruagens de dois níveis ainda este mês, avança a Bloomberg, e outras 550 de três níveis (apenas para automóveis mais pequenos). Ao todo, o sector deve acrescentar 4.000 carruagens este ano e 2.700 em 2016. Uma empresa, a CSX Corp., vai apostar até em carruagens mais versáteis, capazes de transportar três filas de automóveis mais pequenos, como sedans e hatchbacks, ou duas de SUV e pick-up.

Alumínio em alta

Também a cavalgar a onda da indústria automóvel está o sector do alumínio. Com exigências do ponto de vista ambiental e de eficiência cada vez maiores, as marcas de automóveis apostam no alumínio para baixar o peso dos seus veículos e aumentar a eficiência.

A procura deste material é de tal ordem que a Kobe, fornecedor japonês de metade do alumínio usado pela indústria automóvel americana, pondera instalar uma fábrica nos EUA. Segundo a Bloomberg, a Kobe deverá investir 800 milhões de dólares na unidade, 715 milhões de euros. Estima-se que a procura por alumínio nos EUA cresça de 150 mil toneladas no ano passado para 1,7 milhões de toneladas em 2024. No Japão, também um gigante da construção automóvel, a utilização de alumínio vai ‘apenas’ duplicar, atingindo 50 mil toneladas daqui a dez anos.

emanuel.costa@sol.pt