Opiniao

A lista

Há muita gente com gosto por listas com nomes. É um gosto que não reflecte nada de bom. Não por a lista ser restritiva, pois é a sua natureza, mas porque o ânimo que leva a fazê-la não ser o melhor. O que move alguém a coleccionar ódios de estimação é parecido com o que pode levar um Estado a fazer uma lista de pedófilos: uma mistura de medo e ânsia de controlo. Uma vez que se trata de uma lista com nomes de agressores sexuais condenados em tribunal, não vejo a sua necessidade. A menos que tenha tudo mudado e estas pessoas não fiquem com cadastro. Caso contrário, a mera existência desta lista no nosso país pequeno é um risco para o sossego da população. Imaginemos que uns pais demasiado atentos querem saber mais sobre o vizinho esquisito. Até que ponto é legítimo vasculhar a vida do homem por causa de uma desconfiança? E se o vizinho esquisito tiver mesmo sido condenado por crimes de pedofilia, estamos preparados para assistir a linchamentos?

Reaparecido

Putin desapareceu. Durante dez dias ninguém soube do seu paradeiro. Reapareceu como se nada fosse, mas estes dias de clandestinidade ninguém lhos tira. Pode ter estado doente, em negociações ultra-secretas, de férias. Os russos sempre gostaram do secretismo e ainda mais se são formados no KGB. Um Presidente de qualquer país normal também tem segredos. Os americanos, se vão de férias para Camp David, parecem estar a jogar golfe, parecem estar a descansar, fazem de conta que têm reuniões que só podem ter lugar fora do bulício de Washington. Se se apaixonam, sabemos disso muito depois. Mas com os russos não é assim. Tenho a impressão de que um russo que se preze tem de se distanciar da humanidade e por isso não pode ter uma vida normal. Uma pessoa normal não tem segredos e se os tem são tão previsíveis que não vale a pena guardá-los. Os homens com delírios de divindade são assim.

Ouvidos em sangue

O massacre auditivo aconteceu há dias quando a TVI anunciou o começo de uma nova novela. A Única Mulher é o titulo desta aventura televisiva que não verei, não por snobismo mas por ódio a novelas. Ainda assim, mesmo com a necessária e pacífica mudança de canal, não é possível escapar aos anúncios com a canção a acompanhar. É costume ser uma 'coisa' (nome técnico) que fica no ouvido, mas desta vez não fica como faz com que os pobres ouvidos de qualquer pessoa sensível fiquem em sangue. O tema cantado por Anselmo Ralph, além de apresentar as dificuldades de cantar uma frase como, “O que na raiva eu te digo/ Pois é ela a falar por mim” e de tentar uma rima insuportável em “Pois na verdade o que eu sintúúú é que túúú”, tem um refrão que desafia a própria, digamos, melodia. Falo de: “Tu pra mim és a únicamúúlher que me completa”. Não houve ninguém que percebesse o que isto dói? Será dos mesmos autores do verso clássico “tudo foi em vããão, ããão”?

Quem é o saudável?

Fazer uma biografia de alguém que nasceu na segunda metade do século XX pode ser um pesadelo por razões opostas às que dificultam a descrição de uma vida antiga. O limite das fontes no segundo caso não existe no primeiro. Suspeito por isso que o filão de biografias sobre Steve Jobs será longo. Notícias sobre Becoming Steve Jobs, uma nova biografia a publicar no fim deste mês, relatam um episódio em que Tim Cook, co-fundador da Apple e amigo próximo de Jobs, depois de uma visita em que ficou impressionado com o estado de Jobs, decidiu fazer análises para saber se poderia doar parte do fígado. Este acesso de altruísmo foi punido com três berros por Steve Jobs, que se recusou a ouvir argumentos que o fizessem mudar de ideias. Segundo Cook, o episódio mostra que Jobs não era o monstro de egoísmo que tem sido retratado. Até diria mais: revela que Tim Cook talvez não estivesse completamente bem e que Steve Jobs, mesmo às portas da morte, era saudável.

E agradeço a...

No domingo passado assisti ao programa História a História, na RTP 2. Foi uma excelente surpresa. O conceito parece estar baseado na escolha de um lugar determinado em que aconteceram factos extraordinários e repetidamente ao longo do tempo. O primeiro episódio foi sobre a Rua do Arsenal, que para mim se limitava a Salgueiro Maia, os tanques e um essencial acordo pacífico. Enfim, ignorante. A apresentação de Fernando Rosas é entusiasmante, sem palha nem distracções. A realização é sóbria e os documentos de arquivos são usados e processados com saber. As imagens aéreas captadas com o recurso a drones são uma festa de cor que fazem de Lisboa um local de encanto luminoso, mas que nem por isso apaziguaram a violência e o dramatismo do que aconteceu na Rua do Arsenal. Infelizmente, não encontrei uma ficha técnica no site da RTP para poder mencionar os nomes dos que merecem ser elogiados. Bravo à 'Produção Externa Nacional', sejas lá quem fores.