Opiniao

Goulart Nogueira - breve memória

Conheci Goulart Nogueira no Café Aviz, no Verão de 1961. Tinha vindo passar uns dias a Lisboa, nas férias grandes, e o Zarco Moniz Ferreira, que era o fundador e chefe do Jovem Portugal, apresentou-mo. A ele e ao António José de Brito. Na altura publicavam o Tempo Presente, uma revista nacionalista e modernista. O director era o Fernando Guedes e o secretário o Artur Anselmo. No Conselho de Redacção estavam, além do António José de Brito e do Goulart, o Caetano de Mello Beirão e o Amândio César. Tempo Presente representava uma direita fora do conservadorismo das 'direitas estado-novistas', tradicionais e direitinhas. O Goulart Nogueira escrevia com o nome e com vários pseudónimos e tinha uma secção polémica extraordinária: A Besta Esfolada. 
 

Nasceu em 1924, em Manaus (ou Belém do Pará?) e frequentou Direito e Letras em Lisboa; colaborara até aí na Mensagem, no Graal, na Távola Redonda. Publicara dois livros de poemas - Atlântida e Barco Vazio em Rio de Sombra.

O meu convívio intelectual e político regular com Goulart Nogueira viria mais tarde, no Agora, que lhe tinha ido parar às mãos incidentalmente, quando o José O'Neil se afastara da edição do jornal. 

Não foi fácil dar a volta ao jornal, que tinha uma faceta caceteira e atrabiliária. O Goulart era um tipo fora do baralho, capaz de escrever sozinho um jornal inteiro, desmultiplicando-se em pseudónimos. E nós acabávamos, em estado de necessidade, por fazer o mesmo.

Mas no Goulart, o talento igualava a desorganização: a vida boémia, noctívaga, de horas trocadas, muitos cigarros (todos nós), conversa sem limite. Depois, partilhava a edição do Agora com a encenação da Oficina de Teatro de Coimbra, onde estava toda a semana. Em 1969, já com Marcelo Caetano, deixámos o Agora que, entre a censura e as pressões do poder, deixara de fazer sentido. E o jornal acabou.

Em Setembro desse ano, com o apoio de Arnaldo Miranda Barbosa, começámos a Política. Tivemos como colaboradores, entre outros, o Goulart Nogueira e o Manuel Múrias, que tinha sido meu chefe na RTP e que depois foi posto na prateleira pelo marcelismo. Foi uma época politicamente desastrosa mas rica de experiências e de grandes amizades.

O Goulart Nogueira esteve sempre ali, activo, criativo, com um talento literário e polémico únicos, com os artigos numa caligrafia elegante, superlegível, quase sem emendas. Era um homem de convicções firmes, que mantinha apesar da vida difícil que levava. Mas nunca as pressões da realidade o fizeram mudar de ideias ou pô-las no bolso. Como dizia, era independente, porque não sendo rico «tinha a capacidade de ser pobre». 

Depois do 25 de Abril foi um dos presos políticos da democracia, no 28 de Setembro. Ficou na prisão até depois do 25 de Novembro. 

Soube agora que morreu no passado dia 14, mas há muito que estava doente e fora deste mundo. Deus o receba no outro.