Sociedade

Artur Agostinho ao SOL: A morte do neto foi 'um golpe muito violento'

Entrevista dada ao SOL em Novembro de 2010, perto de completar 90 anos.

Em 1974, com o 25 de Abril, as coisas não lhe correram bem…

Não, não correram. Quando aconteceu o 25 de Abril, eu era director do Record e lembro-me que o Conselho de Redacção reuniu e recebi duas moções de confiança. Mas, depois, alguns oportunistas aproveitaram o 28 de Setembro para fingir que eu estava metido numa conspiração e deitar-me abaixo. Interessava-lhes ocupar o meu lugar.

Havia algo em que pudessem pegar?

Nada. A única coisa em que podiam pegar era o facto de eu, como repórter, ter sido muitas vezes chamado para fazer determinados trabalhos com as pessoas do regime. Mas isso eles também faziam. Todos nós que estávamos na televisão ou numa rádio fazíamos esses serviços de agenda.

Como foi preso?

A 28 de Setembro, na cama. Tinha vindo do Campeonato do Mundo na Alemanha e estava de férias. Estava tranquilamente a dormir com a família e foram lá buscar-me. Foi o COPCON.

Foram violentos?

Não, mas foram estúpidos e idiotas. Levaram-me para o Ralis de uma maneira rocambolesca, dentro de um jipe, com um alferes muito nervoso a apontar-me a pistola à cabeça e outro a conduzir. Esse nem sabia o caminho, fui eu que lhe fui dizendo. Depois estive preso três meses, em Caxias.

Esses três meses de prisão foram…

… Bastante difíceis. É muito difícil estar ali sabendo que não estava metido em nada. Não me deixaram ter um advogado, não me deixaram receber visitas, não me deixaram ler jornais, não me deixaram ouvir rádio… Eles que acusavam tanto os outros gajos de serem uns malandros fizeram pior do que isso.

Guarda rancor de alguém?

Não. Já perdoei a uma data de gajos, mesmo aos que inventaram que fui preso vestido de padre, dentro de um carro funerário e que o caixão, em vez de um morto, levava metralhadoras. Mesmo a esses, que eu sei quem são, perdoei. Mas disse-lhes, a alguns, que perdoava, mas que não esquecia.

O exílio, depois da prisão, era inevitável?

Era. Fui preso a 28 de Setembro e, generosamente, porque era véspera de Natal, saí a 24 de Dezembro. Convenci-me, ingenuamente, que iria voltar a trabalhar, uma vez que nada estava provado contra mim, mas mais ninguém me deu trabalho. Estive desde Dezembro de 1974 até Agosto de 1975 à espera de qualquer coisa. Foi então que a minha mulher me disse: «O que é que estás aqui a fazer?». Não é fácil emigrar aos 54 anos. Primeiro dei um pulo até Paris depois fui para o Rio de Janeiro, que era uma cidade que eu conhecia.

Já ia com alguma coisa pensada?

Nada. Andei a ver os anúncios de emprego. Arranjei um lugar num banco brasileiro, como relações públicas para os clientes portugueses, e depois acabei por ser convidado pelo grupo Espírito Santo para trabalhar num banco. E também fiquei a fazer dois programas desportivos sobre o futebol português para a Globo. Foi assim que reconstruí a minha vida.

Viveu bem no Brasil?

Acabei por viver decentemente.

E regressa em 1981.

Sim.

O que o levou a regressar? Saudades?

Não. Pus a hipótese de as minhas filhas irem para lá, mas era difícil. A mais velha estava a acabar o curso e quase a casar e a mais nova estava a estudar Medicina. As duas precisavam do apoio da minha mulher, que ia passar uns meses comigo e depois voltava. Acabei por decidir regressar, também para pegar na minha empresa de publicidade.

O momento mais difícil da sua vida foi a morte do seu neto?

Foi das coisas mais trágicas que me aconteceram. Foi um golpe muito violento. Era uma criança encantadora. É daquelas coisas que nunca esperamos que aconteça.

Como aconteceu?

Foi um desastre em Alcântara. Ia com o pai num Mini. Pararam e, de repente, um camião TIR que perdeu os travões foi contra eles. Morreu ele e o pai, o marido da minha filha.

Que idade tinha o seu neto?

Sete ou oito. Hoje teria 22. Foi muito complicado. Era um miúdo de uma ternura e de uma doçura tremendas… Mas era um miúdo estranho, místico, que pressentiu a morte. Na véspera disse à mãe que ia morrer. É estranho, não é? Foi muito duro para mim, para a minha mulher e para a minha filha. Ela acabou por superar isso. Casou outra vez e teve outro filho.

Na véspera disse que ia morrer?

É arrepiante. Disse à mãe. Ele estava adoentado e a mãe não queria que ele fosse à escola. Mas ele disse: «Vou. Quero ver a professora porque amanhã morro». Disse isto com o ar mais natural do mundo. É inacreditável.

Sentiu-se revoltado com o mundo?

Sim. É revoltante que o mundo, uma coisa tão perfeita, também possa ser tão imperfeito. Não havia justificação para o menino morrer. Não fez nada para morrer. Sempre que uma criança morre para mim é incompreensível.

É um homem crente?

Sou, apesar de tudo.

Como é que se concilia essa revolta e esse sentimento de injustiça com…

… Não sei, não sei. Acredito que há qualquer coisa que comanda tudo isto, mas não sei o que é. Tenho dúvidas. Passo a vida a ter dúvidas. Há coisas que é difícil compreender, mas nem quero entrar nisso para não dar em maluco.

Teve oscilações nessa fé?

Não. Acho que a fé é importante para nos ajudar a resolver os problemas. Quando fui para o Brasil acreditei que era possível dar a volta por cima…

Mas aí teve fé em si, não se tratou de fé em Deus…

Sim, mas fui ajudado por alguma força especial. Não sei se é Deus. Há qualquer coisa. Tenho uma fé que não vem nos manuais. Uma das coisas que tenho dificuldade em aceitar é que uma pessoa viva neste mundo durante tantos anos, passe por tanta coisa e depois, de repente, desapareça para sempre. O para sempre é uma coisa que me faz confusão. Se a Natureza é tão perfeita, não me parece justo que desapareçamos por completo quando morremos. Sou um tipo estranho, pá [risos].

jose.fialho@sol.pt