Cultura

Carlos Nobre: De Pacman a Algodão

Carlos Nobre, conhecido por Pacman na extinta banda Da Weasel, tem agora um projecto a solo. O primeiro álbum sai a 3 de Outubro.

carlos nobre, 36 anos, é agora algodão. assim é o nome do novo projecto de pacman (da weasel) ou carlão (os dias de raiva) – os seus anteriores alter-egos –, que conta com doze poemas da sua autoria, num registo mais intimista e num tom coloquial. o álbum sai a 3 de outubro e é apresentado ao vivo no dia 21 no teatro do bairro, em lisboa. «há coisas que só consigo tratar através da escrita e da música. este é um registo de que gosto muito e é a forma como me consigo exprimir nesta altura. pode dizer-se que é a música que serve as palavras e não o contrário».

uma falaciosa noção de intimidade, o nome do primeiro álbum, que relata histórias de mulheres e de relacionamentos, conta com a participação da violinista francisca fins e da fadista aldina duarte. «este disco é muito íntimo. às vezes as pessoas acabam por estragar tudo com a intimidade. apeteceu-me baralhar as coisas, dar a volta aos sentidos e questionar o que é íntimo e a importância que a intimidade deve ter», esclarece o cantor. admite que os textos são baseados na sua vida, embora nem todas as mulheres de quem fala sejam reais. «sou uma pessoa que tem muita facilidade em desligar-se do mundo. é natural que as mulheres que apareceram na minha vida tenham tido uma grande importância, entreguei-me de uma maneira que não o fiz com quase mais ninguém, por isso é natural que escreva sobre elas». em ‘diz-me que não sou assim’ e ‘mãe da filha’, dedicados à filha e à mulher, admite que as coisas são tal e qual como as descreve.

questionado sobre se as letras podem chocar, carlos nobre responde que «as pessoas são muito hipócritas porque são capazes de usar este tipo de linguagem ou muito pior, mas depois quando ouvem num disco já ficam cheias de falsos moralismos».

do hardcore à música clássica

carlos nobre nasceu em angola, mas é filho de cabo-verdianos, e com apenas alguns meses foi viver para almada. segundo o cantor, na sua adolescência «não havia grande coisa para fazer» naquela cidade. o «pessoal da escola e da rua» acabou por formar muitas bandas e ele não ficou de fora. o irmão mais velho, conhecido por jay jay nos da weasel, teve muita influência no seu gosto pela música. juntos formaram várias bandas, entre as quais os esborr, de música hardcore, e o incesto. mas foi em 1993, com os da weasel, que deu o primeiro passo para a fama. aí percebeu que era da música que queria viver. «se calhar fui percebendo que não conseguia fazer outras coisas. só completei o ensino secundário aos 23 anos, e à noite, porque já dava concertos».

o primeiro álbum que o marcou foi thriller, de michael jackson, mas quando era novo tanto ouvia led zeppelin e prince, assim como metal, punk hardcore e hip-hop. «é um apanhado desta música toda que ainda ouço hoje em dia. também ouço muita música clássica e algum jazz. agora o meu disco do momento é o winterreise, do schubert».

na opinião de carlos ainda não se dá muito valor à música portuguesa. «muitas vezes dizem que a maior parte da música portuguesa é má. mas tem que encontrar espaço para evoluir e não ser barrada logo à partida. esta fornada de pessoas que estão a fazer música em português é a prova de que as pessoas gostam». quanto aos fãs, confessa que já houve desde propostas decentes, indecentes e até perseguições. mas, curiosamente, a situação mais hilariante não foi com um fã. «estava em almada a levantar dinheiro e ao mesmo tempo a falar ao telemóvel. vi que estava uma mãe com dois miúdos atrás de mim. tirei o dinheiro do mb e segui. depois um dos miúdos veio atrás de mim com um papel – o que acontece muito – e eu disse: ‘desculpa mas não tenho caneta’. ele vira-se e diz: ‘é o talão do mb’».

carlos assume-se egoísta. diz que tem «medo de perder o medo» e que «se não fosse músico seria infeliz». chama-lhe pacman e carlão, mas acha que cada vez menos precisa de alcunhas. «esta loucura não precisa de ser compartimentada». carlos não se fica pelo algodão e confidencia já ter mais projectos na manga: um álbum de música infantil e, quiçá, fazer uma música nova para o clube do seu coração, o benfica.

rita.osorio@sol.pt