Cultura

Palácio de Mafra dedica-se à arte contemporânea

O Palácio Nacional de Mafra é um dos monumentos mais visitados de Portugal e um dos mais importantes do barroco europeu. Foi mandado construir por D.João V para celebrar o nascimento de um herdeiro, tendo a primeira pedra sido lançada em 1717 e resistiu ao terramoto de 1755. O conjunto da basílica, convento e palácio fazem do monumento o maior em área edificada em Portugal: tem mais de 40.000 m2. Saramago celebrou a sua construção em Memorial do Convento e foi aqui que terminou a monarquia portuguesa: D.Manuel II dormiu num dos seus quartos antes de partir para o exílio.

Raquel Wise
Raquel Wise
Raquel Wise
Raquel Wise

Mas há a partir de hoje mais motivos para ir ao grande monumento de Mafra. Três artistas plásticos foram convidados a produzir obras especificamente para o local, numa exposição instalada no próprio percurso dos  visitantes (e não numa galeria),  sendo a primeira vez que peças de arte contemporânea convivem com as peças históricas neste ambiente palaciano e monástico.

João Vilhena ensaiou uma história de arte contemporânea em doze peças instaladas no chamado Torreão do Rei. São pequenos apontamentos que contrastam com o restante recheio e que surgem inesperados no ambiente palaciano e monástico. Desde uma torre de Tatlin logo ao cimo das escadarias , as peças que ilustram os movimentos artísticos do século XX como o surrealismo e a pop art. São peças em MDF pintado que “seguem uma mesma lógica de discurso e se inscrevem numa estética minimalista”. A peça alusiva à pop art já ganhou o nome carinhoso de carteira de fósforos e a peça surrealista junto a uma janela lembrando o céu nublado da pintura surrealista europeia coloca um buda e um peixinho num pedestal em frente à capela dos aposentos do rei.

Natércia Caneira apropriou-se do espaço da capela junto aos claustros no primeiro piso e construiu uma peça de 30 metros com fio de vidro. É uma teia translúcida qe muda com a luz do céu e que a artista teceu com os próprios passos ao longo de dois meses. ”É uma evocação do sublime”. Na enfermaria de doentes terminais, um dos primeiros espaços deste género a serem criados no mundo, Natércia Caneira fez impressões do seu corpo em folha de ouro sobre lençóis de papel. E sob a cúpula do Torreão da Rainha, a artista instalou uma gigante bola branca em fibra de vidro. Um objecto insólito neste palácio envolto no mistério também das relações conturbadas dos casais reais. Um dos dados mais curiosos é que o Palácio de Mafra tem o maior corredor do mundo a separar o quarto do rei e da rainha, mais precisamente 232 metros de extensão.

João Bacelar fez 15 retratos fotográficos de pessoas de hoje nos espaços já quase com 300 anos do palácio. “Imaginei a realeza dos nossos dias, com uma grande mistura étnica”. Os retratos estão na sala de Caça e na zona do convento.

A exposição Identidade e Circunstância foi inaugurada hoje às 16h e está patente ao público até 28 de Junho.

telma.miguel@sol.pt