Pôr a doença doente

Quem, melhor do que qualquer  ser microscópico, consegue atacar um tumor maligno? A resposta pode vir a ser um vírus. Cientistas britânicos deram o passo em frente de combater melanomas (forma agressiva de cancro de pele) através de um medicamento que ‘funciona’ à base de uma versão alterada do vírus do herpes. A ideia faz parte de uma abordagem, a…

É costume dizer-se que o inimigo do meu inimigo meu amigo é. A lógica não terá sido bem esta, mas o princípio é imbatível: e se, para combatermos uma doença usássemos as armas de uma outra doença? Foi o que pensaram cientistas do Instituto de Investigação em Cancro, de Londres. Aplicando a máxima, socorreram-se de uma arma perigosa, um vírus, contra uma das formas de cancro de pele mais agressivas, o melanoma. 

É claro que a ideia não é de todo que os pacientes contraiam um vírus para se livrar de um tumor. O vírus do herpes, a arma em causa, é modificado no sentido de destruir as células tumorais e foi posta em prática na forma de um medicamento injectável. O composto, que se tem revelado mortífero para melanomas em fase avançada, chama-se T-VEC e entrou agora na fase 3 dos ensaios clínicos. Ainda lhe faltam, portanto, além desta, duas etapas, o registo e a fase 4, que abrange os medicamentos já em comercialização. Os investigadores garantem que, para o ano, é provável que o novo remédio esteja pronto a usar.

A técnica, que só recentemente tem dado estes resultados promissores, chama-se viroterapia. Conforme o nome indica, a ideia é usar um vírus como arma, seja ele próprio a forma directa de atacar os tumores ou um meio de transporte de proteínas que vão passar ao ataque. Neste caso, os investigadores tomaram a primeira opção. 

Para se ter uma ideia do alcance dos resultados, a eficácia foi grande até em fases adiantadas, já com metástases (quando o tumor se espalha para outros órgãos diferentes do inicial) em muitos dos doentes. A equipa britânica fez esta experiência em 400 pacientes. Um em quatro respondeu positivamente ao tratamento, enquanto 16% (64 doentes) estavam em remissão ao fim de seis meses. E perto de 10% (40 pacientes) estavam em remissão total. Embora só se possam considerar curados aqueles que continuem em remissão depois de cinco anos, os sinais são muito positivos.

Além disso, a eficácia demonstrada pelo T-VEC em pacientes que já nem sequer podiam ir à mesa de operações e que já tinham metástases reforça o optimismo da equipa. O tratamento baseia-se, evidentemente, numa versão alterada geneticamente do vírus. Ou seja, quem esteve a tratar-se de um melanoma não contraiu herpes. O que o vírus faz é multiplicar-se nas células cancerosas, espalhando-se depois nas áreas vizinhas, o que desencadeia uma reacção imunitária contra o tumor.

Atingir as células certas
A ideia da viroterapia não é propriamente nova, lembra Jorge Espírito Santo, presidente do Colégio da Especialidade de Oncologia Médica da Ordem dos Médicos. Mas, até agora, as tentativas têm falhado. «Já se testaram várias abordagens e há uma que tem mostrado melhores resultados, transformando um vírus num agente que vai infectar as células malignas». A abordagem permitirá, talvez num futuro próximo, ter um pouco mais de optimismo, e não só no que diz respeito a melanomas. «É possível que a técnica seja usada em vários tumores, é preciso descobrir as características próprias das células», tendo em conta, evidentemente, que se encontre uma maneira «de infectar as células malignas e não as normais». 

As primeiras tentativas, lembra Jorge Espírito Santo, remontam aos anos 90 do século passado. Mas, já em 2010, um laboratório catalão tinha conseguido destruir células cancerígenas responsáveis por tumores no pâncreas e na cabeça praticamente da mesma forma – através de um vírus que não só destruía as células malignas como conseguia replicar-se milhares de vezes, destruindo as células infectadas na vizinhança.

Nos EUA, outras linhas de investigação vão no mesmo sentido. No fundo, explica Paul Workman, o responsável pelo Instituto de Investigação em Cancro londrino, trata-se de uma maneira de olharmos para antigos inimigos figadais de outra forma, radicalmente diferente: «Normalmente pensamos nos vírus como inimigos da humanidade, mas a habilidade que eles têm para infectar e matar células humanas específicas pode torná-los tratamentos promissores contra o cancro».

ricardo.nabais@sol.pt