Desporto

Madjer: ‘Deixar o futebol foi o melhor que me aconteceu’

Começou no futebol de 11, mas um acidente de mota atirou-o para os areais, onde acaba de se sagrar de campeão do mundo. Aos 38 anos, Madjer aponta à medalha olímpica e não quer ouvir falar na reforma.

DR

Portugal sofreu uma derrota inesperada ainda na fase de grupos frente ao Senegal (6-5). Acharam que o Mundial estava perdido?

Não. Foi mais um motivo para nos agarrarmos enquanto família. É um dos momentos-chave.

Emocionou-se após a vitória final frente ao Taiti (5-3). O que sentiu?

Foi uma grande mistura de emoções. Abdicámos de muita coisa nas nossas vidas em prol do futebol de praia. Lutámos diariamente por isto e finalmente atingimos um dos pontos altos da nossa carreira.

Qual foi o segredo do título?

Tenho três palavras que descrevem o nosso sucesso: família, pacto (um compromisso de entreajuda que fizemos uns com os outros) e entrega. Criámos laços afectivos muito grandes e acabámos por funcionar como equipa.

Foi o cumprir de um sonho antigo?

Posso dizer que sou bicampeão do mundo, eu e o Alan, porque também fomos campeões no Mundial em 2001. Claro que este título tem outro sabor, até por ser um Campeonato do Mundo FIFA, por ter sido em casa e porque hoje o futebol de praia está mais competitivo.

Os adeptos compareceram em massa em Espinho. Ficaram surpreendidos?

Estava à espera de muito apoio, até porque quando há mundialitos temos sempre muita gente, não estava à espera é que fosse geral. Nem na derrota com o Senegal os portugueses nos abandonaram, aliás, até nos deram força. Portugal inteiro esteve a torcer e a vibrar por nós.

O que representa esta conquista para o país?

Ainda estou um pouco a viver o sonho, não estou bem ciente daquilo que aconteceu. Espero que seja o click para o futebol de praia ter o desenvolvimento que todos nós esperamos. A Federação Portuguesa de Futebol tem feito um investimento brutal e não é à toa que os resultados estão à vista.

Receber o prémio de melhor jogador do Mundial teria sido a cereja no topo do bolo?

Os prémios individuais para mim tornam-se secundários, porque acabo por ter prémios colectivos. Se não for um colega a passar-me a bola eu não faço golo e se não for outro a defender por mim se calhar chego tarde à bola.

O que fica a faltar no currículo?

Muita coisa (risos). Falta, sem dúvida, uma medalha nos Jogos Olímpicos. Ainda há muito por lutar e conquistar. Se der para ter dez títulos de campeão do mundo não irei querer apenas nove.

Já participou em quantas fases finais?

Em 14.

Foi o melhor marcador em cinco mundiais. Tem ideia do número de golos que já marcou?

Tenho actualmente 981 golos.

Uma marca impressionante…

Representa muito trabalho, com os melhores treinadores do mundo, atletas, departamento médico e staff. Só assim conseguimos atingir estas marcas. Cada um deles tem um bocadinho deste número.

O golo que apontou à Suíça foi muito elogiado dentro e fora de portas...

Só depois de ver na televisão é que tive a noção do golo que foi. Sem dúvida que é dos mais bonitos da minha carreira. É um gesto técnico que pratico muito nos treinos. No jogo da final tentei novamente, mas não me saiu bem.

É aclamado como o melhor jogador português de sempre na modalidade. Aprova a distinção?

É um gozo ser considerado assim. São já muitos anos de trabalho que acabam por ser valorizados dessa forma. É bom ser o porta-estandarte da família do futebol de praia.

Como surgiu a alcunha de Madjer?

É engraçado, eu até sou do Sporting e o verdadeiro Madjer jogou no FC Porto (risos). Quando comecei a jogar com os meus amigos de infância, tinha cerca de 11/12 anos, coincidiu com o golo de calcanhar do Madjer, um dos nomes mais sonantes do futebol português. Diziam que eu era muito parecido na forma de correr e jogar, apesar de ele ser destro e eu canhoto. O estilo era muito parecido, então os meus amigos começaram a apelidar-me de Madjer e ficou.

Na próxima época vai continuar a jogar no Al Ahli e Sporting?

Sim, vou continuar dividido, até porque as épocas não coincidem. No Sporting é até final de Agosto e no Al Ahli vai começar em Setembro.

É o responsável pela modalidade nos ‘leões’.

O Sporting é uma aposta minha e do presidente Bruno de Carvalho, que é meu amigo. Uma aposta que já vimos que é bem feita e que tem pernas para andar. No Al Ahli é diferente. É onde eu posso ser profissional o ano todo e praticar a tempo inteiro.

Que importância têm as competições de clubes no crescimento da modalidade?

Os clubes estão a aderir cada vez mais. Quem nos dera que houvesse mais equipas, principalmente em Portugal, a investir no futebol de praia. Há muita gente a querer praticar e depois esbarram numa situação: ‘onde vamos jogar?’. O caminho é esse, os clubes apostarem mais e a formação começar a surgir. Até por causa dos Jogos Olímpicos.

Ajuda na vossa preparação?

Fazemos grande parte da competição nos clubes e praticamente vamos à Selecção já preparadíssimos. É como acontece no futsal e no futebol de 11.

Trocou os relvados pelos areais quando era mais novo. Como surgiu esta aventura?

Caí aqui de pára-quedas. Fiz a formação até aos 17 anos no Estoril mas depois um acidente de mota impediu-me de jogar futebol durante dois anos. Entretanto o Carlos Xavier, que é meu vizinho e amigo de longa data, era um dos jogadores da Selecção na altura e começou a chatear-me para entrar num torneio amador. Da primeira vez disse logo que não. Eu nem sabia tão-pouco que se jogava futebol na areia seca. Para mim só se jogava na areia dura. Depois de muita insistência acabei por aceitar. O seleccionador nacional João Barnabé estava presente na prova e convidou-me para a equipa.

Nunca mais andou de mota?

Andei porque tenho o vício das motas. Mas entretanto nasceram os meus filhos e a mentalidade mudou. Agora dou valor quando a minha mãe dizia que quando eu saía de mota ‘ficava com o coração nas mãos’.

Arrepende-se de ter deixado o futebol de 11?

Foi a melhor coisa que me aconteceu. No futebol não sei se não seria apenas mais um jogador. No futebol de praia encontrei o meu ‘porto seguro’.

Aos 38 anos, já com um longo palmarés, o que lhe reserva o futuro?

Temos a Liga Europeia para conquistar num futuro próximo. A longo prazo, gosto de dizer que enquanto as pessoas acharem que sou uma mais-valia vou manter-me na luta. Quando não me sentir útil vou ser o primeiro a levantar o braço e a dizer que já não dá para mim.

Já jogou com várias gerações. Quais os jogadores que o marcaram mais, entre colegas e adversários?

Em Portugal as minhas referências mais antigas são o Hernâni, Nunes, Zé Miguel e o Carlos Xavier. A meio-termo o Alan, Belchior e o Torres, três pessoas que me marcaram mais recentemente. Ao nível internacional, o Júnior do Brasil e o Éric Cantona.

E treinadores?

O primeiro que vou enumerar é o Zé Miguel, pelo tempo que teve connosco, os ensinamentos que nos deu ao longo destes anos e por ter criado uma Selecção profissional. Outro é o Alexandre Leão, dos primeiros brasileiros a vir para Portugal. Aquela pessoa que mudou a nossa mentalidade de ‘o futebol de praia é um grupo de amigos que se junta e vai jogar’ para ‘vamos lá ganhar competições’. E mais recentemente o Mário Narciso, pelo ser humano fantástico que é e por ser uma pessoa capacitada. Prova disso foi termos sido campeões do mundo.

Já há craques em vista para o futuro da Selecção?

Tenho visto bastante qualidade em todas as equipas. Há novos valores a surgirem e uma Federação a apostar forte no campeonato nacional. Vamos ter um futuro risonho com muito trabalho. 

hugo.alegre@sol.pt