Sociedade

Campanha anti-álcool não chegou a tempo dos festivais

A ‘lei seca’ para os menores está em vigor há quase um mês, mas o Governo não conseguiu lançar a tempo dos primeiros festivais a campanha sobre as novas regras do álcool, preparada especialmente para estes concertos. Os milhares de leques e marcadores de livros com o lema ‘Para que Recordes o Verão, não tenhas um Apagão’ ainda estão a ser produzidos. O Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) espera agora conseguir distribuí-los no Festival do Sudoeste, que arranca a 6 de Agosto. 

 

«Só decidimos avançar com a criação da campanha depois de a lei ter sido publicada, o que aconteceu em meados de Junho», explica João Goulão, responsável do SICAD, admitindo que o organismo preferiu esperar pela versão final do diploma do álcool. Isto porque há dois anos o Governo ficou dividido e acabou por recuar na intenção de proibir totalmente o consumo de álcool até aos 18 anos, continuando a ser possível beber cerveja e vinho a partir dos 16 anos.

Agora, a venda foi totalmente proibida até aos 18 e é isso que a acção do SICAD quer explicar. A campanha custou dez mil euros e, além dos leques e marcadores de livros, incluía um vídeo de 1,44 minutos, que já foi lançado no Youtube e nas redes sociais. 

Segundo o organismo, 90% das verbas foram gastas na produção dos materiais que, no entanto, só deverão estar prontos na próxima semana. Um atraso que João Goulão justifica também com o facto de «a produção implicar sempre procedimentos de consulta ao mercado que demoram tempo».

Inicialmente, a ideia para a campanha passava pela distribuição de folhetos com as novas regras. Mas as autoridades desistiram dessa opção. «Nos festivais não é permitida a distribuição em papel para evitar lixo», explica Goulão. 

‘É lamentável’

Mas para o médico Rui Tato Marinho «o atraso nesta campanha significa uma oportunidade perdida de passar uma mensagem» aos milhares de jovens que encheram os festivais Nos Alive e o Super Bock Super Rock, em Lisboa, e o Marés Vivas, em Gaia. 

O clínico do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, lembra que este é «um problema de saúde pública» e tem de ser combatido de forma continuada e eficaz. «Tem de explicar-se aos adolescentes os riscos que correm: que quando mais cedo bebem mais risco têm de se tornarem dependentes do álcool», alerta o especialista, lembrando que quem começa a consumir álcool de forma continuada aos 15 anos tem uma probabilidade de quase 50% de se tornar alcoólico. 

O psiquiatra Rui Patrício, que também trata esta dependência, considera «lamentável» que continue a faltar uma educação para o álcool consistente que vá muito além de campanhas ocasionais para os jovens e que envolva também as famílias.

O ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Alcoologia Rui Moreira defende, por seu lado, que é preciso ir muito mais longe nestes alertas. «No combate ao álcool tudo o que se tem feito a nível oficial tem sido fogo de vista», lamenta, acrescentado: «O Ministério da Saúde tem de assumir esta prioridade, actuar na prevenção e fazer cumprir a lei».

Na ausência de alertas do Governo, foram as organizações dos festivais de Verão que impuseram regras para travar a venda a menores. 

No Super Bock, que reuniu 56 mil pessoas no Parque das Nações no passado fim-de-semana, pedia-se aos adolescentes a identificação antes de lhes vender bebidas, distribuindo-se pulseiras verdes aos maiores de 18 anos que aparentavam ser mais novos. 

Já no Alive, que reuniu 150 mil pessoas no Passeio Marítimo de Algés, nos dias 10, 11 e 12, não havia pulseiras mas sim cartazes nos bares alertando para a nova lei e uma campanha nos ecrãs. A ASAE teve brigadas nos recintos e detectou oito casos de venda ou distribuição de álcool a menores: quatro de venda no Alive e um de venda e três de distribuição a menores no Super Bock.

joana.f.costa@sol.pt