Cultura

The Revenant: produção furiosa

Poderá ser desta, finalmente, que Leonardo DiCaprio leva o Óscar para casa, com The Revenant, o filme de Alejandro González Iñárritu ainda em filmagens e que deverá ter antestreia nos EUA exactamente no dia de Natal.

Leonardo DiCaprio um explorador em busca do Óscar em falta

Tudo é épico e fora de escala nesta grandiosa produção cuja rodagem deveria ter acabado no fim da Primavera, mas que se deverá prolongar ainda durante este mês, enquanto surgem rumores de brutal derrapagem orçamental e parte da equipa a desertar ou a ser despedida dada a dureza sem precedentes das condições de filmagem, sobretudo do frio extremo. “Um verdadeiro inferno”, disse um dos membros da equipa à The Hollywood Reporter (THR), tendo classificado a experiência como a pior da sua carreira. “Vai valer a pena. Quando virem a escala disto dirão: Uau!”, respondeu o realizador de origem mexicana que este ano recebeu o Óscar de Melhor Realizador por Birdman. E que pôs agora a fasquia extremamente alta. Há alegações de que a equipa foi exposta a situações de risco físico para lá do que é normalmente aceitável. Iñárritu responde que tal nunca chegou a acontecer, embora confirme que houve um actor arrastado nu numa zona gelada e com temperaturas negativas e que aceitou repetir os takes. Elementos da equipa disseram que o actor em causa estava em grande sofrimento.

Iñárritu explica que a história precisava de ser filmada ao vivo. “Se estivéssemos num estúdio, com efeitos gerados em computador, enquanto todos tomávamos café descontraidamente, isso teria dado um outro filme completamente diferente”, defende.

The Revenant é a história do explorador e caçador de peles do início do século XIX Hugh Glass, e centra-se na vingança que prepara após um elemento do seu grupo o ter abandonado à morte e roubado depois do ataque de um urso.

A decisão do realizador de filmar tudo ao vivo e com luz natural acrescentou desafios extremos à produção. A repetição de cenas, por exemplo, para o raccord ser realista, tinha de ocorrer no dia seguinte exactamente à mesma hora, e muitos actores referiam que, mesmo assim, as cenas não eram previamente ensaiadas e havia muitas indecisões quanto à escolha de guarda-roupa e maquilhagem, com a equipa já toda ao frio, à espera, no set.

Devido ao falhanço do planeamento, a equipa filmou cenas correspondentes ao Outono na narrativa, mas já em pleno Inverno, numa região deserta do Canadá, com temperaturas abaixo dos 25 graus negativos. A bem da verosimilhança, os actores filmaram sem gorros, luvas e casacos. “A temperatura era tão baixa que mover uma câmara era penoso e o material avariava”, contou um elemento da equipa técnica. E quanto à saída do produtor Jim Skotchdopole, uns dizem que foi ele que abandonou a produção – e outros que, devido às falhas constantes, o próprio Iñárritu, que trabalhara com ele em Birdman, o despediu.

A derrapagem nos prazos de filmagens, que deveriam acabar em Março, e a necessidade de toda a equipa se mudar para a Argentina, quando a neve acabou no Canadá, elevou o orçamento de uns previstos 95 milhões de dólares para uma estimativa de 135 milhões. E a crescer, dizem.

Vai valer a pena, acredita Iñarritu, que aceitou receber o jornalista da THR, a meses da data de estreia, nos escritórios da produtora New Regency para dissipar a polémica crescente. “Não há nada a esconder. Houve problemas e desafios, mas nada de que me envergonhe”, diz. A New Regency continua a apoiar o realizador e fonte oficial diz que querem continuar a trabalhar com ele na sua busca incessante do próximo Óscar.

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