Economia

‘Já sei ler uma ementa de restaurante em polaco’

“Este é o mapa da Colômbia, mostra bem o que é o país”. É assim que Pedro Soares dos Santos, presidente do grupo Jerónimo Martins (JM), principia a conversa com o SOL. Numa sala no 16.º andar do prédio que a companhia ocupa no Campo Grande, Lisboa, aponta para as regiões montanhosas nas quais vivem 75% dos colombianos. E dá conta dos desafios na terceira geografia da empresa. Se numa rede de supermercados a logística e o abastecimento são o ‘coração’ do negócio, na Colômbia “o que demora oito ou nove horas de camião, leva 20 minutos de avião”. Mas o caminho faz-se.


Depois de, em Março de 2013, se estrear com a marca Ara na região do Eixo Cafeteiro, onde já tem 89 pontos de venda, a JM está prestes” a entrar numa segunda zona: Barranquilha, na Costa do Caribe. Ainda este mês.

Continua assim “a aventura de compreender qual o melhor tipo de loja, como se faz uma rede, de democratizar o acesso à alimentação, de saber como abordar o mercado e tornar a empresa rentável”.


O peso da responsabilidade

Também foi assim que começou na Polónia, onde já tem 2.655 lojas da Biedronka, e que é hoje “o grande motor” do grupo. No primeiro semestre, as vendas neste país subiram 12%, para 4,5 mil milhões de euros (68% do total).

Já Portugal “é o motor do ânimo”, mesmo que perca peso nos resultados. O empresário não espera “grandes crescimentos” no país. No Pingo Doce quer “continuar a desenvolver a marca, que este ano vai lançar 90 produtos, oferecer novos serviços”. A estratégia pode passar pela expansão através do franchising da insígnia - já em curso - e de mais mercearias Amanhecer. Ou pela via das lojas de conveniência, como a que já está a testar em parceria com a BP. Outros caminhos: “O food-service e o take-away por exemplo, com marca própria. A restauração. Já temos muitos restaurantes”. E mais não desvenda.

Recebe muitas propostas para vender a Jerónimo Martins? “Não. Já perceberam que não vale a pena”. Não será esta geração, a quarta à frente da empresa familiar, a dar esse passo.

Pedro Soares dos Santos tornou-se chairman - papel que acumula com o de administrador-delegado - em Dezembro de 2013, quando o patriarca da família, Alexandre, quis sair.

A mudança foi “grande” e alterou-lhe a visão do negócio. “A minha missão é gerir o grupo de forma rentável, sustentável e responsável para que haja pagamento de dividendos que permitam aos accionistas fazerem os investimentos que entendam. Essa responsabilidade era do antigo chairman e passou para mim. É uma responsabilidade brutal”.

A família Soares dos Santos, maior accionista do grupo, acaba de conquistar a concessão do Oceanário e vai criar uma fundação dedicada aos oceanos. Já a JM está a iniciar-se no agroalimentar, com a compra da fábrica da Serraleite. “Este grupo investe sempre muito mais do que os lucros que obtém. No ano passado tivemos 300 milhões de lucro, distribuímos 50%, mas investimos 470 milhões”.

Contudo, Pedro Soares dos Santos aligeira o discurso quando se fala no peso de assumir um grupo desta dimensão. “Eu já cá vivia há muitos anos”, brinca. Começou na Jerónimo Martins em 1983, como 23 anos, como assistente de compras no Pingo Doce.

Mas ainda se aconselha com Alexandre Soares dos Santos. Afinal “a relação entre pai e filho não tem de mudar porque mudam as cadeiras”.


Ler ementas em polaco

Dividido entre três países, Pedro Soares dos Santos passa muito tempo na Polónia - e agora viaja mais. Mas continua a ter tempo para provar (e aprovar ou rejeitar) todos os produtos de marca própria antes de chegarem à loja.

Confidencia que coordenar equipas e diferentes culturas e posturas empresariais “é fácil se se aprender as línguas locais”. Sabe falar polaco? “Sei ler uma ementa de restaurante para não morrer à fome. Se for a um restaurante comigo, sei dizer-lhe o há de bom na lista”, assegura, entre risos.

ana.serafim@sol.pt

joao.madeira@sol.pt

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