LifeStyle

Um bairro a renascer

“Estou aqui desde sempre. Nasci no n.º 31 na Rua de São Bento e ainda hoje lá moro com a minha mãe de 93 anos”. Vasco Antunes tem 75 anos e orgulha-se de ter o negócio de velharias mais antigo do eixo que vai da zona sul da Rua de São Bento até à Rua do Poço dos Negros, as Velharias Vasco. Ainda há outros como ele, como a Ervanária do Poço Novo, na família Baeta Neves desde 1837. Ou a Fotografia Triunfo, há 53 anos com Adriano Filipe ao balcão. E ainda a oficina de reparação de instrumentos musicais de Tomás Miranda, luthier, no bairro há 20 anos: “Mas sinto que já venho do século XVIII, a data dos instrumentos que recupero”. No entanto, nos últimos anos, foram mais as portas que se fecharam do que aquelas que se abriram. Conscientes que este problema de desertificação urbana necessitava de uma resposta que incluísse a reabilitação social, as arquitectas Margarida Marques, Mariana Paisana, Marta Pavão e Sara Brandão começaram a pensar em soluções. Em 2013, com o projecto Rés do Chão, ganharam o concurso FAZ – Ideias de Origem Portuguesa, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian.

A avó veio trabalhar, projecto de design social que acabou de estrear a primeira loja no bairro. Raquel Wise

A partir de então as jovens puseram em pausa os trabalhos no Brasil, Chile e Índia e rumaram ao Poço dos Negros para pôr em prática uma ideia nova. “Queríamos tentar resolver a desocupação dos pisos térreos porque identificámos que isso é um problema grave na cidade. A novidade do que estávamos a propor era fazer a reabilitação horizontal dos espaços. Se o investimento feito para reabilitar um edifício inteiro fosse antes utilizado em vários pisos térreos, tinha um impacto mais imediato, estimulando que o resto fosse reabilitado mais depressa”, explica Margarida, que entretanto trocou São Paulo (Brasil) pelo n.º 119 da Rua u Poço dos Negros onde está instalada a agora Associação Rés do Chão.

“Uma das nossas linhas de acção, em termos de reabilitação, é também uma reabilitação do território feita com as pessoas e pelas pessoas”, acrescenta o antropólogo Manuel Pereira, que se juntou ao grupo inicial das arquitectas. Com a equipa formada, a associação começou por contabilizar o número de pisos térreos comerciais desocupados: “Encontrámos cerca de 150 nesta zona alargada, sendo que em termos de percentagem nalgumas ruas era superior a 50%!”, comentam. Depois foram à procura dos proprietários desses rés-do-chão desocupados. “Queríamos saber qual o motivo para não arrendarem. Há espaços que estão degradados e que precisam de um investimento inicial grande para os ocupar, o que exige que a pessoa tenha segurança financeira para tal, o que cada vez existe menos”.

Aí tiveram outra ideia. Arrendaram um espaço-piloto, fizeram obras. “Testámos este modelo que achamos que é uma possibilidade de manter pisos térreos ocupados”. O modelo de co-work é cada vez mais comum para profissionais que dependem só de um computador. Estender essa ideia a quem depende do trabalho artesanal, que quer vender as suas peças e estar em contacto com o público, foi a etapa seguinte. “No fundo, estas pessoas alugam uma parte de um espaço, têm uma loja e um espaço de trabalho, que é uma coisa que não existe muito em Lisboa”.

Desde 6 de Junho de 2014 de portas abertas com projectos tão diferentes como a Airosa, a Mana Design e até uma parceria com a Faculdade de Arquitectura de Lisboa (através de uma mostra de trabalhos dos finalistas do curso de moda e design), o projecto não podia estar a correr melhor. E não foi só no n.º 119 que a transformação se deu.

Nos últimos 12 meses, Margarida e a equipa já viram nascer, com ou sem intermediação directa do Rés do Chão: “Uma lavandaria, um bar, a sede do projecto de design social A Avó Veio Trabalhar, está prestes a abrir a loja Lola Bala, o partido Livre ocupou um piso térreo no bairro, abriu a Pizza e Companhia, uma loja de roupa em segunda mão e uma associação de artistas na Rua das Gaivotas”. A lista é bastante u mais extensa. Até porque uma das preocupações do Rés do Chão passa não só por trabalhar com os espaços desocupados mas também com os que estão em risco de o ficar. “Percebemos que isso era essencial para o nosso projecto. Para nós, é muito bom que novos espaços sejam ocupados mas também é muito bom que os espaços que já existem continuem. E neste momento sentimos que estamos a conseguir criar estratégias para ajudar a que isso aconteça”, defende o antropólogo.

O senhor Adriano não podia estar mais satisfeito com as modificações que têm acontecido no bairro: “São uns jovens muito engraçados, gosto muito deles e dentro do possível ajudo no que puder. Isto precisa de gente nova porque a nossa rua está muito pobrezinha. Agora até fazem aí uma feirazinha, muito engraçada. Já participei numa. Vendi os meus cubos para fotografias, máquinas digitais, máquinas descartáveis, fotografias que fiz em postais...”.

Quem também está contente com a nova vizinhança é o senhor Domingos, do restaurante Tambarina. Além “do sabor de Cabo Verde”, anima as noites de sexta e sábado com mornas, coladeras e funaná. “Não toco mas danço, que é uma coisa que adoro! Isto é tudo gente boa”, atira. Domingos está no bairro há 43 anos. Já teve um rent-a-car, já trabalhou na construção civil e na exportação para África. Agora é a restauração que o faz feliz.

Quase ao lado do seu restaurante, há mais um negócio a abrir. Chama-se Lola Bala e é a coqueluche de Gimbras e Tita, o mesmo casal que está por detrás do projecto Rádio Royale. No n.º 90 da Rua do Poço dos Negros abrem em Setembro uma loja, um bar e uma sala de espectáculos. Tita explica: “Vamos ter uma marca de artigos que vão ser confeccionados aqui, a começar com uma linha de camisas e vestidos, no Verão. Vamos também ter as ‘Noivas de Algodão’, uma marca registada em que só utilizamos cambraias e organza de algodão e bordado inglês”. O espaço onde confeccionam bolos caseiros, com um estrado que durante o dia é café e à noite se transforma em palco, é a zona do Clube Royale. Pelo meio a Lola Bala esconde detalhes curiosos, como uma casa de banho forrada com a revista portuguesa Cinéfilo (1928-30). “Também tem anúncios de moda e de produtos de beleza. Como este de um pé de galinha gigante que o creme Naly promete resolver num instante. Temos aqui um anúncio da última maravilha do século XX, que é, nada mais nada menos, que o frigorífico com congelador. A novidade? Consegue conservar um frango!”.

Já no Boqueirão do Duro, no Pachamama – primeiro restaurante de Lisboa com certificado biológico –, podem encontrar-se muitas coisas menos frangos (e carne, no geral). Maria Aroeira e Miguel Abreu trocaram uma carreira na banca por uma nova vida, mais saudável, mais biológica e mais local. “Decidimos abrir aqui porque esta zona está a sofrer grandes alterações. Será o bairro que vai concentrar a maior parte das pessoas”.

A mesma aposta no biológico e no potencial de crescimento da zona fez Francisco Franco Afonso, que se prepara para abrir o seu alojamento local Casa Calçada do Mercado de Lisboa, acompanhado pelo restaurante (biológico) Filho da Mãe, ali a dois passos, na Calçada Salvador Correia de Sá. E não estão enganados. De acordo com as declarações do pelouro do Planeamento da Câmara Municipal de Lisboa, “em Junho deste ano foi aprovado projecto de arquitectura do pedido de licenciamento de obras de edificação para o Boqueirão do Duro. O projecto prevê a reabilitação dum antigo armazém para escritórios”. E mais: “Em Julho deste ano foi aprovado um pedido de informação prévia cujo requerente é Havas Management Portugal”, que se sediará na Rua Dom Luís I, ali perto. “O que nós começamos a perceber é que já estão a aparecer pessoas mais ligadas ao sector dos serviços, que é o nosso público-alvo. O que nós fizemos foi apostar nesta transição”, explicam os donos do Pachamama.

Atento a estas alterações, Fernando Vasco Costa, director de Development Solutions da consultora imobiliária Jones Lang LaSalle, garante que a zona não só está a ter muita procura para reabilitação u como ainda tem margem de progressão. “Os promotores, atentos à localização central e oferta de activos, estão a adquirir edifícios devolutos e a requalificá-los, muitos deles com o objectivo de colocação no mercado de arrendamento turístico. Por outro lado têm existido algumas iniciativas, com conceitos inovadores e alternativos de retalho, que têm vindo a dinamizar o comércio local. No sector residencial, o potencial de crescimento é enorme e os valores chegam já ao 5.500 euros/m². No sector de retalho as rendas médias situam-se entre os 15€e 20 euros”.

Oh vizinha!

“Já nos fizeram essa pergunta: não acham que estão a aumentar o valor dos pisos térreos? Sim, achamos que essa é uma consequência inevitável mas sabemos que há pessoas que estão em risco de fechar uma loja e que o nosso trabalho pode contribuir para que isso não aconteça”, defende o Rés do Chão. E, para tal, juntaram-se ao movimento de comerciantes do bairro e desde Junho ajudam a organizar a Feira Vizinha, que acontece no primeiro sábado de cada mês.

Porque a feira é dos vizinhos, quem fez a sua imagem foi o colectivo vizinho Ambas as Duas (Joana Tavares e Cristina Viana), que têm o seu estúdio Bem Bom ali perto. “As pessoas começam a conhecer-se e percebem que a rede de facto existe e que depende cada vez menos de nós. Esse é o nosso objectivo”, defende Manuel. Na última feira, que aconteceu no dia 1 de Agosto, juntaram-se no Largo Dr. Sousa Macedo a ‘avó’ Maria Fernanda do projecto A Avó Veio Trabalhar, a ‘neta’ Cláudia Cordeiro com a loja de design urbano Apaixonarte, as flores da Saudade, Rosário Félix a representar o colectivo Urban Sketchers, as irmãs Sara (31 anos) e Mariana Rolim (25 anos) que em Dezembro abriram a mercearia Saloia na Rua de São Bento, a loja Hema Toma e os desenhos de Marta Malta, que neste momento está empenhada no seu novo projecto Malta & Companhia.

“O objectivo é começar a fazer o mapeamento de todos os artesãos que existem nesta zona e trabalhar em conjunto com eles”. E a ideia já começou a dar frutos. “Conseguimos fazer uma candidatura em conjunto com o Rés do Chão. Ontem saiu a lista preliminar... e continuamos na corrida! Tudo indica que o projecto vai iniciar em Setembro”. Manuel acredita que todo este movimento acontece porque o bairro começa a ter uma identidade própria, que nasce da relação que se tem vindo a estabelecer entre o comércio local e os negócios emergentes: “A ideia da reabilitação horizontal que o Rés do Chão tanto defende está finalmente a tornar-se uma das identidades deste bairro”.

patricia.cintra@sol.pt