Cultura

Netflix: O novo império

Os escritórios da Netflix estão a poucos quarteirões de distância do Beverly Hilton, o hotel que é, com os seus cerca de mil funcionários, o maior empregador de Beverly Hills. Mas, mais do que isso, tem uma fama que advém não da sua relevância para os índices de emprego, mas por causa de dois acontecimentos, um recorrente, outro fatídico. Desde 1961 é o palco dos Globos de Ouro; em fevereiro de 2012 Whitney Houston morreu afogada na banheira após ter ingerido um cocktail de drogas.

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Em Los Gatos, zona de estar perto do refeitório, com cadeiras Charles Eames e um muro de água DR
O escritório em Beverly Hills, Los Angeles, onde se desenha a programação e a produção DR
Los Gatos. A equipa tecnológica está agora a mudar-se para um edifício perto muito maior DR

Mesmo estando perto, a dezena de jornalistas de Portugal, Espanha e Itália (PEI) que foram convidados para uma visita aos dois quartéis da Netflix nos Estados Unidos percorrem a distância num autocarro fretado. A zona com o famoso código postal de 90210, onde moram as celebridades, pertence ao gigantesco condado de Los Angeles e em L.A. não se anda a pé. Estávamos a meio de julho, notícias sobre a seca extrema faziam primeiras páginas do Los Angeles Times, mas com temperaturas máximas de 25 graus e um exterior verdejante percebemos que a Califórnia consegue ultrapassar as suas misérias e o terrível espetro do caminho para a desertificação de toda a área.

Nos escritórios da Netflix em Beverly Hills, num pequeno e discreto edifício de três andares, numa alameda frondosa, o que imediatamente chama a atenção de todos os jornalistas dos PEI - os três países onde a Netflix irá começar a operar em outubro, ainda sem data anunciada - é a alegria no trabalho. Quando esperávamos o ambiente castigador e gélido de uma companhia tecnológica em rápida expansão, que garante estar a liderar a revolução na televisão no mundo inteiro (promete cobrir o planeta no final de 2016 com o seu serviço pela internet) - e para mais num país de leis mais duras que na Europa - encontramos um oásis de descontração.

Ainda recentemente, um artigo do New York Times relatava condições de trabalho brutais e humilhantes na Amazon, rapidamente negadas por Jeff Bezos, o CEO da companhia de vendas online e também dono do rival Washington Post. Mas na Netflix, um funcionário é mimado desde que entra até que sai. Tem tudo gratuito nas várias zonas de refeição. O pequeno-almoço está incluído e há frigoríficos repletos de iogurtes biológicos, leite de vaca, de soja, de amêndoa. Há dispensadores com vários tipos de cereais, taças com amoras e framboesas, amêndoas da Califórnia e uma variedade de frutos secos para pequenos-almoços muito diferentes dos ovos com bacon. Os almoços, servidos por catering, são refeições saudáveis ao estilo da portuguesa Go Natural; nada de hambúrgueres ou cachorros quentes. “Não são servidos jantares porque a Netflix não incentiva que as pessoas fiquem até tarde no trabalho”, conta Anne Wallin, a jovem relações públicas da empresa nos escritórios de Beverly Hills. A política de horários e de férias também não é tradicional. “Tiramos férias quando precisamos, se isso não afectar o trabalho”, conta-nos  uma portuguesa com quem nos cruzamos. À porta das salas de visionamentos há carrinhos de pipocas self service. Aqui nos escritórios de Beverly Hills, muito perto da meca de Hollywood, onde a indústria do entretenimento tem a sua base, tratam-se de conteúdos, de programas. No quartel general em Los Gatos, no Silicon Valley, coração das empresas tecnológicas como a Google, a Apple, ou a Microsoft, trata-se de tecnologia e é onde está a alojada equipa de engenheiros informáticos, programadores e web designers. E onde está Reed Hastings, o carismático CEO e fundador da empresa.

A separação mostra bem como a Netflix entende o seu negócio. Primeiro, começou por ser uma empresa de distribuição de DVD, criada em 1997, passou para a distribuição de conteúdos via internet, e depois envolveu-se na criação de originais. Lilyhammer, uma série em colaboração com a Noruega, que recentemente passou na RTP2 sem grande alarido, foi a primeira. Com House of Cards, de David Fincher, estreada em 2013, a Netflix ganhou três Emmy e cravou o seu nome na indústria de conteúdos, uma indústria na qual está a investir este ano três mil milhões de dólares. E a Netflix percebeu uma realidade à frente do seu tempo: o tipo de consumo estava a mudar tanto que os espetadores já queriam tudo em simultâneo. Por isso, a segunda temporada de House of Cards, foi disponibilizada no serviço de streaming de um único fôlego. A 14 de fevereiro, todos os episódios estavam disponíveis para descarregar, inaugurando a era da binge tv, uma orgia televisiva agora seguida até por cadeias tradicionais como a NBC, que colocou online ao mesmo tempo toda a série Aquarius, com David Duchovny.

Agora a Netflix é as duas coisas juntas. Reed Hastings, o CEO da empresa, diz não saber o que é mais relevante, se a parte de desenvolvimento tecnológico se a de conteúdos. Usa a imagem do avião. “O que é mais importante: o motor ou as asas?”. Concordamos na ideia de que o passageiro quer é estar confortável no seu assento. “Exatamente. Queremos fornecer um serviço tão bom que o consumidor não tenha que se preocupar com pormenores técnicos”.

Ted Sarandos, o diretor de conteúdos da Netflix desde 2000, e membro do American Film Institute e da direção da cinemateca americana, diz, sem surpresa, que a “televisão está a tornar-se o novo cinema”. Mas é capaz de o explicar melhor do que ninguém: “Os filmes começaram a ser feitos para todas as audiências no mundo inteiro e para agradarem a toda a gente tornaram-se muito espetaculares, ‘rebuçados para os olhos’, como o Velocidade Furiosa e Jurassic Park. Isso criou um vazio para os grandes atores que querem personagens complexas”. E é por causa disso, diz Sarandos, que Brad Pitt, “a maior estrela do mundo” está a fazer um filme, o War Machine, que será distribuido em 2016 exclusivamente na Netflix, algo inimaginável até há bem pouco tempo. Também estrelas como Bradley Cooper “que estava no auge, tinha acabado de ganhar um Óscar com o American Snipper”, ou Paul Rudd e Amy Poehler, aceitaram comprometer-se para uma série baseada no filme Wet Hot American Summer.

À medida que a empresa de streaming conquista novas paragens, permite-se fazer parcerias com o talento local e com os produtores locais. “Encontramos novos contadores de histórias e novas histórias todos os dias”. Recentemente a estreia de Narcos teve um evento ‘passadeira vermelha’ no Rio de Janeiro com todo o glamour de Hollywood. A série, produzida pela francesa Gaumont teve o investimento e é um exclusivo da Netflix. Foi filmada na Colômbia, com atores e equipa brasileira e colombiana. A realização é do brasileiro José Padilha (Tropa de Elite) e tem o também brasileiro Wagner Moura como protagonista da história baseada na vida do barão da droga Pablo Escobar. Quem já viu diz que é de um nível superlativo. Narcos é a prova também que a televisão está a fazer de todo o mundo um palco, com as suas produções em cenários reais, em paradeiros distantes de Hollywood, e não em estúdio, e sem imagens criadas por computador, enveredando por uma novo tipo de realismo. Nisto a Netflix não está sozinha. A HBO - a rival mais direta - para a Guerra dos Tronos (série que acaba de entrar no Guinness ao ganhar 12 Emmy), monta linhas de produção simultâneas em paragens tão distantes como a Croácia, Sevilha e Belfast.

A Netflix está a produzir neste momento no Reino Unido The Crown, no México, Club de Cuervos, em França, Marseille. “São séries de grande orçamento e para nós é espetacular podermos distribuir conteúdos locais em línguas que não o inglês e que são vistas no mundo inteiro”.

Club de Cuervos foi disponibilizada em agosto, “para todos os países onde estamos, falado em espanhol e com legendas”, diz Sarandos, uma cara já muito conhecida no meio do entretenimento, casado com uma diplomata que foi embaixadora nas Bahamas, e que com uma sonora gargalhada cinematográfica admite que se é reconhecido num avião “o mais certo é não conseguir dormir, porque haverá alguém a fazer a exposição de um argumento”. Sim, há boas histórias no mundo inteiro à espera que alguém aposte dinheiro a contá-las bem e a Netflix está a apostar nisso. “É caro e complicado, mas queremos fazer melhor que todos os outros. O Youtube tem imensa coisa que as pessoas podem ver. Nós queremos ter coisas excelentes que as pessoas querem pagar para ver”, entende Sarandos. Ao todo, a Netflix lançou a produção de 20 séries novas este ano. E tem ainda várias em repetições de temporada.

Marco Polo, estreado em dezembro de 2014, é outro exemplo de uma série de grande sucesso onde só o protagonista é desempenhado por um ocidental, Lorenzo Richelmy, sendo todos os outros de origem nipónica. E foi filmado na Malásia, em Veneza e no Casaquistão. A segunda temporada está a ser filmada na Malásia. Não podemos agora estar a culpar a América do seu proverbial etnocentrismo.”Quando chegarmos a Portugal não fechamos a porta, até porque o potencial é imenso. Há grandes oportunidades em todos os mercados. E é fabuloso ver como essas histórias podem ser vistas por audiências no mundo inteiro”. O local é o novo global. Dado importantíssimo: a Netflix estreou a sua primeira longa metragem, Beasts of No Nation, no Festival de Cinema de Veneza, desbravando território virgem para uma empresa de televisão, não sem o cheiro da polémica. Os donos das salas de cinema acusam a companhia de estar a matar o cinema como ele deve ser visto. Poderá ser um dos grandes desafios que a Sétima Arte terá de enfrentar no futuro próximo.

“O que nos define é a maneira como estamos a ser pioneiros, a uma escala global, da televisão do futuro, que é permitir às pessoas verem, graças à internet, o que quiserem quando quiserem. E estamos a originar conteúdos a uma velocidade chocante. Algum desse conteúdo será excelente, outro não. Mas estamos a fazer toneladas de coisas para adultos, crianças, jovens. Estamos a fornecer todo o tipo de coisas para pessoas com gostos muito diferentes”, diz Jonathan Friedland, o responsável pelas comunicações da empresa. Friedland pertenceu à equipa de jornalistas do Wall Street Journal que ganhou o Pulitzer com a cobertura do 11 de setembro e trocou os jornais pelo mundo empresarial “porque precisava de mandar os filhos para a Universidade”, mas aqui na Netflix diz dar-se ao luxo de ver as coisas mexer a um ritmo que lhe faz lembrar o do jornalismo. “Trabalhei na Disney e lá era muito difícil ver as coisas a acontecerem”. Resume a experiência desde que entrou na Netflix, há apenas quatro anos, assim: “Quando comecei estávamos em dois países, uma língua, três milhões de subscritores e tinha três pessoas a trabalhar para mim. Não tínhamos nenhum conteúdo original. Agora temos 65 milhões de subscritores, em mais de 50 países e nove línguas, temos um imenso pacote de originais e tenho 65 pessoas a trabalhar para mim”. E é, diz Jonathan, uma carreira de obstáculos e altos e baixos. Como no jornalismo. “Logo quando entrei quase destruímos a companhia; o valor das nossas acções passou de 350 para 50 dólares”. Recuperaram concentrando-se. “Não há nada como estarmos numa situação terrível para pôr toda a gente junta a pensar “.

No coração de Silicon Valley

Los Gatos é uma cidade de 30 mil habitantes e faz parte do chamado Silicon Valley, a zona na Califórnia onde se alojaram as grandes companhias tecnológicas. Tem o ar tranquilo de uma estância de férias, com prédios pequenos de inspiração mexicana, fazendo lembrar Vilamoura, no Algarve. Na sede da Netflix em Los Gatos trabalham 1.400 pessoas que Reed Hastings, o CEO da empresa garante serem a nata do mercado. “Pensamos nos funcionários como uma equipa de futebol. Queremos jogadores estrelas em todas as posições” e, para isso, diz Hastings, a Netflix tem uma política de emprego que se resume no seguinte: “Uma performance apenas adequada de um trabalhador dá direito a uma generosa indemnização por despedimento”. Sem rancores, diz. “Toda a gente sabe as regras do jogo”. A liberdade é grande, a responsabilidade é enorme e trabalhar na Netflix é pelo menos tão ou mais bem pago que no Facebook ou no Google. Mas a Netflix tem ainda uma política de “open source”. “Não temos segredos”, diz Neil Hunt, um escocês que há 27 anos trabalha com Hastings e está na Netflix  há 17, desde a criação da empresa, sendo o responsável desde sempre pela área tecnológica. “Somos incrivelmente abertos. É mais importante para nós deixar toda a gente ao corrente da investigação de ponta que fazemos. Quando contratamos um engenheiro informático ele já sabe tudo. E não perde tempo a recapitular a lição desde o início”. É preciso que a Netflix seja um sítio divertido para trabalhar, garante, e a ‘microgestão’ não faz parte da cultura da empresa. “As pessoas sabem o que têm a fazer e, trabalhando com fusos horários de todo o mundo, cada um organiza as suas prioridades. As missões estão muito bem definidas”.

Na sede da Netflix, há jovens engenheiros com os seus laptops na zona da esplanada ou sentados em sofás de bom design espalhados por todo o lado. Tal como a piada de Sillicon Valley, a série da rival HBO que pega nos estereótipos da cultura high tech desta zona a sul da Baía de São Francisco, andam em grupos de três e um deles é indiano.

Antes do meio dia juntam-se num espaço central para recolher as refeições onde só as embalagens são de plástico. Marlee Tart, a jovem relações públicas que nos conduz pelos cantos da casa, conta que, tal como muitos dos seus colegas, vive em São Francisco e usa um shutle da empresa para as deslocações. “Yeah”, diz Marlee, “é muito ‘cool’ trabalhar aqui”.

Passamos pela zona dos Nerds, um quase insulto que aqui é um acrónimo que significa Netflix Emergency Room for Desktops, e que é o gabinete onde se resolvem por Skype problemas informáticos em todos os postos da Netflix. E passamos por laboratórios, onde é testado o equipamento de todas as marcas no mundo inteiro onde é possível correr imagens via internet da Netflix. Uma das zonas é denominada SHU, como a Solitary Housing Unit, da série da Netflix Orange is The New Black. É uma espécie de solitária, com um isolamento de tal forma grande que se pode testar a tecnologia sem interferências externas.

Marlee conta que no último hackaton (o nome dado aos dias em que equipas de engenheiros, programadores e designers se juntam para criar coisas fora da caixa) a equipa da Netflix pôs um episódio de House of Cards a correr na consola de jogos da velhinha Nintendo DS, uma prova de que embora o serviço tenha uma utilização ideal nas smart TVs (onde em algumas já existe o botão para a aplicação Netflix) e de preferência em 4HD, passa virtualmente em múltiplos ecrãs. São cerca de três mil diferentes aparelhos que suportam o serviço e cada um deles foi testado aqui em Los Gatos.

Para o espetador, a dificuldade é mesmo escolher. Para isso, existe um algoritmo personalizado que leva a que cada cliente tenha um ecrã de abertura onde, durante 30 a 90 segundos, vai encontrar recomendações que lhe vão agradar. “Isso acontece porque vamos acumulando dados sobre cada um dos utilizadores”. Mas, garante Hunt, “todos os dados que recolhemos sobre os utilizadores mantemos top secret, não vendemos, não trocamos, não usamos para nada a não ser para prestar o melhor serviço possível. É, provavelmente, a única questão em que não somos abertos de todo”.

A Netflix, com a sua pegada de cobertura de 40% de lares norte-americanos, e uma ocupaçao de 37% de tráfego na internet (quando outros serviços como a Hulu e a Amazon Prime têm 2%) é uma das empresas online de maior crescimento. O espaço real que ocupa também está a crescer exponencialmente. No final de agosto mudaram parte da equipa para um dos dois grandes blocos feitos de raiz para albergar as necessidades crescentes. E a existência de zonas exteriores agradáveis onde se pode trabalhar foi vista como uma das prioridades. E quanto à sede dos conteúdos, em 2017 ela deverá passar da atual capital das celebridades, para o centro da ação, em Hollywood, num edifício na mítica Sunset Boulevard, com 200 mil metros quadrados. É uma prova de que a Netflix está a meter-se com os grandes estúdios e a prometer-lhes concorrência.

No final de 2016, Hastings espera estar em todo o mundo - já abriu delegações em Cuba, assim que o embargo foi levantado, e está a instalar-se no Japão - ,excepto em países como a China, a Coreia do Norte, a Crimeia e a Síria.

A multa por Apollo 13

Mas a caminhada para o sucesso começou com uma história simples e deliciosa. Em 1995 ou 1996 Hastings, um professor de Matemática, esqueceu-se de entregar no clube de vídeo o filme Apollo 13 e a pesada multa deu-lhe a ideia de lançar um serviço de entrega postal de DVD. “Mas a ideia de forncer conteúdos pela internet já estava presente, daí o nome Netflix e não dvdbymail.com “, conta. Hoje o ramo dos DVD ainda existe, com 5 milhões de membros, e para pessoas que estão menos confortáveis com as novas tecnologias. Mas está, tal como a televisão linear (a que é vista em directo) em vias de quse desaparecer, em muito menos de uma geração. A maneira como os países estão a estender fibra nos seus terrítórios garante a Hastings que o futuro será o serviço de conteúdos via internet . “Há uns três anos fui à Costa Rica a um sítio remoto para surfar com os meus filhos e percebemos que em caminhos de terra batida estavam a instalar fibra ótica. O governo dá mais importância a isso do que a pavimentar estradas”, conta Reed Hastings. “E isso é abrir caminho para a Netflix”, sorri, lembrando que recentemente meteu-se com Larry Paige, o CEO da Alphabet (a dona do motor de busca Google). “Disse-lhe que enquanto ele trabalha para aumentar a produtividade no mundo eu trabalho para diminui-la”.

telma.miguel@sol.pt

* em Los Angeles e Los Gatos (a jornalista viajou a convite da Netflix)