Sociedade

Naufrágio: Cinco dias de buscas, críticas e manifestações

As operações de busca e resgate dos sete tripulantes do arrastão que naufragou terça-feira, à entrada da barra da Figueira da Foz, duraram cinco dias e culminaram hoje com a descoberta do corpo do último pescador desaparecido.

Paulo Novais/Lusa
Paulo Novais/Lusa

As operações, conduzidas pela Autoridade Marítima Nacional, foram alvo de diversas críticas, primeiro por populares, depois por organizações sindicais e outras entidades, com acusações de atrasos no auxílio aos náufragos, na altura do acidente, escassa informação aos familiares, falta de meios e erros nos trabalhos de busca e resgate subsequentes.

As críticas começaram logo no altura do naufrágio, ocorrido às 19:15 de terça-feira e presenciado por várias dezenas de pessoas, por a Autoridade Marítima ter demorado quase uma hora a colocar embarcações na água.

Uma moto de água tripulada por um agente da Polícia Marítima de Aveiro, que estava de folga na Figueira da Foz, acabaria por resgatar com vida dois pescadores que estavam numa balsa salva-vidas, mas outro pescador - que chegou a estar agarrado ao casco da embarcação - acabou por morrer e o seu corpo foi recuperado por uma lancha daquela entidade, duas horas depois do naufrágio.

Na altura, a Autoridade Marítima recusou que tenha havido atrasos, alegou que uma hora foi o tempo necessário para aferir as condições de atuação dos meios de socorro e que os detritos, cabos e artes de pesca existentes no local do naufrágio impediram a opção por embarcações com hélices, reiterando que a moto de água era o único meio que podia ser utilizado em segurança.

Na ocasião, a Autoridade Marítima lembrou ainda que os tripulantes do arrastão não usavam coletes de salvação aquando do naufrágio.

Na quarta-feira, o sindicato dos trabalhadores portuários acusou a Autoridade Marítima de não ter meios para socorro, alegando que as estações salva-vidas do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) fecham às 18:00 e os seus profissionais cumprem horários da função pública, e a associação socioprofissional da Polícia Marítima alertou para as fragilidades do salvamento em Portugal.

Nesse mesmo dia, uma manifestação convocada por cidadãos, na rede social Facebook, juntou cerca de 300 pessoas em frente à Capitania do Porto local para contestar a atuação dos meios de socorro, e pescadores presentes no protesto tentaram invadir as instalações reclamando explicações e desculpas da Autoridade Marítima sobre as operações de salvamento e a falta de informação aos familiares.

Ainda na quarta-feira, a autarquia da Figueira da Foz decretou três dias de luto municipal e, no dia seguinte, quinta-feira, o presidente da Câmara, João Ataíde, disse que as medidas de prevenção falharam no naufrágio do arrastão, reiterando as críticas sindicais sobre o ISN encerrar às 18:00 e um dos salva-vidas estar avariado.

Antes, durante a manhã, mergulhadores da Polícia Marítima e da Armada conseguiram entrar no arrastão naufragado e recuperar os corpos de dois pescadores que estavam no interior.

O corpo de um terceiro pescador seria retirado pelos mergulhadores também do interior do arrastão, ao final do dia de sexta-feira, já depois de a embarcação ter sido removida do local do naufrágio (por uma empresa contratada pelo armador), para uma zona interior do rio Mondego, onde se mantém.

Ainda na sexta-feira, a Autoridade Marítima voltava a dizer, em comunicado, que as decisões tomadas nas operações foram "inequivocamente" as mais acertadas, mas o vice-presidente da Comunidade Portuária da Figueira da Foz acusou a Marinha de "incompetência", responsabilizando-a por a barra do porto continuar fechada, três dias após o acidente, críticas que repetiu no sábado, apontando erros às operações de resgate.

Ainda no sábado, a Procuradoria-Geral da República confirmou à agência Lusa que o Ministério Público abriu um inquérito, que se encontra em fase de investigação, à alegada demora dos meios de socorro à zona do naufrágio.

Nesse dia, as condições climatéricas agravaram-se, impossibilitando as buscas subaquáticas que decorriam no rio, no intuito de encontrar o pescador que continuava desaparecido.

Paralelamente, um sonar lateral do Instituto Hidrográfico efetuou uma 'radiografia' ao fundo do rio, em busca de objetos que pudessem causar danos à navegação, ação relacionada com a possibilidade de reabertura da barra, fechada desde o dia do naufrágio, com quatro navios no interior do porto sem poderem sair e seis à espera de entrar, que continuam ao largo.

Finalmente, hoje, após nova operação com o sonar da Marinha, a barra reabriu de forma condicionada, apenas para a saída dos quatro cargueiros. Quando o primeiro navio se encaminhava para o mar, o rebocador que o acompanhava detetou, em frente à marina da Figueira da Foz, um corpo a boiar no rio, que veio a confirmar-se ser o do pescador ainda desaparecido.

A administração portuária espera agora que a empresa de salvação marítima responsável pela remoção do arrastão e das artes de pesca que estão no fundo do rio possa realizar esses trabalhos, até ao início da tarde de segunda-feira, possibilitando a reabertura da barra e a entrada no porto dos seis cargueiros que permanecem ao largo.

Lusa/SOL