Internacional

Estado Islâmico em seis tempos

"Era o ambiente perfeito, combinámos juntarmo-nos quando saíssemos e tivemos muito tempo para planear”. Abu Ahmed, um dos fundadores do Estado Islâmico, falou ao Guardian quando a crescente brutalidade do grupo o fez desertar. Referia-se ao campo de detenção de Bucca, um dos 24 onde o exército dos EUA aprisionava milhares de combatentes sunitas que em 2004 resistiam ao fim de Saddam Hussein. Em Bucca e nos restantes centros reuniu-se a elite do jihadismo sunita: foi lá que Ahmed conheceu Abu Bakr al-Baghdadi, o homem que em 2014 anunciou a intenção de estabelecer um califado na região.

ISIS, ISIL, EI ou DAESH? São muitos os nomes atribuídos ao grupo terrorista, sendo a última sigla, um acrónimo do nome em árabe, usada pelos próprios após a fundação. Mas um problema fonético - em árabe a palavra assemelha-se a um insulto - levou Baghdadi a proibir o seu uso, prometendo cortar a língua a quem violasse a regra. No Ocidente, a maioria adotou o termo Estado Islâmico para se referir ao grupo que no nome original se propõe a impor a sharia no Iraque e no Levante - região que inclui Chipre, Jordânia, Israel, Palestina, Líbano, Síria e partes da Turquia.

Em dezembro de 2011, mês da retirada das últimas tropas norte-americanas, muitos dos sunitas que ocupavam os centros de detenção foram transferidos para prisões iraquianas. Outros, como Baghdadi, estavam em liberdade a preparar o momento. O então Estado Islâmico do Iraque, associado à al-Qaeda, já controlava grande parte da região ocidental do país. Com a ajuda dos milhares de combatentes que libertou das prisões (e do início da guerra civil na Síria) conseguiu alastrar-se para Norte. Na monitorização constante que faz do conflito, a IHS anunciou em julho que o EI perdera cerca de 9,4% do seu território no primeiro semestre de 2015, controlando 81.197 km2 entre o Iraque e a Síria. Portugal continental tem uma área de 89.015 km2.

Vladimir Putin disse esta semana ter provas de que há 40 países a financiar o terrorismo do EI, “incluindo alguns membros do G20”. Uma acusação que há muito recai sobre as potências sunitas do Médio Oriente, com Arábia Saudita e Qatar à cabeça, mas nem sempre foi assim: o grupo começou por dedicar-se ao rapto de iraquianos abastados, depois foi controlando a riqueza das regiões conquistadas. Bancos, impostos, empresas privadas e, principalmente, centros petrolíferos foram e são fontes de receita fundamentais para os homens de Baghdadi. Segundo o think tank INEGMA, do Dubai, o EI chegou a controlar mais de 350 poços petrolíferos (alguns foram entretanto recuperados ou destruídos pela coligação internacional) que davam um lucro de três mil milhões de dólares diários na venda de petróleo no mercado negro. Já o Instituto pela Economia e Paz estima que o grupo tenha receitas fiscais de 11 milhões de dólares por mês, a que se somam 500 milhões anuais na venda de petróleo.

Foram mais de 30 mil os estrangeiros que se juntaram às fileiras do EI desde 2011, anunciou esta semana o Index Global de Terrorismo do Instituto pela Economia e Paz. O estudo indica que cerca de metade desses combatentes chegaram dos países da região, sendo a Tunísia o que mais terá contribuído com estimativas a apontarem para os três mil voluntários. Na Europa, de onde chegaram mais de sete mil, a França é quem mais contribui, com números próximos dos tunisinos. A Bélgica é dominadora na contribuição per capita (mais de 40 por cada milhão de habitantes) numa lista que continua a engrossar: no primeiro semestre de 2015 chegaram mais de sete mil guerrilheiros, alerta o Index, que não refere a estimada presença de poucas dezenas de portugueses na Síria.

O vídeo da decapitação de James Foley, jornalista norte-americano que fora raptado na Síria, apresentou ao mundo a crueldade do Estado Islâmico. Os horrores cometidos eram relatados desde a primeira cidade iraquiana capturada pelos terroristas, com denúncias de pessoas queimadas vidas, violações e execuções em massa. Mas foi só com o poder da imagem que o EI se conseguiu afirmar na agenda mediática, o que terá levado os seus dirigentes a repetir a fórmula inúmeras vezes: fossem coptas egípcios numa praia líbia ou um piloto da força aérea da Jordânia a ser queimado vivo. A tentativa de genocídio da comunidade yazidi, no Curdistão, foi outro momento baixo de uma história manchada de sangue e que teve na última sexta-feira o seu último episódio. Até agora.

nuno.e.lima@sol.pt